E me veio a mente essa injeção que tomei dez anos atrás ou pouco menos. Minha primeira injeção. Na minha primeira série, em 2001 a.C., eu provavelmente era muito mais fodida que em qualquer outro ano. Todo dia tava caindo na escola, toda semana ficando doente, era um gigantesco ímã de desastres, exercendo uma força gravitacional sobre qualquer tragédia bem maior que agora.
Nessa vez em especial eu tinha passado uns três dias delirando. Eu ouvia uma música na minha cabeça – muito comum isso; sempre achava que era o vizinho que tava colocando música bem alto tarde da noite, mas ela estava na minha mente. Eu perguntava pra minha vó e pra minha mãe porque ele nunca desligava o som, mas ninguém mais ouvia. Bizarro isso, e até hoje não sei por quê. Não é possível uma criança de seis anos (ou menos, boa parte das vezes) guardar uma música inteira em inglês na mente a ponto de ouvi-la perfeitamente.
Além desse Media Player bizarro no meu cérebro, eu olhava pra parede e a via se distorcer, e vários pontos luminosos em formato da metade disso aqui ஜ. Era muito comum eu ver esse troço quando olhava pro sol, quando apertava bem o olho e depois abria, ou de olhos fechados sob a luz. E obviamente estava vomitando, espirrando, com dor de ouvido. Até eu tenho sintomas de gente normal.
Daí o Mário e a Karen me levaram pra tomar injeção. Eu sei que provavelmente não tem nenhum conterrâneo meu lendo esse blog mas eu morava no Hilda e na época só existia o pronto-socorro do Santana. Mundializando isso, do Hilda até o centro são uns 10km, suponho. E do centro até lá mais uns 6. Longe, lotado, com todas aquelas dores insuportáveis.
Eu fui com meu brinquedo preferido de todos, um ursinho carinhoso cor-de-rosa com desenho de arco-íris na barriga, tão velho que já não tinha mais o arco-íris e tinha adquirido um tom tristemente desbotado. Só deixei de ser tão grudada com minha ursa e parei de dormir abraçada a ela no ano passado, quando o Diogo me deu uma almofada de coração. Enfim. Eu estava apavorada, então minha mãe teve a idéia genial de falar que a ursa também ia tomar injeção. E fez até dublagem dela. Nunca me esquecerei da Karen dizendo “é gostoso e não dói” com voz idiota de bebê enquanto eu sentia uma dor horrível, excruciante, que me fez passar a noite inteira deitada no banco detrás com a bunda pra cima berrando, e a semana inteira sem conseguir sentar. Claro que eu dei escândalo e meio pronto-socorro correu pra ver o que era, mas isso não é pertinente, é?
Agora eu não sou mais tão doente, tirando meus ataques de sinusite diários. É muito difícil eu tomar uma injeção na bunda, acho que hoje foi a terceira da vida (e a segunda foi em 2009 quando eu torci o dedinho do pé), e é uma coisa perfeitamente normal. Uma picadinha desconfortável e pronto, nova em folha.
Certo, esse olho com lágrima na imagem do post não é porque eu voltei a 2007 (claro que eu postava fotos de olhos chorando sangue, como todos os sensíveis da época), mas porque eu peguei conjuntivite (thanks a lot, mom. Ela pegou primeiro e, ao invés de ficar quietinha reclusa, ficou desfilando pela sala e todo mundo pegou, menos o Mário e o Diogo).
É nessas horas que a gente resolve mandar os ditos populares pro inferno, porque se os olhos fossem o espelho da alma, a minha estaria um bocado embaçada, dolorida, míope (peguei meus óculos de grau ontem) e suja. Eu praticamente estaria num círculo do inferno que nem Dante foi capaz de visitar.
E claro que quando a gente fica doente começa a filosofar porque não tem mais porra nenhuma pra fazer. O corpo debilitado faz a mente funcionar em toda sua plenitude. A estática física parece fazer com que toda a energia corporal vá pros neurônios, e eles fervilham. Talvez eu tenha lembrado dessa história pela situação se repetindo dez anos depois e eu reagindo de modo muito diferente. Cada um faz o que pode fazer, e consegue o melhor no momento em que está preparado.
Vamos tomar por exemplo o político mais popular do globo. Ele era um péssimo operário, porque que tipo de idiota que não curte uma apotemnofilia arrancaria o próprio dedo? E apesar de toda a manipulação da Globo quando ele perdeu pro Collor, acredito que na época o Lula não estivesse preparado pra ser o homem mais importante do país. Assim como FHC era a porra de um ótimo Ministro da Fazenda, mas foi péssimo presidente. Assim como um monte de gente cheia de potencial falha miseravelmente por ter escolhido B ao invés de A em um único ponto da vida que arruinou todas as escolhas certas. Assim como um monte de gente assume a responsabilidade de fazer algo e o esforço não a torna competente ou preparada. Assim como gente totalmente aleatória simplesmente surge do nada e faz algo incrível.
Eu com seis anos foi tipo “a injeção está pronta pra mim, mas eu estou pronta pra injeção?”. Não estava, claro. Mas nesse caso era inevitável. So help me God, pra que eu possa saber quando é imperioso que eu faça tal coisa imediatamente, e quando é possível procrastiná-la até que eu esteja preparada.
E pra que meus olhos não caiam enquanto isso.
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