A finíssima linha entre se dedicar aos estudos, tentando assim garantir um futuro melhor, e ser infeliz. Outra, entre se divertir sempre que possível e acabar debaixo da ponte daqui uns anos.
Um cara morreu na USP – na USP, esse lugar mágico que qualquer um já ousou devanear em um dia estudar. Num campus de economia. E meu Deus, isso me afetou de verdade. Poderia ter sido meu namorado.
E se fosse, teria ele morrido feliz, sabendo que estudou freneticamente por dez, quinze horas por dia, deixando de lado diversão, descanso, e grande parte das vezes sua namorada, pra que seu arquitetado futuro brilhante jamais chegasse? Pra terminar a vida com um tiro na cabeça bem diante de seu carro no penúltimo ano de faculdade?
Não há fórmulas, não há garantias, apenas múltiplas possibilidades. Tenho desprezado a maioria das pessoas ao meu redor porque elas não se preocupam com futuro e uma boa faculdade, mas e se daqui uns anos estiverem em melhor situação que eu? É uma idéia odiosa, injusta, torpe, mas pode acontecer. Ou eu posso simplesmente morrer amanhã, com pouquíssimas memórias que me permitam dizer que viver valeu a pena, no fim das contas.
Definitivamente não sou equilibrada. Não no meu temperamento, mas tenho tentado não ficar em nenhuma das pontas da corda. Não vou me obrigar a estudar 12 horas por dia, nem perder a chance de fazer algo que eu me divirta de verdade – ultimamente, só ir no Porks já compensa todas as frustrações da semana.
Se a responsabilidade em relação ao futuro é uma piscina, eu sou aquela que senta na beira com as pernas mergulhadas e fica tomando uma coca, daí quando o calor aumenta muito, entra e fica lá num canto de pé na água (não-metaforicamente eu também sou assim porque não sei nadar).
Estou farta de pessoas que nem se aproximam da piscina, mas também me assustam aquelas que pulam de barriga.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
sábado, 7 de maio de 2011
Temível Pégaso
Incrível como as pessoas se apegam a símbolos pra fingir que tudo está bem.
Tratam da morte do Osama como se fosse o fim do Mal. É como estar de volta à época da inquisição, quando a morte de uma feiticeira era vista com grande alívio – mais que isso, com uma satisfação animalesca em matar. Mas não por gostar de sangue quente, mas por ideologia. Patética, absurda, mas já infundida no senso comum.
Não existem bonzinhos. Porque, dos infinitos pontos de vista que se pode ter sobre um tema, pelo menos um dos ângulos o verá como vilão.
É sabido que Osama já esteve do outro lado. Durante a guerra fria, o líder da Al-Qaeda foi recrutado, vejam só, pela CIA. Ontem uma menina do cursinho usou o termo “cobra criada dos EUA”, uma definição inteligente e precisa.
E sinceramente, creio que as autoridades não dão a mínima pras três mil pessoas que morreram, gerando luto mundial – porque nós assistimos à cobertura do atentado com as lentes americanas –, pânico completo (mesmo que eu fosse muito nova pra saber disso na época) e um filme ruim com o Robert Pattinson. Eles se preocuparam com o impacto sobre o Pentágono, e sobretudo por terem tido uma falha na segurança.
Enfim, o ponto de vista que eu quero deixar claro: Osama bin Laden morreu por puro e burro simbolismo, considerando que esteja morto. E se não estiver, mais burrice ainda, vão acabar pagando caro sem nem terem matado o cara.
Sua morte pode fazer os americanos respirarem aliviados por algum tempo – sabe-se lá quanto tempo? – mas eventualmente, haverá novos ataques, novos revides, mais ataques. Nem sei mais quem foi que começou isso. Caso alguém tenha paciência pra ler toda a história do terrorismo, isso aqui me parece bom (claro que eu não li tudo).
O ataque foi como cortar um ser que se reproduz por bipartição achando que vai matá-lo. É como Medusa, grandiosa e temível, sendo destruída por Perseu, mero mortal, que apenas usou seu escudo para refletir a imagem da Górgona de volta – resta saber como será o Pégaso da nova ordem mundial após a Terceira Grande Guerra, desta vez química, física e biológica, tão letal que quase quero pedir ajuda de Atena e Hermes.
Tratam da morte do Osama como se fosse o fim do Mal. É como estar de volta à época da inquisição, quando a morte de uma feiticeira era vista com grande alívio – mais que isso, com uma satisfação animalesca em matar. Mas não por gostar de sangue quente, mas por ideologia. Patética, absurda, mas já infundida no senso comum.
Não existem bonzinhos. Porque, dos infinitos pontos de vista que se pode ter sobre um tema, pelo menos um dos ângulos o verá como vilão.
É sabido que Osama já esteve do outro lado. Durante a guerra fria, o líder da Al-Qaeda foi recrutado, vejam só, pela CIA. Ontem uma menina do cursinho usou o termo “cobra criada dos EUA”, uma definição inteligente e precisa.
E sinceramente, creio que as autoridades não dão a mínima pras três mil pessoas que morreram, gerando luto mundial – porque nós assistimos à cobertura do atentado com as lentes americanas –, pânico completo (mesmo que eu fosse muito nova pra saber disso na época) e um filme ruim com o Robert Pattinson. Eles se preocuparam com o impacto sobre o Pentágono, e sobretudo por terem tido uma falha na segurança.
Enfim, o ponto de vista que eu quero deixar claro: Osama bin Laden morreu por puro e burro simbolismo, considerando que esteja morto. E se não estiver, mais burrice ainda, vão acabar pagando caro sem nem terem matado o cara.
Sua morte pode fazer os americanos respirarem aliviados por algum tempo – sabe-se lá quanto tempo? – mas eventualmente, haverá novos ataques, novos revides, mais ataques. Nem sei mais quem foi que começou isso. Caso alguém tenha paciência pra ler toda a história do terrorismo, isso aqui me parece bom (claro que eu não li tudo).
O ataque foi como cortar um ser que se reproduz por bipartição achando que vai matá-lo. É como Medusa, grandiosa e temível, sendo destruída por Perseu, mero mortal, que apenas usou seu escudo para refletir a imagem da Górgona de volta – resta saber como será o Pégaso da nova ordem mundial após a Terceira Grande Guerra, desta vez química, física e biológica, tão letal que quase quero pedir ajuda de Atena e Hermes.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Letter to D
Vanuatu, 6 de maio de 2011
Meu querido,
Você já parou para se perguntar o que é a felicidade? Sei que vais dizer que seu emprego bem-remunerado na Bolsa de Valores o faz feliz, e eu não duvido. Temos tido uma vida confortável e plena na maior cidade do país, onde somos profissionais bem-sucedidos. Brigamos pouco, ainda somos tão apaixonados como quando nos conhecemos. Mas essa é só uma das faces da felicidade, e nos últimos dias, eu conheci outra.
Venho a escrever-lhe do longínquo arquipélago de Vanuatu, sentada na areia branca sob um céu outonal tingido de matizes de vermelho, sentindo a brisa do mar no rosto e contemplando-o, turquesa, à minha frente. Estou numa pequena aldeia onde os vizinhos sorriem pra mim, ouvem minhas histórias e contam as suas, sentados diante da fogueira ou dentro de suas aconchegantes cabanas. Nós dividimos tudo, não somente a comida e o trabalho – minhas novas amigas me fizeram vestidos lindíssimos e eu as vesti com minhas roupas caras. Eles são tão gentis e acolhedores que até o trabalho é divertido.
Apesar de todas as facilidades e prazeres da grande cidade, nossos vizinhos sempre nos foram hostis, nunca nos endereçaram sequer um bom-dia. Estranhos na rua só nos abordaram para nos assaltar, nunca tivemos amigos em quem confiar verdadeiramente e, por mais que eu ame meu trabalho, devo admitir que muitas vezes estive à beira de uma crise de nervos por causa dele. Aqui tenho conforto apesar da simplicidade, amizades verdadeiras com pessoas simples e desprovidas da crueldade capitalista, e as mais maravilhosas paisagens, como se o céu, o mar e as pessoas se fundissem num ponto só. Parece-me a coisa mais certa deste mundo estar em Vanuatu, mas não quero está-lo sem você.
Nós temos bastante dinheiro no banco, ainda não temos filhos e nem me lembro qual foi a última vez que você tirou férias. Venha comigo. Largue seu emprego, seus ternos, encha uma mala de bermudas e pegue um avião. Embora minha vontade seja passar o resto da vida aqui, vamos dizer que estamos de férias. Deixarei que o lugar, as pessoas, o céu e o mar lhe mostrem quanto tempo devemos permanecer aqui.
Com amor, T.
domingo, 1 de maio de 2011
Hey kiddo, you gotta move forward.
Não se regride. Trilha-se, ao longo de um extenso caminho, alguns trechos muito similares a um já traçado. Mas por mais que você queira, não pode voltar pra sexta à noite, quando o final de semana oficialmente começou – contente-se em esperar a próxima. E valorize os dias bons, muitas vezes similares mas nunca idênticos.
E é exatamente a mesma coisa com a vida, porque ela é o próprio tempo. “Lifetime” é uma palavra um tanto redundante porque não sem o tempo não há a vida. Mas sem a vida, há o tempo. Logo, esta é a maior força existente. Intransferível, indestrutível, não pode ser parada.
É claro que você pode parar. Andar pros lados. Nisso a vida difere do tempo, por não ser uma força tão devastadora quanto ele. Mas desejar o passado, valorizar mais o já transcorrido do que o a transcorrer, é patético. As pessoas pensam que estão sendo profundas. Tenha boas lembranças da sua infância. Odeie a moda atual. Diga que sua pré-adolescência foi muito mais bem-aproveitada do que a das meninas de doze anos de agora, porque toda geração acha que as outras são uma porcaria. Mas em relação à sua própria vida, é claro que o futuro será melhor. Não acreditar nisso é viver sem propósito.
A cada ano que passa, os mais velhos falam que sua vida está só começando, ou mesmo que nem começou. Mas aos 16, 17, você sabe que já passou por um bocado de coisa – mesmo que sim, ainda tenha muito a viver e a conhecer. É um tanto paradoxo, você já esteve em dificuldades, mas provavelmente virão maiores. Às vezes elas parecem sofrimentos intermináveis, às vezes coisas bobas, apenas pedaços de fios, comparadas à tapeçaria da vida.
Pensando nos últimos meses, eu vejo que fui irresponsável e não me arrependo – não adianta. Mas a partir do momento que você começa a sair da areia movediça na qual estava acostumada a viver, respirar ar puro e ter liberdade de movimentos passa a fazer muito mais sentido, e você simplesmente quer sair de lá e nunca mais se afundar de novo.
E é exatamente a mesma coisa com a vida, porque ela é o próprio tempo. “Lifetime” é uma palavra um tanto redundante porque não sem o tempo não há a vida. Mas sem a vida, há o tempo. Logo, esta é a maior força existente. Intransferível, indestrutível, não pode ser parada.
É claro que você pode parar. Andar pros lados. Nisso a vida difere do tempo, por não ser uma força tão devastadora quanto ele. Mas desejar o passado, valorizar mais o já transcorrido do que o a transcorrer, é patético. As pessoas pensam que estão sendo profundas. Tenha boas lembranças da sua infância. Odeie a moda atual. Diga que sua pré-adolescência foi muito mais bem-aproveitada do que a das meninas de doze anos de agora, porque toda geração acha que as outras são uma porcaria. Mas em relação à sua própria vida, é claro que o futuro será melhor. Não acreditar nisso é viver sem propósito.
A cada ano que passa, os mais velhos falam que sua vida está só começando, ou mesmo que nem começou. Mas aos 16, 17, você sabe que já passou por um bocado de coisa – mesmo que sim, ainda tenha muito a viver e a conhecer. É um tanto paradoxo, você já esteve em dificuldades, mas provavelmente virão maiores. Às vezes elas parecem sofrimentos intermináveis, às vezes coisas bobas, apenas pedaços de fios, comparadas à tapeçaria da vida.
Pensando nos últimos meses, eu vejo que fui irresponsável e não me arrependo – não adianta. Mas a partir do momento que você começa a sair da areia movediça na qual estava acostumada a viver, respirar ar puro e ter liberdade de movimentos passa a fazer muito mais sentido, e você simplesmente quer sair de lá e nunca mais se afundar de novo.
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