quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

things aren't the same anymore, some nights it gets so bad.


Pego a camiseta amassada pela milésima vez desde que ele a devolveu e a levo ao rosto. O cheiro dele me golpeia de tal forma que chega a doer fisicamente também, e a sensação familiar de estar em seus braços parece distante.
É distante, na verdade.
Lágrimas jorram dos meus olhos antes que eu possa fazer qualquer coisa. Continuo inspirando com força, como se minha vida dependesse daquilo. Absorvendo seu perfume como se fosse o meu bem mais precioso. E realmente é, ou era, de qualquer forma. Não consigo me obrigar a parar.
A camiseta que significa muito mais do que uma aliança. É como se simbolizasse meu coração, de verdade. Meu coração que eu lhe entreguei meses atrás.
E ontem ele veio devolver.
Devolver meu coração.
Assim como Blair Waldorf tinha costurado um pingente de coração num casaco de cashmere pro Nate - o que é uma comparação fútil por causa dessa modinha da série, mas os livros são realmente legais -, eu tinha estampado meu coração numa camiseta que ele usava sempre, por baixo de uma das suas incríveis camisas xadrez.
Ele é tão lindo. Tão diferente de todos, embora diga que isso de querer ser diferente torna as pessoas ainda mais patéticas e iguais. Mas ele não precisa querer ser diferente. Ele é. Não só por ter sido a única pessoa que me amou. Não só por ter sofrido rejeição a vida toda, o que eu também sofri, mas parece que tudo acontece com ele de um modo muito mais brutal. E ele superou, e me contou rindo pelas coisas que já passou, enquanto eu chegava a chorar imaginando-o ser humilhado desse jeito, e o abraçava forte.
E eu o fiz sentir assim de novo.
É a única explicação.
Eu me orgulho tanto dele. Eu sei que ele dividiu mais comigo do que com qualquer outra pessoa. Porque eu mereci. Eu o fiz feliz. Eu o fiz sentir seguro. Mas eu desabei. Desabei por um segundo e foi o suficiente pra trazer à tona todos os medos dele. “Honey, you are the rock upon which I stand”. Eu não sou mais. Foi tão difícil pra ele confiar em mim, porque só amar não basta. Você tem que querer dividir toda a sua vida. Todo seu passado, todo o universo dos seus pensamentos, todas as suas dores, todas as suas ambições pro futuro. Eu não podia me dar ao luxo de explodir. Não podia me dar ao luxo de fraquejar. Todo o bem que eu sei que eu já fiz foi anulado por um momento de raiva, da mais pura pusilanimidade humana.
Queria pedir desculpas mas não seria o suficiente. Eu estava irritada, mas não imaginava as dimensões que isso ia tomar.
Mas deve haver mais coisa que eu fiz e ainda não percebi. É horrível ser apenas babaca e ser vista como cínica. Definitivamente não fiz por mal. Esperava uma discussão saudável.
Essa coisa de que quem menos demonstra sofre mais pode ser real, afinal de contas. Pra quem era do tipo que diz até a cor da calcinha no blog eu estou bem quieta sobre isso.
Ou estava, de qualquer modo. É horrível não ter com quem falar disso o tempo todo. Tenho tanto a dizer, mesmo que não faça nenhum sentido. Por Deus, nunca me senti tão sozinha. Quero dizer, antes dele sim. Mas eu também podia escrever absolutamente tudo o que quisesse no blog, sabendo que só meus amigos mais próximos e alguns desconhecidos iam ler. Preferia esse reconfortante anonimato. Ou fama de verdade, centenas de leitores, um monte de gente me mandando mensagens de apoio.
Estou muito Becky Bloom pensando desse jeito. Mas é nossa única semelhança. Becky sempre tem alguém por ela. Pais amorosos, a mais perfeita melhor amiga, um marido incrível, dinheiro pra fazer compras, beleza, sorte.


Vou pela milésima vez até a sacola que ele entregou com a camiseta, uma blusa minha e meu Harry Potter que estava com ele. Câmara. E tenho o Cálice também, de modo que ele dizia que só precisaria comprar os outros cinco pros nossos filhos.
Pego primeiro minha blusa, branca e barata, e percebo que ainda tem um resquício do meu cheiro. Um vago aroma de Natura Faces Z.
Depois sinto o cheiro dele novamente e minhas pernas oscilam. É como se toda vez que o inalo fosse a primeira. Ainda faz meu coração disparar, doer, desejar que ele me aperte com força e fique brincando com meu cabelo. E isso vai continuar até que minha mãe canse do meu auto-flagelo e lave essas roupas.
Sinto que nada no mundo depende de mim. Eu sou minha única certeza. A que vai estar sempre de braços abertos, quer as pessoas que eu amo voltem ou não. Só preciso descobrir como se vive sozinha, porque em nenhuma das partes da minha existência que eu posso considerar que vivi eu estive.

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