segunda-feira, 29 de novembro de 2010

brightly dusted with a neon light

Não tem nada que me faça gostar mais dessa cidade do que andar pelas ruas fracamente iluminadas pelas luzes de natal ao entardecer de um dia como hoje. Calmo, nublado, ameno. Próximo ao natal. O tipo de coisa simples que se torna fascinante. Olhar as grandes e imponentes casas, as casas menores baixinhas e antigas mas ainda assim lindas, as lojas, as luzes.
As luzes da cidade exercem um fascínio quase que lírico sobre mim. Amo decoração de natal porque deixa as ruas tão lindas. Amo fogos de artifício do reveillon. Fico mais felizinha quando posso vislumbrar boa parte da cidade tingida de tons de laranja, mas tenho medo de andar sozinha de noite por essas ruazinhas parcamente iluminadas, até porque fico razoavelmente perdida e isso não é legal.
Minha caminhada de hoje foi mágica. Ouvindo the classic crime e beeshop, me perdendo um pouco, sentindo saudades de coisas que eu não me lembro de ter vivido mas às quais me atenho. Coisas que vivi mentalmente. O trecho “where do you live? / mostly in my head” nunca fez tanto sentido.
Chego a cogitar construir minha vida aqui. Podia ficar nublado pra sempre, e então eu amaria enlouquecidamente essa cidadezinha cheia de suor e péssimo gosto pra músicas e pessoas, tão carente de bons cursos universitários e boas opções de diversão pras minorias.
Ruas pequenas, estreitas, antigas e com essas construções adoráveis me fascinam há um bom tempo. Já tinha uma inclinação inexplicável pra adorá-las antes, e daí li Marcos Rey.
Pode ser que se eu reler algum livro dele agora, que quatro, cinco anos atrás era meu mundo, eu pense “meu Deus que coisa babaca”, assim como foi quando cresci e reli A marca de uma lágrima, um remake meia-boca de Cyrano de Bergerac. Era meu livro preferido aos 12 anos. As palavras mais lindas e verdadeiras que eu achava já ter lido. Me fazia chorar copiosa e sinceramente naquela fase tumultuada da minha vida onde eu não era criança, nem bem adolescente, nem tinha todas as coisas legais que as pessoas ao meu redor tinham. E ansiava por elas. E as encontrava nos livros.
Então prefiro deixar Marcos Rey imaculado nos tenros anos da minha genialidade (porque agora eu sou bem burra se comparada a antes), e lembrar dos livros dele com esse sentimento inexplicável que me faz amar as bobagens.
Seus livros eram ambientados no bairro italiano do Bexiga, em São Paulo. Não me lembro se suas descrições eram precisas ou se tudo fluía da minha mente, mas o fato é que eu imaginava o desenrolar da história em cenários exatamente como os que eu estive hoje, em dias nublados. Isso vem de Gincana da morte. Nunca a morte de um personagem me afetou tanto, nem mesmo os de Harry Potter (que é uma ótima história rica em detalhes extremamente criativos, mas eu nem sou mais tão apaixonada por esse mundo).
Gincana da morte se passava em dias chuvosos, em ruas antigas, tinha o melhor investigador do mundo. Na época eu não tinha bom diálogo com a minha mãe, não tinha amigos (não que eu tenha tido em algum outro ponto da vida), quase não tinha dinheiro pra comer. Tudo o que eu tinha pra me apegar no mundo eram os livros. É tipo o que o Diogo representa pra mim agora, uma razão pra continuar viva e atenuar a solidão e o enfado dos dias quase iguais da minha vida. E fizeram aqueles tempos valerem a pena, muito mais se eu o tivesse desperdiçado com pessoas que agora sei que não teriam valido a pena. Sempre soube, só tinha medo de ficar sozinha. And now I know, never gonna be alone.

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