Engraçado o modo como às vezes você tem vários caminhos que podem ser seguidos, e mesmo não sabendo qual deles você deseja, você sabe aquele que você imagina que nunca vai tomar.
Então por algum motivo, você acaba por enveredar-se naquele mais improvável. Pode ser que seja apenas porque os outros estão obstruídos, mas normalmente é porque todos os outros, cedo ou tarde, vão acabar lhe conduzindo àquele, não importa qual tenha sido tomado inicialmente. Mesmo que você não perceba. Não existe outro caminho senão o que você se recusou veementemente a trilhar.
É natural a todos nós fazer o possível para realizar as próprias escolhas, mas nos esquecemos que somos como moléculas a receber calor, sujeitas a nos chocar umas nas outras freneticamente. Esquecemos-nos de que muitas vezes vamos ser os escolhidos, e não aqueles que escolhem.
Isso nada tem a ver com o deixa a vida me levar vida leva eu, a inércia na qual mergulhamos consciente ou inconscientemente em inúmeras situações da vida, atribuindo poder a tudo, menos a nós mesmos. Devemos, pois, fazer todo o possível pra trilhar o caminho que desejamos, pra viver a vida que planejamos, para que prevaleça nossa escolha. Todavia, se mesmo com esforços homéricos os fatos saírem de nosso controle, ouso dizer que pode ser parte de um plano maior.
Na efemeridade do momento, deixamos de valorizá-lo. Pois não é possível ao mesmo tempo vivê-lo em sua plenitude e analisá-lo, classificando se é ou não importante. Nosso reconhecimento aos momentos extraordinários é demasiadamente tardio.
Dois anos atrás. Não foi o melhor momento da minha vida, tampouco um dos melhores, mas pelo que sei até então foi o mais importante. O início da transição. Onde o preâmbulo começaria a ser história, e a história não seria escrita apenas por mim.
É claro que eu queria tê-lo conhecido sob circunstâncias pomposas. Nossos filhos gostariam de ouvir uma história que os fizesse acreditar no amor e buscá-lo a todo custo. Mas não foi nada disso. Eu, desde que passei a compreender um pouco do mundo ao meu redor, via novelas e sonhava (admito, cedo demais. Demais mesmo) em ter um amor como aqueles. Então, na avançadíssima idade de quatorze anos, eu desisti. Bad move, Lourenço. Porque algum dos roteiristas lá de cima olhou pra mim e pensou “Desistiu, é? Agora você vai ver”.
E é claro que na época eu não sabia. Eu não poderia imaginar. Gostava dele, de modo genérico – ele falava de música e cinema com maestria, não como aqueles moleques idiotas que existiam por toda parte, por quem muitas vezes eu tinha tido uma queda. Ele gostava de bandas que eu nem sonhava que mais alguém na cidade poderia ouvir. Ele era bonitinho – não lindo como veio a se tornar no ano seguinte, mas jamais poderia ser considerado feio. Só era alto demais pra mim e como ficava nervoso pra falar comigo, acabava sendo formal demais. Nenhum problema horrível.
Mas de algum modo haviam barreiras entre nós. Sabíamos das bandas que o outro gostava e das matérias que tínhamos tido nas aulas antes do intervalo, mas era só. Tínhamos uma relação agradável, cordial, distante. Não era o que todo mundo procura por uma vida inteira ou mais que isso, e eu não podia imaginar que ele se acabaria se tornando pra mim o que todo mundo procura por uma vida inteira ou mais que isso. Desconheço como foi exatamente que as circunstâncias me jogaram de volta nos braços dele, desta vez verdadeiramente, mas me sinto grata. Tenho meus sonhos e planos talhados em matéria gelatinosa e em nuvem. Farei todo o possível para alcançá-los, mas sei que ao longo do tempo, alguns deles vão mudar, porque a pessoa que os desejará será diferente da que agora os deseja. Tenho em mente que nenhum esforço é vão, que se eu não me esforço eu realmente não mereço nada; mas, que se eu me esforço e não consigo X, é porque conseguirei Y, que é muito melhor que X. Porque não só é fruto do meu esforço, mesmo que indireto, como faz parte de algum tipo de plano maior, algo que no final das contas terá sido o melhor – por mais que não pareça, ou que o alcance limítrofe da minha compreensão não queira aceitar.
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