sexta-feira, 22 de abril de 2011

C'est ta force et ta faiblesse mais je suis conquise

Meu namorado é um visionário, lê filosofia russa por diversão, ouve Wagner e Mozart, é um gênio da matemática, ama literatura clássica, é capaz de discorrer sobre del Toro ou Kubrick ou qualquer outro com propriedade, valoriza MPB e cinema dos anos 50. Eu quero ser maravilhosa assim também, mas dentro dos meus próprios interesses. Eu o amo e o admiro, mas não pretendo tornar-me um clone monótono.
É como aquelas histórias onde a mocinha de boa família se apaixona pelo motoqueiro, e curiosamente eu sempre me julguei certinha o suficiente pra fazer o papel feminino.
Eu quero ser absolutamente convicta do que sou, sei e gosto. Mas acho que ainda não chegou a hora, e até lá tudo será um bocado confuso. Ao mesmo tempo em que ele e minha mãe me protegem pra que eu não seja influenciada por qualquer um, eles sutilmente direcionam-me para o curso que desejam que eu tome – e, por estarem tão profundamente ligados a mim, não serão impessoais.
Mas não importa; prefiro ser conduzida por aqueles que mais me amam na vida até que eu consiga caminhar pelas próprias pernas, do que me deixar ser levada eternamente pelo mundo. Não desejo ser um fardo eterno. Apesar de tudo, sinto que estou no caminho pra me tornar alguém como eles nesse sentido, mas também alguém única – encontrar o que tenho que ser, meu âmago singular e intransferível.
Em sua ânsia de querer uma filha que fosse melhor, mais inteligente, mais capaz do que ela tinha sido, minha mãe foi rígida comigo desde a mais tenra idade. Antes de eu entrar na primeira série, me ensinou a não chamar a professora de tia porque isso era coisa de criancinha. Me fazia estudar aquela matéria reles pra que eu fosse a melhor. E eu fui. Eu era uma criança sozinha, salvo minhas pequenas discípulas que se associavam a mim porque eu tinha a cobiçada caixa com 48 lápis. Mas quem se importa em ser sozinha quando se é a melhor?
Mas ah, como era fácil ser criança. Ser adorada pelos professores por saber o que era obrigação de todos saberem mas ninguém sabia. Ser respeitada pelas meninas por ter bons materiais escolares. Poder confiar cegamente nas escolhas que minha mãe fazia por mim. Mesmo que estivessem erradas, ela as reparava antes que eu me desse conta. Era como se minha mãe nunca errasse. Ela se tornou a imagem da impecabilidade. Sua rigidez valeu a pena no fim das contas.
Cresci pra ser alguém muito acima da média, mas longe de ser extraordinária. Só o sou porque a média é baixa demais. Possuo certo intelecto mas, se ele tem algum destaque, não é por meu mérito e sim pela ausência dele na maioria das pessoas. E, além de quase comum, me tornei alguém que não sabe tomar decisões.
Muitas vezes opto por A e no momento seguinte vejo como B era muito melhor. Muitas vezes deixo que o façam por mim devido à minha total incapacidade de escolher. Mas somos todos humanos, passíveis de erros. Minha mãe não podia lavar as mãos de uma escolha errada que ela tenha feito por mim. Mas agora ela ou qualquer outra pessoa em cujas mãos eu coloque meu destino por assim dizer, podem simplesmente dizer “você me pediu pra escolher, o erro foi seu. A vida é sua”.
A vida é minha. Mas que dádiva e que fardo.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

please put the doctor on the phone 'cause i'm not making any sense

As pessoas estão tão certas sobre o que elas querem, o que elas gostam, o que elas querem pro futuro e o que elas farão pra tanto. Mas eu não. Eu tenho uma vaga idéia do que quero, mas às vezes me sinto carregada nas costas pelos bem-resolvidos ao meu redor. Estou na linha tênue entre “quero assumir responsabilidades, juro que quero” e “mas porque tem que ser agora?”. Não sei se é uma coisa que tem que me vir naturalmente, ou se eu tenho que me esforçar pra me tornar tão responsável quanto esperam que eu seja.
Às vezes tudo fica em slow motion e eu me dou conta de algo chocante – chocante porque era uma verdade óbvia dançando conga diante do meu nariz e eu não tinha visto até então. Levo alguns minutos pra absorver aquilo e, como um personagem de mini-game, sinto-me reenergizada, absorvendo vidas-bônus, me tornando muito mais preparada pra enfrentar o big boss ou qualquer outro pequeno empecilho que me faça perder porcentagem de vida.
Não consigo viver e analisar ao mesmo tempo. Primeiro vivo, depois analiso. E muitas vezes classifico a ação como errônea. Algo que parecia completamente certo de manhã agora me soa absurdo, ou vice-versa.
Devo sentir-me viva ou apenas envergonhada por estar em tão constante transformação?
Minhas células da derme e das unhas se reciclam com um ritmo admirável, mas minha personalidade, e sobretudo meus pensamentos, conseguem superar sua rapidez.
A loucura muitas vezes é produto de uma mente brilhante arruinada pelo overthink. E se ainda não saí do terreno aceitável da sanidade, é por pouco brilhantismo, não por pouco pensamento.
Eu sou volúvel. E minha volubilidade vem do fato de que eu sempre quero me tornar o que as pessoas esperam de mim. Não apenas da pressão da sociedade, já quase que totalmente superada, mas da vontade de agradar meu público, mesmo que este seja imaginário. É o câncer das pessoas comunicativas. Você sente a necessidade de se tornar parte do povo e de deixar que eles façam parte de você. E de repente não há mais limite entre sua vontade e a vontade alheia.
É claro que eu não faço as coisas porque alguém quer ou manda. Ainda não tenho chefe, fui criada sem pai, e já obtive alforria materna, mesmo que não tenha chegado à idade. Mera formalidade.
Mas me pus a pensar ultimamente: eu faço muitas coisas porque me convenço de que quero. Não porque outra pessoa me convenceu, mas porque seus pensamentos me contaminaram mesmo que elas não quisessem. É puro consumismo mental. Meu eu-lírico faz compras na mente alheia e me traz pensamentos que não são meus mas que por fagocitose passam a fazer parte de mim.
Sempre julguei que soubesse ao menos tudo o que eu odeio, porque é mais fácil. Diz-se que amar é instantâneo, mas odiar é inesquecível. Mas nem isso.
Vamos lá, odeio Radiohead. Daí ouvi a mais maravilhosa versão de Creepy, cantada por um dos meus músicos preferidos (ao menos atualmente). Quero dizer, é um cover, mas vem do Radiohead, certo? E eu não posso odiar alguém que fez essa coisa linda, CERTO?
“Odeio uma garota que tentou me separar do Diogo”. Mas ela não conseguiu, certo? Eu nem vejo mais a sujeita, certo? Eu tenho mais o que fazer, CERTO?
E boa parte do que eu acreditava se parte diante dos meus olhos, como um espelho convexo, que mostrava uma minúscula parcela da realidade e todo o resto distorcido.
Não importa se a realidade muda ou permanece a mesma, o importante é que eu troque regularmente as lentes pelas quais as vejo. Que elas estejam polidas pra cometer o mínimo possível de erros.
Espero que não tenha prendido nenhum provável leitor até aqui apenas pela ânsia de descobrir como separar o que eu realmente sou do que o mundo me faz ser temporariamente, porque eu ainda não descobri, e provavelmente quando descobri-lo não poderei dar-lhes como fórmula porque será um caminho só meu, o qual nenhuma outra pessoa saberia ou conseguiria trilhar. Mas devo dizer: a maioria das coisas não são permanentes, mas não significa que não sejam importantes. São fases pelas quais é preciso passar e sem as quais a vida seria tão séria que você quase se sentiria na obrigação de pedir desculpas por ter cometido uma única e minúscula coisa estúpida no meio de toda uma trilha de impecabilidade.
Não quero ser impecável. Quero chatear as pessoas que amo o mínimo possível, sofrer o mínimo possível, mas não me privar de pequenas coisas estúpidas. Viver em sua plenitude é um erro a ser cometido, e não me refiro a vida social ou coisas assim. Cada um sabe o que é o seu conceito de viver plenamente. Cada um sabe das pequenas coisas que constituem sua felicidade.
Envergonhar-se e jurar não repetir algo do passado recente é sinal de crescimento desde então. Sentir-se feliz com uma coisa boba e que você jamais fará de novo não é errado. É uma felicidade efêmera, mas a própria vida o é. Muita coisa pode ser sacrificada, mas só vale a pena dispensar sacrifícios e esforços homéricos em busca de uma idealizada felicidade maior quando você também se permite ter fatias menores de felicidade, pois uma não anula a outra, e não há nenhuma garantia de que a “grande felicidade” chegará, ou quando será. Não é conformismo, é o raciocínio óbvio de que não vale a pena ser totalmente infeliz só pra se guardar pra uma grande felicidade muitas vezes ilusória.

sábado, 16 de abril de 2011

racing to outrun the wind

Engraçado o modo como às vezes você tem vários caminhos que podem ser seguidos, e mesmo não sabendo qual deles você deseja, você sabe aquele que você imagina que nunca vai tomar.
Então por algum motivo, você acaba por enveredar-se naquele mais improvável. Pode ser que seja apenas porque os outros estão obstruídos, mas normalmente é porque todos os outros, cedo ou tarde, vão acabar lhe conduzindo àquele, não importa qual tenha sido tomado inicialmente. Mesmo que você não perceba. Não existe outro caminho senão o que você se recusou veementemente a trilhar.
É natural a todos nós fazer o possível para realizar as próprias escolhas, mas nos esquecemos que somos como moléculas a receber calor, sujeitas a nos chocar umas nas outras freneticamente. Esquecemos-nos de que muitas vezes vamos ser os escolhidos, e não aqueles que escolhem.
Isso nada tem a ver com o deixa a vida me levar vida leva eu, a inércia na qual mergulhamos consciente ou inconscientemente em inúmeras situações da vida, atribuindo poder a tudo, menos a nós mesmos. Devemos, pois, fazer todo o possível pra trilhar o caminho que desejamos, pra viver a vida que planejamos, para que prevaleça nossa escolha. Todavia, se mesmo com esforços homéricos os fatos saírem de nosso controle, ouso dizer que pode ser parte de um plano maior.
Na efemeridade do momento, deixamos de valorizá-lo. Pois não é possível ao mesmo tempo vivê-lo em sua plenitude e analisá-lo, classificando se é ou não importante. Nosso reconhecimento aos momentos extraordinários é demasiadamente tardio.
Dois anos atrás. Não foi o melhor momento da minha vida, tampouco um dos melhores, mas pelo que sei até então foi o mais importante. O início da transição. Onde o preâmbulo começaria a ser história, e a história não seria escrita apenas por mim.
É claro que eu queria tê-lo conhecido sob circunstâncias pomposas. Nossos filhos gostariam de ouvir uma história que os fizesse acreditar no amor e buscá-lo a todo custo. Mas não foi nada disso. Eu, desde que passei a compreender um pouco do mundo ao meu redor, via novelas e sonhava (admito, cedo demais. Demais mesmo) em ter um amor como aqueles. Então, na avançadíssima idade de quatorze anos, eu desisti. Bad move, Lourenço. Porque algum dos roteiristas lá de cima olhou pra mim e pensou “Desistiu, é? Agora você vai ver”.
E é claro que na época eu não sabia. Eu não poderia imaginar. Gostava dele, de modo genérico – ele falava de música e cinema com maestria, não como aqueles moleques idiotas que existiam por toda parte, por quem muitas vezes eu tinha tido uma queda. Ele gostava de bandas que eu nem sonhava que mais alguém na cidade poderia ouvir. Ele era bonitinho – não lindo como veio a se tornar no ano seguinte, mas jamais poderia ser considerado feio. Só era alto demais pra mim e como ficava nervoso pra falar comigo, acabava sendo formal demais. Nenhum problema horrível.
Mas de algum modo haviam barreiras entre nós. Sabíamos das bandas que o outro gostava e das matérias que tínhamos tido nas aulas antes do intervalo, mas era só. Tínhamos uma relação agradável, cordial, distante. Não era o que todo mundo procura por uma vida inteira ou mais que isso, e eu não podia imaginar que ele se acabaria se tornando pra mim o que todo mundo procura por uma vida inteira ou mais que isso. Desconheço como foi exatamente que as circunstâncias me jogaram de volta nos braços dele, desta vez verdadeiramente, mas me sinto grata. Tenho meus sonhos e planos talhados em matéria gelatinosa e em nuvem. Farei todo o possível para alcançá-los, mas sei que ao longo do tempo, alguns deles vão mudar, porque a pessoa que os desejará será diferente da que agora os deseja. Tenho em mente que nenhum esforço é vão, que se eu não me esforço eu realmente não mereço nada; mas, que se eu me esforço e não consigo X, é porque conseguirei Y, que é muito melhor que X. Porque não só é fruto do meu esforço, mesmo que indireto, como faz parte de algum tipo de plano maior, algo que no final das contas terá sido o melhor – por mais que não pareça, ou que o alcance limítrofe da minha compreensão não queira aceitar.

domingo, 3 de abril de 2011

the mirror of the soul

E me veio a mente essa injeção que tomei dez anos atrás ou pouco menos. Minha primeira injeção. Na minha primeira série, em 2001 a.C., eu provavelmente era muito mais fodida que em qualquer outro ano. Todo dia tava caindo na escola, toda semana ficando doente, era um gigantesco ímã de desastres, exercendo uma força gravitacional sobre qualquer tragédia bem maior que agora.
Nessa vez em especial eu tinha passado uns três dias delirando. Eu ouvia uma música na minha cabeça – muito comum isso; sempre achava que era o vizinho que tava colocando música bem alto tarde da noite, mas ela estava na minha mente. Eu perguntava pra minha vó e pra minha mãe porque ele nunca desligava o som, mas ninguém mais ouvia. Bizarro isso, e até hoje não sei por quê. Não é possível uma criança de seis anos (ou menos, boa parte das vezes) guardar uma música inteira em inglês na mente a ponto de ouvi-la perfeitamente.
Além desse Media Player bizarro no meu cérebro, eu olhava pra parede e a via se distorcer, e vários pontos luminosos em formato da metade disso aqui ஜ. Era muito comum eu ver esse troço quando olhava pro sol, quando apertava bem o olho e depois abria, ou de olhos fechados sob a luz. E obviamente estava vomitando, espirrando, com dor de ouvido. Até eu tenho sintomas de gente normal.
Daí o Mário e a Karen me levaram pra tomar injeção. Eu sei que provavelmente não tem nenhum conterrâneo meu lendo esse blog mas eu morava no Hilda e na época só existia o pronto-socorro do Santana. Mundializando isso, do Hilda até o centro são uns 10km, suponho. E do centro até lá mais uns 6. Longe, lotado, com todas aquelas dores insuportáveis.
Eu fui com meu brinquedo preferido de todos, um ursinho carinhoso cor-de-rosa com desenho de arco-íris na barriga, tão velho que já não tinha mais o arco-íris e tinha adquirido um tom tristemente desbotado. Só deixei de ser tão grudada com minha ursa e parei de dormir abraçada a ela no ano passado, quando o Diogo me deu uma almofada de coração. Enfim. Eu estava apavorada, então minha mãe teve a idéia genial de falar que a ursa também ia tomar injeção. E fez até dublagem dela. Nunca me esquecerei da Karen dizendo “é gostoso e não dói” com voz idiota de bebê enquanto eu sentia uma dor horrível, excruciante, que me fez passar a noite inteira deitada no banco detrás com a bunda pra cima berrando, e a semana inteira sem conseguir sentar. Claro que eu dei escândalo e meio pronto-socorro correu pra ver o que era, mas isso não é pertinente, é?
Agora eu não sou mais tão doente, tirando meus ataques de sinusite diários. É muito difícil eu tomar uma injeção na bunda, acho que hoje foi a terceira da vida (e a segunda foi em 2009 quando eu torci o dedinho do pé), e é uma coisa perfeitamente normal. Uma picadinha desconfortável e pronto, nova em folha.
Certo, esse olho com lágrima na imagem do post não é porque eu voltei a 2007 (claro que eu postava fotos de olhos chorando sangue, como todos os sensíveis da época), mas porque eu peguei conjuntivite (thanks a lot, mom. Ela pegou primeiro e, ao invés de ficar quietinha reclusa, ficou desfilando pela sala e todo mundo pegou, menos o Mário e o Diogo).
É nessas horas que a gente resolve mandar os ditos populares pro inferno, porque se os olhos fossem o espelho da alma, a minha estaria um bocado embaçada, dolorida, míope (peguei meus óculos de grau ontem) e suja. Eu praticamente estaria num círculo do inferno que nem Dante foi capaz de visitar.
E claro que quando a gente fica doente começa a filosofar porque não tem mais porra nenhuma pra fazer. O corpo debilitado faz a mente funcionar em toda sua plenitude. A estática física parece fazer com que toda a energia corporal vá pros neurônios, e eles fervilham. Talvez eu tenha lembrado dessa história pela situação se repetindo dez anos depois e eu reagindo de modo muito diferente. Cada um faz o que pode fazer, e consegue o melhor no momento em que está preparado.
Vamos tomar por exemplo o político mais popular do globo. Ele era um péssimo operário, porque que tipo de idiota que não curte uma apotemnofilia arrancaria o próprio dedo? E apesar de toda a manipulação da Globo quando ele perdeu pro Collor, acredito que na época o Lula não estivesse preparado pra ser o homem mais importante do país. Assim como FHC era a porra de um ótimo Ministro da Fazenda, mas foi péssimo presidente. Assim como um monte de gente cheia de potencial falha miseravelmente por ter escolhido B ao invés de A em um único ponto da vida que arruinou todas as escolhas certas. Assim como um monte de gente assume a responsabilidade de fazer algo e o esforço não a torna competente ou preparada. Assim como gente totalmente aleatória simplesmente surge do nada e faz algo incrível.
Eu com seis anos foi tipo “a injeção está pronta pra mim, mas eu estou pronta pra injeção?”. Não estava, claro. Mas nesse caso era inevitável. So help me God, pra que eu possa saber quando é imperioso que eu faça tal coisa imediatamente, e quando é possível procrastiná-la até que eu esteja preparada.
E pra que meus olhos não caiam enquanto isso.