Olha, eu estou com cólica então nem me levem muito a sério – vocês nunca me levam a sério, e fazem muito bem, rs – mas sei lá, estou muito de saco cheio. Todo mundo diz que por pior que você ache a sua família, você vai sentir falta dela quando estiver “lá fora” e blá blá blá... mas sério, eu mal posso esperar pra conhecer pessoas que conseguem ser piores que os meus irmãos.
Recentemente eu descobri que a minha mãe é uma criatura legal – vamos resumir isso, ok?
A tal coisa que eu queria dizer faz tempo mas não estava pronta pra dizer [e ainda não estou, e não vou estar nunca, mas vou dizer mesmo assim; eu queria ter contado pra Rafa antes porque ela é a minha best, mas como ela está dormindo agora, e eu preciso contar agora ou não contarei nunca, sinto muito best] é que a Karen vai ter outro filho.
E tipo, porra, é a quarta pior coisa que podia acontecer. A primeira seria EU estar grávida – o papa deve ser mais sexualmente ativo do que eu –, a segunda seria eu não ir pra Curitiba, e a terceira seria cancelarem himym [ou eu repetir de ano? Sei lá, tem tanta coisa ruim]
Aí tipo, quando ela me contou eu surtei totalmente. Passei dias totalmente surtada. Sabe o que é você não ter a mínima idéia de como a sua vida vai ser quando acontecer algo? Algumas coisas você pode contar com a sorte pra adiar, mas isso realmente vai acontecer e com data certa.
E cara, foram dias péssimos. Eu me divertia, ria, dormia, saía de casa, lia um livro, daí alguma palavra, ou alguma imagem, me fazia lembrar: “porra, minha mãe vai ter outro filho”.
Ela está toda feliz com isso. Sério, como alguém pode ficar feliz por estar grávida? Não é que eu esteja odiando a idéia, o filho é dela, vai ser meu irmão e eu provavelmente vou gostar dele, mas eu estou sendo racional. Como ela vai sustentar quatro filhos? Como os filhos dela vão crescer? Que tipo de educação eles vão ter? Sabe, o tipo de coisa com que uma pessoa normal se preocupa. O Michel e a Michelle já são super desequilibrados e mal-educados por causa da criação totalmente liberal deles – ao passo que eu sou totalmente desequilibrada e egoísta por causa da minha criação totalmente rígida. E, por mais que nos últimos tempos eu esteja tentando compreender a Karen, ela é de fato totalmente desequilibrada emocionalmente e, o pior, financeiramente. Alguém assim não devia ter nem um filho, imagina três.
Eu passei dias pensando. Eu chorei, e chorei muito, porque se antes já era difícil imaginar o futuro, imagina agora. Não é que eu estou fazendo drama, mas eu simplesmente não consigo pensar quando vai ser quando esse bebê nascer. Você conseguiria? Vai mudar muita coisa, muita coisa mesmo.
Então eu chamei a Karen pra conversar. Sempre que a gente conversa, ela monologa sobre as coisas que ela já disse mil vezes, eu tento me defender, ela não me deixa falar e a gente briga feio. Ou então eu ouço tudo quieta e depois vou chorar de raiva. Mas não dessa vez, porque eu disse pra ela só ouvir tudo o que eu ia dizer, e acho que eu estava muito pálida e trêmula, porque ela só ficou lá quietinha ouvindo.
Eu disse que eu nunca me senti parte da família, mesmo quando eu era filha única, eu me isolava, passava o dia inteiro quietinha vendo TV, ou então desenhando, escrevendo, lendo, brincando de Barbie no quarto, qualquer coisa que eu pudesse fazer longe de todo mundo. Eu cresci assim mas, por algo muito controverso que eu nunca vou entender, eu ao mesmo tempo tinha – e tenho – aquela personalidade indecifrável, intransponível, que mantém as pessoas afastadas, e também aquela personalidade toda sonhadora e tal, o lado bregão mesmo. Só que todas as pessoas com quem eu tinha esse lado bregão e sentimental me decepcionaram – algumas continuam decepcionando.
E olha só, esse parágrafo todo não é drama não, ok? Quando eu era criança, óbvio que eu era muito bem tratada – apesar da criação horrivelmente rígida que eu tive, e de ter apanhado muito, eu não era exatamente espancada todo dia E tinha boa parte das coisas que eu queria, o que pra mim quer dizer que eu tive anos felizes de infância. – mas mesmo assim, eu mesma me isolei, não sei bem porque, e eu aprendi a passar a maior parte do tempo sozinha. E agora que eu serei “a mais velha de quatro irmãos” – isso soa tão literário – parece que é uma justificativa bastante boa pra eu sair daqui e procurar meu próprio caminho.
Você sabe, me emancipar.
Eu estou morrendo de medo, cara. Não quero fazer isso porque acho bonitinho ou porque quero me aparecer. Quero fazer isso porque muitas vezes a Karen me jogou na cara que quando eu era criança eu tinha uma vida boa, e que “os coitadinhos dos seus irmãos não tem nem metade do que você teve”. Deve ser por isso que ela deixa eles fazerem o que querem, por remorso de não poder comprar brinquedos caros pra eles.
E eu sei que se eu continuar aqui vão me jogar isso na cara cada vez mais. Quando o bebê nascer eu vou ter quase 16, e, como eu já disse, eu admiro muito quem sai de casa com 15, 16 anos pra ir atrás do que quer. Eu não sei ao certo o que eu quero pra mim, mas pela primeira vez na vida, eu não vou agir como uma egoísta, e vou sair de casa pra eles três poderem ter uma vida melhor. E, obviamente, pra descobrir o que eu quero da vida, ou o que a vida quer de mim.
Eu tenho certeza de que vai ser difícil. Imagina você indo embora da casa da sua mãe pra viver sozinha em outra cidade no meio do segundo ano do ensino médio. Eu simplesmente não consigo me imaginar passando por isso, mas eu vou, aah eu vou. Porque eu não quero chegar aos 24, 25 anos, estando na casa da mamãe, tendo um empreguinho imbecil que mal dá pra comprar minhas coisas, me arrependendo de não ter arriscado, com todo mundo jogando na minha cara que eu sou um peso pra eles, e me tornar uma pessoa amarga por ter perdido os melhores anos da minha vida.
Eu já me conformei que eu nunca vou ser rica, provavelmente nunca vou casar, certamente e felizmente nunca vou ter filhos, mas se eu continuar muito mais tempo morando aqui, minha vida não vai nem ser uma vida. É como colocar um carro normal sem ninguém dentro numa pista de formula 1. Deixe ele no piloto automático e comece a corrida. Na primeira curva ele vai se despedaçar contra a parede.
É exatamente assim que vai ser a minha vida se eu não seguir meu próprio caminho, longe daqui. Vou estar na casa da mamãe, sendo uma bunda-mole sem coragem de fazer nada, e diante da primeira dificuldade vou me despedaçar.
We’re dancing on the streets between the chaoses, and there’s an airplane coming from the future to save us -n
Ah, vou postar a letra dessa música ↑ é uma das melhores coisas que eu já escrevi na vida. Se eu tivesse uma voz boa eu já estaria ahazamdo faz tempo -t
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