sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Pt. I — Dead Memories

Nunca foi um conto de fadas, mas ainda assim era mágico, muito mais mágico do que sapatinhos de cristal e abóboras – era mais como Alice, num mundo pouco desvendado, num mundo que ninguém podia ter certeza se era real.
As coisas podem ser muito menos dolorosas do que se imagina, basta um mínimo de coragem. Basta encontrar pessoas que induzam um grão de mostarda de amor-próprio a transformar-se numa grande mudança de vida. Eu encontrei, encontrei, e encontrei de novo.
Eu fui muito bem no Enem – muito melhor do que eu podia esperar, é até injusto pelo tanto que eu estudo (quase nada), mas quem disse que a vida é justa e quem disse que cabe a nós o imediatismo de desentortá-la custe o que custar?
Em todos os outros términos, reinou o meu desespero de não saber o que fazer da vida – a percepção de que eu tinha uma vida inteira pela frente me assustava, e agora me fascina: eu. tenho. a. vida. inteira. pela. frente.
Quanta coisa eu posso fazer, quanta gente eu posso conhecer. Como é ingênuo pensar que só existe uma pessoa com quem a gente pode ser feliz pra sempre. Como é preciso um amor descomunal e bilateral e uma compreensão quase divina pra viver pro resto da vida com o cara que você conheceu aos quatorze anos e tentou adaptá-lo ao que você sempre sonhou, enquanto ele fazia o mesmo com você e obtinha mais sucesso.
A melancolia por deixar pra trás uma boa parte da minha vida existe, mas a sensação de poder sobre meu destino, de ter amplas escolhas de um futuro a se descortinar à minha frente é grandiosa. O fim de uma fase importante é sempre doloroso, mas é como levar pontos no hospital – ou ao menos suponho, eu que fui uma criança quieta, que nunca subiu em árvores, que nunca caiu de cabeça pra ter que ser costurada.
Você se sente remendado, frágil e forte ao mesmo tempo. Eu sei que vou acabar deixando a parte dolorosa sobressair se eu ouvir uma música triste, como uma criança que não pára de mexer um minuto nos pontos e acaba sangrando muito mais do que precisava. Mas eu posso optar por ser forte. Chega de induzir sofrimento, porque reconheço como tudo foi bom pra mim – tudo o que eu aprendi no amor e na dor, tudo o que eu descobri que não quero, todos os erros que eu nunca mais preciso cometer porque já sei que são erros. Nós dois amadurecemos tanto, e é nisso que eu me firmo: fizemos bem um pro outro até onde deu. As lembranças afinal são feitas, não pra ferir, mas pra provocar aquele sorriso de quem diz “éramos tão ingênuos e tão felizes”.

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