Este beijo em tua fronte deponho!
Vou partir. E bem pode, quem parte,
francamente aqui vir confessar-te
que bastante razão tinhas quando
comparaste meus dias a um sonho
Se a esperança se vai esvoaçando
que me importa se é noite ou se é dia...
entre real e visão fugidia
de maneira qualquer fugiria
O que vejo, o que sou e suponho
não é mais do que um sonho num sonho
Fico em meio ao clamor, que se alteia
de uma praia, que a vaga tortura
minha mão grãos de areia segura
com bem força, que é de ouro essa areia.
São tão poucos! Mas, fogem-me, pelos dedos, para a profunda água escura. Os meus olhos se inundam de pranto. Ah meu Deus! E não posso retê-los, se os aperto na mão, tanto e tanto? Ah meu Deus! E não posso salvar um ao menos da fúria do mar? O que vejo, o que sou e suponho será apenas um sonho num sonho?
Não sei bem porque esse poema marcou minha vida. Me fez pensar que Poe era a melhor coisa do mundo. É lindo. Era lindo em 2006, é lindo em 2011, vai ser lindo sempre pra mim. Mas daí eu li Assassinatos da rua Morgue.
Porra Edgar.
Ok, foi a primeira história policial da história.
Se não fosse por ele, meus gênios Agatha, Rex Stout, Erle Stanley Gardner, Marcos Rey, ad infinitum, nunca teriam criado Poirot, Nero Wolf, Perry Mason, Gino.
Mas é ruim, assim como o método de Um Estudo em Vermelho. Nessa época ninguém tinha percebido que é patético o assassino surgir do nada na história. Vamos ser justos, a explicação de ambos é perfeita. Mas qual é a graça se o assassino caiu de pára-quedas na trama? Talvez eu não devesse dizer que são “ruins” mas não sou crítica literária to nem aí.
Mas o fato é que esse conto arruinou o Poe pra mim. Assim como Irmãs Harker arruinou a Maria Beaumont pra mim, e a consciência de todas as responsabilidades que eu terei que assumir arruinou 2011 pra mim.
Até o Diogo me dizer a coisa mais linda desse mundo.
“Esse ano vai ser o melhor, amor, vamos dar o primeiro passo pra morarmos juntos e sermos felizes daqui há anos”.
A parte complicada é conseguir ser feliz enquanto se constrói a felicidade futura, que sempre parece assustadoramente incerta. Mas eu sei que vou conseguir, porque nada ao lado dele nunca vai ser exatamente difícil. Me sinto preparada pra quase qualquer coisa, não temo quase nada. Pra quem não estava absolutamente preparada pra nada e temia quase tudo é uma grande evolução. Estou entrando no campo da babaquice e da melosidade. O que eu sinto, (o que eu ganho, o que eu perco) ninguém precisa saber.
Só espero que meu pessimismo sobre esse ano seja infundado. Que eu possa ter mais da sensação sublime de ser compreendida e completa que eu experimentei em 2010 e nunca mais quero deixar de sentir. Como um sonho dentro dum sonho mas, ao contrário de Poe — cujos ambos os sonhos, o de dentro e o de fora, suponho, eram ruins —, que ao menos o de dentro possa ser bom, pra que eu tenha forças para o sonho externo, para a vida que existe do lado de fora do meu âmago, uma vida menos abstrata, uma relação real com o mundo, e a oportunidade de mudá-lo.
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