terça-feira, 25 de janeiro de 2011

every single day of my life



"Quando encarnamos, nossas vidas podem seguir por rumos aparentemente diferentes e distantes, mas se há o entrelaçamento do destino, mais cedo ou mais tarde os caminhos se cruzam, e o que parecia impossível se torna uma inexplicável coincidência."

sábado, 15 de janeiro de 2011

upon pilars of salt and pilars of sand





Me lembro do dia que fui com o Mário e a Karen pra eles comprarem suas alianças. Eu tinha uns sete anos. Ou seis, não sei. Era uma época que eu vivia ficando doente e me machucando na escola, e o lugar era pros lados do pronto-socorro, talvez por isso tenha ficado registrado na minha cabeça, nosso cérebro tem essas coisas estranhas.
Eles ficaram um tempão se decidindo entre uns modelos que pra mim pareciam idênticos mas que aparentemente faziam toda a diferença pra minha mãe. Na época não éramos tão pobres. Eles eram um casal jovem e feliz começando uma vida, eu e minha vó adoramos o Mário desde a primeira vez que o vimos, com ares de intelectual consertando o vhs – o que ele realmente não era mas em compensação limpava a cozinha sem reclamar, de modo que minha mãe não podia ter encontrado alguém melhor. As coisas ainda iam bem e eu, que crescera vendo novela e sempre fora bem babaca inocente, imaginava que todo mundo era obrigado a casar com uma cerimônia tradicional católica e até estava um pouquinho empolgada me imaginando sendo dama de honra – porque é claro que eu seria, eu era filha única da minha mãe e o Mário não tinha filhos nem sobrinhas.

Depois do que me pareceram horas, eles finalmente compraram suas alianças de ouro, embora não fossem casar oficialmente. Os anos passaram, as alianças começaram a ser esquecidas na pia com mais freqüência, a vida começou a desmoronar (não por causa disso, evidentemente). Imagino que eles tenham sido felizes apesar de tudo, mas não posso dizer que foram um casal que eu tenha como exemplo pra construir uma vida a dois.
E nesse intervalo de tempo eu construía meus conceitos, a maioria dos quais foram derrubados quando eu vivi e soube como era tem alguém que depende em grande parte de mim pra ser feliz. Aprendi coisas sem sentido e bobas na novela e coisas ainda mais bobas com as crianças da escola. Nesse sentido eu era independente e auto-suficiente: sempre preferi não saber do que perguntar. Sabia que as pessoas ririam de mim e não explicariam nada direito. E morria de vergonha da minha mãe. Fui perder essa vergonha em 2010 e sob circunstâncias extremas, quando percebi que ela nunca teve uma amiga de verdade, que ela teve que esperar uma filha nascer, crescer e conhecer um pouco das coisas da vida pra ter alguém pra contar sobre seus assuntos. Minha vó é um doce, mas é tão absurdamente fechada. Posso contar com ela pra me abraçar, me consolar e chorar junto comigo, mas não pra dividir a maioria das coisas. Minha mãe sempre sentiu falta de ter uma mãe que fosse do jeito que ela é comigo – que também não é perfeito, mas vou me mirar nela em algumas coisas quando tiver filhos.
Anyway.
Eu sempre fui romântica e sempre me senti infinitamente sozinha. Era apenas eu, meus livros, meu diário, meu rádio, minhas pequenas criações. Desde uma idade muito tenra sentia um enorme vazio, parecia que minhas caixas torácicas eram ocas e que eu podia sentir um vento morno varrendo-as toda vez que via uma cena romântica em novela, toda vez que uma colega vinha me contar que gostava de fulano e fulano gostava dela também. Nem na infância eu tive essa sorte.
É claro que era por causa da minha aparência, sempre tremendamente desfavorável. Mas daí eu via gente tão feia, tão gorda, tão sem nada especial quanto eu ficando com um monte de gente, e eu queria isso. Com uns 14 anos, na pior fase da minha vida. Depois de uma série de paixonites pré-adolescentes que pareciam valer tanto.
Não que agora eu seja muito mais velha e sábia que três anos atrás, mas pelo menos agora eu tenho um relacionamento físico, sério, que já dura algum tempo. Não é como o Caio, meu talvez primeiro amor mas do modo mais infantil possível. Meu maior contato físico com ele foi um abraço depois de termos feito uma peça de teatro em setembro de 2007. Eu emprestei uma camiseta pra ele e depois dormi abraçada com ela (alguém conhece um grupo de apoio pra cheiradores de camisetas anônimos?).
Era aquela coisa bobinha e pura de idealizar seu primeiro beijo com ele no diário e chorar toda vez que vê ele falando com uma menina. E depois disso cheguei num nível ainda mais lamentável: namoros virtuais.
Já encontrei amigos da internet mas nunca encontrei meus namoradinhos. Graças a Deus, porque eles teriam saído correndo. Mas na época tudo parecia trágico.
Grandes e pequenas tragédias à parte, consegui chegar viva a abril de 2009. Não me lembro exatamente o dia, não me lembro de muita coisa. Não posso dizer que no instante em que o vi eu soube que ele seria my unholy my one and my only, embora quando nossos filhos perguntarem, eu vá dizer que foi.
E eu não vou mencionar que eu usava calça leggin esportiva pra ir pra escola, creme de pentear de má qualidade, tintura ruim etc.
Ele foi bem corajoso de vir falar comigo, devo admitir. Eu já sabia que ele queria ficar comigo e ninguém nunca tinha pedido, de modo que eu não sabia muito bem como devia ser. E acho que nem ele. Não ficamos no primeiro dia, só conversamos aleatoriedades completamente constrangidos. Foi patético. Eu sabia que ele gostava de mim, mas era uma fase inadequada da minha vida, aquela que eu tinha acabado de superar o fim do meu último relacionamento virtual (porque chamam isso de relacionamento se não há... bem, relacionamento?) e queria ser fria e cool.
Eu gostava de conversar com ele. Com os dias melhorou um pouco, embora fosse algo completamente diferente do que eu tinha imaginado por tantos anos. Lá estava eu, beijando um cara, indo ao cinema com ele e tudo mais, e não sentindo nada. Um certo incômodo na verdade. Não sabia como agir, não sabia o que dizer, só imaginava que não era assim que devia ser na vida real. Eu sabia que não era aquela coisa formal, quase impessoal e seca pela qual as pessoas esperavam a vida inteira pra ter. Que um relacionamento de verdade era outra coisa.
Seis meses depois eu estava correndo pela rua pedindo pra ficar com ele de novo. Dessa vez chegamos a chamar aquilo de namoro. Era um pouco menos seco e impessoal, mas ainda assim não me satisfazia. Cheguei a ter bons momentos, mas muito poucos.
Daí alguém me disse “quem sabe daqui a seis meses vocês não voltam?”.
Não posso chamar de um retorno. Foi como apagar completamente um rascunho e começar a escrever muito melhor. Quando começou ainda era estranho. Porque éramos estranhos um pro outro. Mas dessa vez queríamos compartilhar nossas vidas. Dessa vez nos amávamos.
Ainda assim não era a versão final. Aliás, a versão final nem deve existir ainda. Temos tanto pra trilhar. Mas devo dizer que não me envergonho de não ser sido amor à primeira vista. Foi pouco romântico, foi realista, mas tenho certeza que havia um propósito maior nisso tudo. Como todos os mais magníficos diamantes, ele levou um tempo pra ser dilapidado. A essência sempre foi essa, mas foi preciso remover camadas e camadas de impurezas e fuligem. De medo, de insegurança, de traumas passados.
Um diamante sempre foi um diamante. Mesmo que no estado mais tosco e sujo. Mesmo que seja confundido com pedras sem nenhum valor pela maioria das pessoas, sempre vai ter alguém que vai saber que aquilo é uma preciosidade legítima. E eu agradeço tanto a Deus por ter enxergado isso antes que alguém o fizesse. Tenho tanto orgulho dele, não apenas da pessoa que ele se tornou, mas da coragem dele de dividir seus pesadelos comigo e me deixar acender algumas luzes pra torná-los menos assustadores.
Assim como as alianças que meus “pais” compraram há uns dez anos e como as que nós compramos ontem, tudo é cíclico e por isso mesmo interminável. Eu não sei dizer quando foi que esse amor começou de fato, e também não sei dizer em que ponto da eternidade vai acabar, se é que um dia vai.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

and all of the people with nothing to do.






Acordara cedo e fizera minhas abluções matinais. Eu sabia que eu tinha que ir lá, e ele nem fazia idéia. Meu coração martelava forte com o suspense. Nunca fui boa com esperas. Nunca fui boa com nada que não fosse fazê-lo feliz.
E jurei a mim mesma que continuaria fazendo.

Vesti qualquer roupa e não me preocupei com maquiagem. Sabia que estava com olheiras horríveis, maiores do que as usuais. Não poderia esconder minha devastação com maquiagem, chapinha, uma roupa linda.
Parei mil vezes pra pedir informações. Quando finalmente cheguei, era impossível descrever minha sensação. Tive um rápido vislumbre dele, com uma barba de vários dias, antes que ele me visse e, surpreso, fugisse.
Eu estava pronta pra qualquer reação, mas ainda assim me doeu. Seus pais foram tão legais comigo. Quero dizer, quem não perceberia o quanto eu o amo?

Devo dizer que esperei muito tempo até que ele se acalmasse. E que não estou a fim de narrar diálogos enormes, momentos felizes, talvez os melhores que eu já tive. Não sei se posso dizer que é o melhor dia da minha vida, mas certamente um dos melhores. Porque eu nunca realmente dei o valor necessário. Eu me importava, é claro que sim. Mas não era o suficiente. Talvez nunca seja, mas estou trabalhando nisso.
Agora sei mais que nunca que é com ele que eu quero transformar minha existência em vida. Que é o único rosto que eu quero ver segundos depois de abrir os olhos pela manhã. Com quem eu quero constituir uma família algum dia. E mesmo que essa força dentro de mim esteja errada, sei que a única coisa que pode definitivamente nos separar é nossa própria vontade ou qualquer circunstância maior que ela, e não a maldade das pessoas que dedicam toda sua existência tentando em vão nos destruir.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

give me therapy.


As pessoas me olharam esquisito porque eu estava de regata, calça jeans justa (voltou a ser justa porque engordei nas pernas) e botas de camurça falsa sem salto (que são incrivelmente confortáveis. E na verdade o único par que eu tenho), mas quando começou a chover tenho certeza que elas mentalmente deram razão à pequena menina Thamiro.
Me sinto satisfeita de verdade por ter ido procurar emprego. Trabalhar não deve ser tão ruim. Quero dizer, eu li um texto da apostila de sociologia (só por diversão, porque a gente nem a usou) que o trabalho é visto como obrigação pela nossa sociedade, mas deveria ser visto como uma forma de modificar a natureza e sei lá mais o que (insira coisas positivas aqui).
Então certo, eu tenho que mudar o mundo. Ou, você sabe, coisas de lugar, dependendo do emprego que eu arrumar.
No fim do dia tomo chuva, mas não me importo. Comprei um fabuloso vestido xadrez azul, que vou usar quando for visitar a Nadine (pelo menos eu espero ainda poder ir, mas morro de medo de conseguir uma entrevista enquanto tiver fora. Talvez eu deva ir só no próximo final de semana) e um pote de creme de hidratação, que é sempre um investimento. E chocolate. Chocolate branco com gosto de leite ninho, que deve ser o melhor pelo qual eu posso pagar. Por alguns momentos consigo me sentir mais do que cheia de energia – quase feliz.
Hoje eu não peguei a camiseta nenhuma vez, e só chorei quando minha vó disse que eu preciso de terapia porque magôo as pessoas que eu amo, o que foi realmente insensível e eu devia ter dito que ela lava louça há anos e não apresentou nenhuma melhora.
É, talvez eu precise.

things aren't the same anymore, some nights it gets so bad.


Pego a camiseta amassada pela milésima vez desde que ele a devolveu e a levo ao rosto. O cheiro dele me golpeia de tal forma que chega a doer fisicamente também, e a sensação familiar de estar em seus braços parece distante.
É distante, na verdade.
Lágrimas jorram dos meus olhos antes que eu possa fazer qualquer coisa. Continuo inspirando com força, como se minha vida dependesse daquilo. Absorvendo seu perfume como se fosse o meu bem mais precioso. E realmente é, ou era, de qualquer forma. Não consigo me obrigar a parar.
A camiseta que significa muito mais do que uma aliança. É como se simbolizasse meu coração, de verdade. Meu coração que eu lhe entreguei meses atrás.
E ontem ele veio devolver.
Devolver meu coração.
Assim como Blair Waldorf tinha costurado um pingente de coração num casaco de cashmere pro Nate - o que é uma comparação fútil por causa dessa modinha da série, mas os livros são realmente legais -, eu tinha estampado meu coração numa camiseta que ele usava sempre, por baixo de uma das suas incríveis camisas xadrez.
Ele é tão lindo. Tão diferente de todos, embora diga que isso de querer ser diferente torna as pessoas ainda mais patéticas e iguais. Mas ele não precisa querer ser diferente. Ele é. Não só por ter sido a única pessoa que me amou. Não só por ter sofrido rejeição a vida toda, o que eu também sofri, mas parece que tudo acontece com ele de um modo muito mais brutal. E ele superou, e me contou rindo pelas coisas que já passou, enquanto eu chegava a chorar imaginando-o ser humilhado desse jeito, e o abraçava forte.
E eu o fiz sentir assim de novo.
É a única explicação.
Eu me orgulho tanto dele. Eu sei que ele dividiu mais comigo do que com qualquer outra pessoa. Porque eu mereci. Eu o fiz feliz. Eu o fiz sentir seguro. Mas eu desabei. Desabei por um segundo e foi o suficiente pra trazer à tona todos os medos dele. “Honey, you are the rock upon which I stand”. Eu não sou mais. Foi tão difícil pra ele confiar em mim, porque só amar não basta. Você tem que querer dividir toda a sua vida. Todo seu passado, todo o universo dos seus pensamentos, todas as suas dores, todas as suas ambições pro futuro. Eu não podia me dar ao luxo de explodir. Não podia me dar ao luxo de fraquejar. Todo o bem que eu sei que eu já fiz foi anulado por um momento de raiva, da mais pura pusilanimidade humana.
Queria pedir desculpas mas não seria o suficiente. Eu estava irritada, mas não imaginava as dimensões que isso ia tomar.
Mas deve haver mais coisa que eu fiz e ainda não percebi. É horrível ser apenas babaca e ser vista como cínica. Definitivamente não fiz por mal. Esperava uma discussão saudável.
Essa coisa de que quem menos demonstra sofre mais pode ser real, afinal de contas. Pra quem era do tipo que diz até a cor da calcinha no blog eu estou bem quieta sobre isso.
Ou estava, de qualquer modo. É horrível não ter com quem falar disso o tempo todo. Tenho tanto a dizer, mesmo que não faça nenhum sentido. Por Deus, nunca me senti tão sozinha. Quero dizer, antes dele sim. Mas eu também podia escrever absolutamente tudo o que quisesse no blog, sabendo que só meus amigos mais próximos e alguns desconhecidos iam ler. Preferia esse reconfortante anonimato. Ou fama de verdade, centenas de leitores, um monte de gente me mandando mensagens de apoio.
Estou muito Becky Bloom pensando desse jeito. Mas é nossa única semelhança. Becky sempre tem alguém por ela. Pais amorosos, a mais perfeita melhor amiga, um marido incrível, dinheiro pra fazer compras, beleza, sorte.


Vou pela milésima vez até a sacola que ele entregou com a camiseta, uma blusa minha e meu Harry Potter que estava com ele. Câmara. E tenho o Cálice também, de modo que ele dizia que só precisaria comprar os outros cinco pros nossos filhos.
Pego primeiro minha blusa, branca e barata, e percebo que ainda tem um resquício do meu cheiro. Um vago aroma de Natura Faces Z.
Depois sinto o cheiro dele novamente e minhas pernas oscilam. É como se toda vez que o inalo fosse a primeira. Ainda faz meu coração disparar, doer, desejar que ele me aperte com força e fique brincando com meu cabelo. E isso vai continuar até que minha mãe canse do meu auto-flagelo e lave essas roupas.
Sinto que nada no mundo depende de mim. Eu sou minha única certeza. A que vai estar sempre de braços abertos, quer as pessoas que eu amo voltem ou não. Só preciso descobrir como se vive sozinha, porque em nenhuma das partes da minha existência que eu posso considerar que vivi eu estive.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

the final sentence you ever uttered to me was love.


 Sei que minhas palavras não adiantariam nada, e meu próprio silêncio também dói em mim. Trechos de uma banda que eu nem gosto ecoam na minha cabeça, quase se encaixando perfeitamente pra minha vida.
Certo, eu não vou me lamentar pra conseguir a simpatia alheia, nem fingir que estou feliz como se fosse uma press release pras pessoas que me odeiam. Que se foda. Todo mundo sofre.
Me sinto agora como se tivesse passado dias me entupindo de chocolate branco de boa qualidade e depois tivesse que comer chocolate em formato de guarda-chuva por toda a eternidade. Como se eu tivesse me tornado filha do Eike Batista por um dia e depois voltado a ser mais pobre do que antes. Como despencar do alto de uma montanha cujo pico chega às nuvens num vale que parece não ter mais fundo. Mas não é o que eu sinto que mais me preocupa.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A clown that is not funny at all.


— Fico então como se estivesse em um palco, mas não consigo interpretar o meu papel de maneira própria porque em algum lugar da platéia alguém está pensando que minha atuação é ridícula, e eu não consigo provar o contrário e faço mais gente pensar o mesmo.
— História da minha vida
— Por isso temos que mostrar o nosso melhor, antes que a cortina se feche sem palmas...
— E quando parece que você não tem um melhor, que todo mundo sabe o que está fazendo e faz bem, mas você está avulso no palco, sem talento e sem saber qual o roteiro?
— Você copia o que os outros fazem, até que você tenha experiência para fazer o seu próprio show.
— Não muda o fato de você não ter talento. Por mais que você faça igual o melhor ator e dê o seu melhor, o público vai perceber que você é ridículo fazendo aquilo.
— Muitas vezes, você não precisa ser o melhor em algo. Você só precisa ser bom em esconder isso das outras pessoas.


quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Se alguém

estiver lendo isso, me diga o que achou do layout/nome novo. Se um comentário for tomar muito do seu preciocíssimo tempo só marque nas reações desse post.

a odisséia de um CV.

Tropeço num bloquinho da entrada da garagem da enorme casa cor-de-rosa à minha frente, e o meu pé vira. Ao mesmo tempo ouço um barulho de carro entrando na viela estreita. Sinto-me ruborizar e quase quero dizer pro motorista que aquela é a primeira vez que tropeço em todo o meu percurso.
Mas não digo, é claro. Eu sou tão boba.
Dobro a esquina e algumas casas a frente há três placas dizendo “exposição / venha ver essa casa”, o que eu acho sensacional, porque achei que isso só existia nos livros ambientados em Londres (ou Nova York, ou qualquer lugar muito diferente da minha pequena e estúpida cidade). Quase quero entrar lá e pedir pra conhecer a casa. Dizer que planejo me casar em 2013 (esses casamentos católicos são marcados com uma antecedência absurda, huh?), e se alguém fizer cara feia pra mim dizer “você sabe quem é meu pai?”
Daí me dizem não, eu respondo nem eu” e saio sorridente.
Apesar da enorme vontade, não me desvio do meu caminho pra cometer essa pequena travessura social. Continuo obedientemente caminhando até meu objetivo, sentindo os pés começando a doer mas não tem problema. Todo mundo sabe que uma distância percorrida com sapatos de salto, não importa qual seja ela, vale por quatro dias de caminhada. De modo que só precisarei começar a caminhar sexta-feira.
Estou impecável. De jeans, uma blusa discreta, bonitinha e tudo mais, óculos escuros quase maiores que a minha cara, meus quase sempre revoltos cabelos escarlate caindo pelos ombros comportadamente como se deve ser, uma bolsa grande, uma maquiagem discreta mas imaculada, que me faz parecer séria e bem-cuidada (é claro que ninguém precisa saber que na maioria dos dias nem Deus me faz pentear o cabelo ou sair de casa), meu par preferido de sapatos e o CV nas mãos.
É claro que o Diogo me advertiu pra não usar salto, mas ele também me disse pra não entregar o CV dentro da pastinha. Mas minha mãe disse pra eu colocar o salto e entregar com a pastinha (e é extremamente incômodo carregar uma pastinha, principalmente vazia, e ela nem cabe na minha bolsa).
Não que eu leve mais em conta minha mãe do que o Diogo. É que ele me disse pra usar all star, mas me dá uma aparência nojentamente desleixada. E, quanto à pastinha...
Parei na esquina pra respirar fundo. Queria poder twittar, mas nem com meu celular eu estava, e não é como se eu tivesse internet nele.
Entrei e fiquei esperando recatadamente por alguns segundos. Deus pode ter colocado em mim uma das piores caras que ele tinha no estoque, mas pelo menos não é uma cara de vadia pobre ou coisa assim. Tenho cara de menininha, só isso. Ao menos não intimida as pessoas. Nem gera desconfiança. Uma cidadã acima de qualquer suspeita, é como me descreveriam Millôr ou Stanislaw.
Esperei alguns segundos antes que uma mulher viesse me atender. Aparentava ter seus trinta anos, mas podia também estar no começo da casa dos vinte. Apesar dos óculos austeros, me deu um sorriso amigável, e estava vestida de um modo tão informal que não consegui me sentir nervosa. Retribuindo-lhe com um sorriso radiante, eu disse que queria deixar um CV. Ela disse “é comigo mesma” e eu perguntei se devia deixar na pastinha ou não. Ela disse tanto faz. Estendi-lhe a pastinha, dizendo mentalmente “sorry babe”.

domingo, 2 de janeiro de 2011

brand new years

Este beijo em tua fronte deponho!
Vou partir. E bem pode, quem parte,
francamente aqui vir confessar-te
que bastante razão tinhas quando
comparaste meus dias a um sonho
Se a esperança se vai esvoaçando
que me importa se é noite ou se é dia...
entre real e visão fugidia
de maneira qualquer fugiria
O que vejo, o que sou e suponho
não é mais do que um sonho num sonho
Fico em meio ao clamor, que se alteia
de uma praia, que a vaga tortura
minha mão grãos de areia segura
com bem força, que é de ouro essa areia.
São tão poucos! Mas, fogem-me, pelos dedos, para a profunda água escura. Os meus olhos se inundam de pranto. Ah meu Deus! E não posso retê-los, se os aperto na mão, tanto e tanto? Ah meu Deus! E não posso salvar um ao menos da fúria do mar? O que vejo, o que sou e suponho será apenas um sonho num sonho?

Não sei bem porque esse poema marcou minha vida. Me fez pensar que Poe era a melhor coisa do mundo. É lindo. Era lindo em 2006, é lindo em 2011, vai ser lindo sempre pra mim. Mas daí eu li Assassinatos da rua Morgue.
Porra Edgar.
Ok, foi a primeira história policial da história.
Se não fosse por ele, meus gênios Agatha, Rex Stout, Erle Stanley Gardner, Marcos Rey, ad infinitum, nunca teriam criado Poirot, Nero Wolf, Perry Mason, Gino.
Mas é ruim, assim como o método de Um Estudo em Vermelho. Nessa época ninguém tinha percebido que é patético o assassino surgir do nada na história. Vamos ser justos, a explicação de ambos é perfeita. Mas qual é a graça se o assassino caiu de pára-quedas na trama? Talvez eu não devesse dizer que são “ruins” mas não sou crítica literária to nem aí.
Mas o fato é que esse conto arruinou o Poe pra mim. Assim como Irmãs Harker arruinou a Maria Beaumont pra mim, e a consciência de todas as responsabilidades que eu terei que assumir arruinou 2011 pra mim.
Até o Diogo me dizer a coisa mais linda desse mundo.
“Esse ano vai ser o melhor, amor, vamos dar o primeiro passo pra morarmos juntos e sermos felizes daqui há anos”.
A parte complicada é conseguir ser feliz enquanto se constrói a felicidade futura, que sempre parece assustadoramente incerta. Mas eu sei que vou conseguir, porque nada ao lado dele nunca vai ser exatamente difícil. Me sinto preparada pra quase qualquer coisa, não temo quase nada. Pra quem não estava absolutamente preparada pra nada e temia quase tudo é uma grande evolução. Estou entrando no campo da babaquice e da melosidade. O que eu sinto, (o que eu ganho, o que eu perco) ninguém precisa saber.
Só espero que meu pessimismo sobre esse ano seja infundado. Que eu possa ter mais da sensação sublime de ser compreendida e completa que eu experimentei em 2010 e nunca mais quero deixar de sentir. Como um sonho dentro dum sonho mas, ao contrário de Poe — cujos ambos os sonhos, o de dentro e o de fora, suponho, eram ruins —, que ao menos o de dentro possa ser bom, pra que eu tenha forças para o sonho externo, para a vida que existe do lado de fora do meu âmago, uma vida menos abstrata, uma relação real com o mundo, e a oportunidade de mudá-lo.