Eu não sei se cresci ou se perdi minha essência, não consigo me lembrar do que eu realmente era. Perdedora, apaixonada, inteligente ao extremo. Vendo por esse lado, só o status da inteligência mudou. Eu escrevia bem – inocência, dom. Eu tinha tantos sonhos e tantos planos – mas tudo ainda era distante, eu podia idealizar o futuro como bem entendesse. Todo mundo achava bonitinho eu ler Sargento de Milícias aos dez anos, ir pra São Carlos e dizer que queria estudar Astrofísica lá aos doze. Eu me via como uma visionária, acreditava que era especial porque tinha um dom e algum dia encontraria alguém reconheceria isso, só então eu conheceria o sentido da vida. Bem, eu encontrei. Já o dom, se algum dia existiu, aparentemente se foi. E não é simples como eu imaginava. Não é só ser correspondida e acabou.
Como posso dizer que era aquela minha essência, se eu não tinha nenhuma consciência do mundo? Se eu não sabia quão dura é a busca pela vaga numa boa faculdade, pela harmonia no relacionamento – a pressão me massacra agora e sei que mais pra frente surgirão mais preocupações, muito mais adultas que essas. Se eu achava que simplesmente seria encontrada no meio da multidão como um Where’s Wally dos talentos no qual eu chegava a resplandecer perto dos outros?
Hoje eu sei que sou quase ordinária na escrita e nas relações interpessoais. Sei o quanto é difícil tentar ser uma boa namorada, uma boa estudante, boa em tudo – e muitas vezes falhar miseravelmente.

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