Vanuatu, 6 de maio de 2011
Meu querido,
Você já parou para se perguntar o que é a felicidade? Sei que vais dizer que seu emprego bem-remunerado na Bolsa de Valores o faz feliz, e eu não duvido. Temos tido uma vida confortável e plena na maior cidade do país, onde somos profissionais bem-sucedidos. Brigamos pouco, ainda somos tão apaixonados como quando nos conhecemos. Mas essa é só uma das faces da felicidade, e nos últimos dias, eu conheci outra.
Venho a escrever-lhe do longínquo arquipélago de Vanuatu, sentada na areia branca sob um céu outonal tingido de matizes de vermelho, sentindo a brisa do mar no rosto e contemplando-o, turquesa, à minha frente. Estou numa pequena aldeia onde os vizinhos sorriem pra mim, ouvem minhas histórias e contam as suas, sentados diante da fogueira ou dentro de suas aconchegantes cabanas. Nós dividimos tudo, não somente a comida e o trabalho – minhas novas amigas me fizeram vestidos lindíssimos e eu as vesti com minhas roupas caras. Eles são tão gentis e acolhedores que até o trabalho é divertido.
Apesar de todas as facilidades e prazeres da grande cidade, nossos vizinhos sempre nos foram hostis, nunca nos endereçaram sequer um bom-dia. Estranhos na rua só nos abordaram para nos assaltar, nunca tivemos amigos em quem confiar verdadeiramente e, por mais que eu ame meu trabalho, devo admitir que muitas vezes estive à beira de uma crise de nervos por causa dele. Aqui tenho conforto apesar da simplicidade, amizades verdadeiras com pessoas simples e desprovidas da crueldade capitalista, e as mais maravilhosas paisagens, como se o céu, o mar e as pessoas se fundissem num ponto só. Parece-me a coisa mais certa deste mundo estar em Vanuatu, mas não quero está-lo sem você.
Nós temos bastante dinheiro no banco, ainda não temos filhos e nem me lembro qual foi a última vez que você tirou férias. Venha comigo. Largue seu emprego, seus ternos, encha uma mala de bermudas e pegue um avião. Embora minha vontade seja passar o resto da vida aqui, vamos dizer que estamos de férias. Deixarei que o lugar, as pessoas, o céu e o mar lhe mostrem quanto tempo devemos permanecer aqui.
Com amor, T.
Nenhum comentário:
Postar um comentário