A vida é esse projeto torto – como galhos de uma árvore, nunca vai linear até o fim, sempre se ramifica. Projetos são desviados, opiniões mudam, vontades são sacrificadas muitas vezes por serem substituídas por melhores.
Mas o crescimento não é cruel, não deixa tudo e todos pra trás. Existem padrões que sobressaem, folhas que permanecem, ramos que levam ao mesmo lugar. Há constante mutação, por si só e pelo vento. A existência muitas vezes nos sopra histórias quase a esmo, de tão inacabadas. Temos o hábito de relatar apenas histórias com princípio, meio, fim e moral – mas a realidade nem sempre é assim. Muita coisa parece completamente despropositada.
Assisti Histórias de amor duram apenas 90 minutos esses dias. Nunca tive paciência pra cinema, nunca me imaginei assistindo um filme nacional que mal foi veiculado – but here we are. É uma história densa, verdadeira, plausível, com toda a naturalidade do mundo que por vezes pensei estar diante dum drama real – e tudo isso coroado por um final babaca. Artisticamente babaca.
Porque simplesmente não tem bem um fim. O personagem principal (não que venha ao caso, mas adoro o Caio Blat desde que me lembro de existir) termina mais fodido do que começou: sem mulher, sem inspiração pra escrever. Confesso que esse choque de realidade tão forte não me agrada – não é por isso que estamos sempre procurando refúgio nas artes, onde as coisas, se não acabam bem, dão uma áurea de grandiosidade ao nosso herói?
Mas não morre o avestruz se enfiar-se na terra pra todo o sempre? Não morre o peixe quando explora uma profundidade maior do que deveria? Morremos também nós, figurativamente, ao fazermos do conforto de uma história de amor bem-sucedida nosso refúgio de ilusões pela eternidade. Morrem nossos neurônios ao lermos só histórias onde se é feliz para sempre e buscarmos ímpar e contínua perfeição. A perfeição é o agora, não o sempre.
Muitas vezes somos anti-heróis de nossa própria vida – sem contar da vida alheia. Ousamos achar que a história é nossa quando na verdade estamos fazendo figuração na vida alheia, impedindo a felicidade daqueles que teríamos escalado pra serem felizes a nosso lado. Acabamos, como o Zeca do filme, parados diante de um monitor com um documento em branco e sem ninguém – vazio completo. Nenhum final feliz, mal e mal um final – só acaba o ciclo. Uma batalha perdida.
A vida não precisa ser um livro aberto, mas é sempre um livro em aberto – tudo pode mudar ou permanecer a mesma porcaria. Existir é o mais grandioso e cruel espetáculo, dado que o protagonista nunca sabe suas linhas de cor e não faz idéia do que o impiedoso Maestro lhe reserva. E nunca saberá. Nunca assistiremos a nosso próprio gran finale, são nossos parentes e amigos que verão descer as cortinas de nossa existência, com os olhos cheios de lágrimas genuínas. Só não é inacabado o que está morto.
Nenhum comentário:
Postar um comentário