Meu namorado é um visionário, lê filosofia russa por diversão, ouve Wagner e Mozart, é um gênio da matemática, ama literatura clássica, é capaz de discorrer sobre del Toro ou Kubrick ou qualquer outro com propriedade, valoriza MPB e cinema dos anos 50. Eu quero ser maravilhosa assim também, mas dentro dos meus próprios interesses. Eu o amo e o admiro, mas não pretendo tornar-me um clone monótono.
É como aquelas histórias onde a mocinha de boa família se apaixona pelo motoqueiro, e curiosamente eu sempre me julguei certinha o suficiente pra fazer o papel feminino.
Eu quero ser absolutamente convicta do que sou, sei e gosto. Mas acho que ainda não chegou a hora, e até lá tudo será um bocado confuso. Ao mesmo tempo em que ele e minha mãe me protegem pra que eu não seja influenciada por qualquer um, eles sutilmente direcionam-me para o curso que desejam que eu tome – e, por estarem tão profundamente ligados a mim, não serão impessoais.
Mas não importa; prefiro ser conduzida por aqueles que mais me amam na vida até que eu consiga caminhar pelas próprias pernas, do que me deixar ser levada eternamente pelo mundo. Não desejo ser um fardo eterno. Apesar de tudo, sinto que estou no caminho pra me tornar alguém como eles nesse sentido, mas também alguém única – encontrar o que tenho que ser, meu âmago singular e intransferível.
Em sua ânsia de querer uma filha que fosse melhor, mais inteligente, mais capaz do que ela tinha sido, minha mãe foi rígida comigo desde a mais tenra idade. Antes de eu entrar na primeira série, me ensinou a não chamar a professora de tia porque isso era coisa de criancinha. Me fazia estudar aquela matéria reles pra que eu fosse a melhor. E eu fui. Eu era uma criança sozinha, salvo minhas pequenas discípulas que se associavam a mim porque eu tinha a cobiçada caixa com 48 lápis. Mas quem se importa em ser sozinha quando se é a melhor?
Mas ah, como era fácil ser criança. Ser adorada pelos professores por saber o que era obrigação de todos saberem mas ninguém sabia. Ser respeitada pelas meninas por ter bons materiais escolares. Poder confiar cegamente nas escolhas que minha mãe fazia por mim. Mesmo que estivessem erradas, ela as reparava antes que eu me desse conta. Era como se minha mãe nunca errasse. Ela se tornou a imagem da impecabilidade. Sua rigidez valeu a pena no fim das contas.
Cresci pra ser alguém muito acima da média, mas longe de ser extraordinária. Só o sou porque a média é baixa demais. Possuo certo intelecto mas, se ele tem algum destaque, não é por meu mérito e sim pela ausência dele na maioria das pessoas. E, além de quase comum, me tornei alguém que não sabe tomar decisões.
Muitas vezes opto por A e no momento seguinte vejo como B era muito melhor. Muitas vezes deixo que o façam por mim devido à minha total incapacidade de escolher. Mas somos todos humanos, passíveis de erros. Minha mãe não podia lavar as mãos de uma escolha errada que ela tenha feito por mim. Mas agora ela ou qualquer outra pessoa em cujas mãos eu coloque meu destino por assim dizer, podem simplesmente dizer “você me pediu pra escolher, o erro foi seu. A vida é sua”.
A vida é minha. Mas que dádiva e que fardo.
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