sábado, 15 de janeiro de 2011
upon pilars of salt and pilars of sand
Me lembro do dia que fui com o Mário e a Karen pra eles comprarem suas alianças. Eu tinha uns sete anos. Ou seis, não sei. Era uma época que eu vivia ficando doente e me machucando na escola, e o lugar era pros lados do pronto-socorro, talvez por isso tenha ficado registrado na minha cabeça, nosso cérebro tem essas coisas estranhas.
Eles ficaram um tempão se decidindo entre uns modelos que pra mim pareciam idênticos mas que aparentemente faziam toda a diferença pra minha mãe. Na época não éramos tão pobres. Eles eram um casal jovem e feliz começando uma vida, eu e minha vó adoramos o Mário desde a primeira vez que o vimos, com ares de intelectual consertando o vhs – o que ele realmente não era mas em compensação limpava a cozinha sem reclamar, de modo que minha mãe não podia ter encontrado alguém melhor. As coisas ainda iam bem e eu, que crescera vendo novela e sempre fora bem babaca inocente, imaginava que todo mundo era obrigado a casar com uma cerimônia tradicional católica e até estava um pouquinho empolgada me imaginando sendo dama de honra – porque é claro que eu seria, eu era filha única da minha mãe e o Mário não tinha filhos nem sobrinhas.
Depois do que me pareceram horas, eles finalmente compraram suas alianças de ouro, embora não fossem casar oficialmente. Os anos passaram, as alianças começaram a ser esquecidas na pia com mais freqüência, a vida começou a desmoronar (não por causa disso, evidentemente). Imagino que eles tenham sido felizes apesar de tudo, mas não posso dizer que foram um casal que eu tenha como exemplo pra construir uma vida a dois.
E nesse intervalo de tempo eu construía meus conceitos, a maioria dos quais foram derrubados quando eu vivi e soube como era tem alguém que depende em grande parte de mim pra ser feliz. Aprendi coisas sem sentido e bobas na novela e coisas ainda mais bobas com as crianças da escola. Nesse sentido eu era independente e auto-suficiente: sempre preferi não saber do que perguntar. Sabia que as pessoas ririam de mim e não explicariam nada direito. E morria de vergonha da minha mãe. Fui perder essa vergonha em 2010 e sob circunstâncias extremas, quando percebi que ela nunca teve uma amiga de verdade, que ela teve que esperar uma filha nascer, crescer e conhecer um pouco das coisas da vida pra ter alguém pra contar sobre seus assuntos. Minha vó é um doce, mas é tão absurdamente fechada. Posso contar com ela pra me abraçar, me consolar e chorar junto comigo, mas não pra dividir a maioria das coisas. Minha mãe sempre sentiu falta de ter uma mãe que fosse do jeito que ela é comigo – que também não é perfeito, mas vou me mirar nela em algumas coisas quando tiver filhos.
Anyway.
Eu sempre fui romântica e sempre me senti infinitamente sozinha. Era apenas eu, meus livros, meu diário, meu rádio, minhas pequenas criações. Desde uma idade muito tenra sentia um enorme vazio, parecia que minhas caixas torácicas eram ocas e que eu podia sentir um vento morno varrendo-as toda vez que via uma cena romântica em novela, toda vez que uma colega vinha me contar que gostava de fulano e fulano gostava dela também. Nem na infância eu tive essa sorte.
É claro que era por causa da minha aparência, sempre tremendamente desfavorável. Mas daí eu via gente tão feia, tão gorda, tão sem nada especial quanto eu ficando com um monte de gente, e eu queria isso. Com uns 14 anos, na pior fase da minha vida. Depois de uma série de paixonites pré-adolescentes que pareciam valer tanto.
Não que agora eu seja muito mais velha e sábia que três anos atrás, mas pelo menos agora eu tenho um relacionamento físico, sério, que já dura algum tempo. Não é como o Caio, meu talvez primeiro amor mas do modo mais infantil possível. Meu maior contato físico com ele foi um abraço depois de termos feito uma peça de teatro em setembro de 2007. Eu emprestei uma camiseta pra ele e depois dormi abraçada com ela (alguém conhece um grupo de apoio pra cheiradores de camisetas anônimos?).
Era aquela coisa bobinha e pura de idealizar seu primeiro beijo com ele no diário e chorar toda vez que vê ele falando com uma menina. E depois disso cheguei num nível ainda mais lamentável: namoros virtuais.
Já encontrei amigos da internet mas nunca encontrei meus namoradinhos. Graças a Deus, porque eles teriam saído correndo. Mas na época tudo parecia trágico.
Grandes e pequenas tragédias à parte, consegui chegar viva a abril de 2009. Não me lembro exatamente o dia, não me lembro de muita coisa. Não posso dizer que no instante em que o vi eu soube que ele seria my unholy my one and my only, embora quando nossos filhos perguntarem, eu vá dizer que foi.
E eu não vou mencionar que eu usava calça leggin esportiva pra ir pra escola, creme de pentear de má qualidade, tintura ruim etc.
Ele foi bem corajoso de vir falar comigo, devo admitir. Eu já sabia que ele queria ficar comigo e ninguém nunca tinha pedido, de modo que eu não sabia muito bem como devia ser. E acho que nem ele. Não ficamos no primeiro dia, só conversamos aleatoriedades completamente constrangidos. Foi patético. Eu sabia que ele gostava de mim, mas era uma fase inadequada da minha vida, aquela que eu tinha acabado de superar o fim do meu último relacionamento virtual (porque chamam isso de relacionamento se não há... bem, relacionamento?) e queria ser fria e cool.
Eu gostava de conversar com ele. Com os dias melhorou um pouco, embora fosse algo completamente diferente do que eu tinha imaginado por tantos anos. Lá estava eu, beijando um cara, indo ao cinema com ele e tudo mais, e não sentindo nada. Um certo incômodo na verdade. Não sabia como agir, não sabia o que dizer, só imaginava que não era assim que devia ser na vida real. Eu sabia que não era aquela coisa formal, quase impessoal e seca pela qual as pessoas esperavam a vida inteira pra ter. Que um relacionamento de verdade era outra coisa.
Seis meses depois eu estava correndo pela rua pedindo pra ficar com ele de novo. Dessa vez chegamos a chamar aquilo de namoro. Era um pouco menos seco e impessoal, mas ainda assim não me satisfazia. Cheguei a ter bons momentos, mas muito poucos.
Daí alguém me disse “quem sabe daqui a seis meses vocês não voltam?”.
Não posso chamar de um retorno. Foi como apagar completamente um rascunho e começar a escrever muito melhor. Quando começou ainda era estranho. Porque éramos estranhos um pro outro. Mas dessa vez queríamos compartilhar nossas vidas. Dessa vez nos amávamos.
Ainda assim não era a versão final. Aliás, a versão final nem deve existir ainda. Temos tanto pra trilhar. Mas devo dizer que não me envergonho de não ser sido amor à primeira vista. Foi pouco romântico, foi realista, mas tenho certeza que havia um propósito maior nisso tudo. Como todos os mais magníficos diamantes, ele levou um tempo pra ser dilapidado. A essência sempre foi essa, mas foi preciso remover camadas e camadas de impurezas e fuligem. De medo, de insegurança, de traumas passados.
Um diamante sempre foi um diamante. Mesmo que no estado mais tosco e sujo. Mesmo que seja confundido com pedras sem nenhum valor pela maioria das pessoas, sempre vai ter alguém que vai saber que aquilo é uma preciosidade legítima. E eu agradeço tanto a Deus por ter enxergado isso antes que alguém o fizesse. Tenho tanto orgulho dele, não apenas da pessoa que ele se tornou, mas da coragem dele de dividir seus pesadelos comigo e me deixar acender algumas luzes pra torná-los menos assustadores.
Assim como as alianças que meus “pais” compraram há uns dez anos e como as que nós compramos ontem, tudo é cíclico e por isso mesmo interminável. Eu não sei dizer quando foi que esse amor começou de fato, e também não sei dizer em que ponto da eternidade vai acabar, se é que um dia vai.
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