quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

a odisséia de um CV.

Tropeço num bloquinho da entrada da garagem da enorme casa cor-de-rosa à minha frente, e o meu pé vira. Ao mesmo tempo ouço um barulho de carro entrando na viela estreita. Sinto-me ruborizar e quase quero dizer pro motorista que aquela é a primeira vez que tropeço em todo o meu percurso.
Mas não digo, é claro. Eu sou tão boba.
Dobro a esquina e algumas casas a frente há três placas dizendo “exposição / venha ver essa casa”, o que eu acho sensacional, porque achei que isso só existia nos livros ambientados em Londres (ou Nova York, ou qualquer lugar muito diferente da minha pequena e estúpida cidade). Quase quero entrar lá e pedir pra conhecer a casa. Dizer que planejo me casar em 2013 (esses casamentos católicos são marcados com uma antecedência absurda, huh?), e se alguém fizer cara feia pra mim dizer “você sabe quem é meu pai?”
Daí me dizem não, eu respondo nem eu” e saio sorridente.
Apesar da enorme vontade, não me desvio do meu caminho pra cometer essa pequena travessura social. Continuo obedientemente caminhando até meu objetivo, sentindo os pés começando a doer mas não tem problema. Todo mundo sabe que uma distância percorrida com sapatos de salto, não importa qual seja ela, vale por quatro dias de caminhada. De modo que só precisarei começar a caminhar sexta-feira.
Estou impecável. De jeans, uma blusa discreta, bonitinha e tudo mais, óculos escuros quase maiores que a minha cara, meus quase sempre revoltos cabelos escarlate caindo pelos ombros comportadamente como se deve ser, uma bolsa grande, uma maquiagem discreta mas imaculada, que me faz parecer séria e bem-cuidada (é claro que ninguém precisa saber que na maioria dos dias nem Deus me faz pentear o cabelo ou sair de casa), meu par preferido de sapatos e o CV nas mãos.
É claro que o Diogo me advertiu pra não usar salto, mas ele também me disse pra não entregar o CV dentro da pastinha. Mas minha mãe disse pra eu colocar o salto e entregar com a pastinha (e é extremamente incômodo carregar uma pastinha, principalmente vazia, e ela nem cabe na minha bolsa).
Não que eu leve mais em conta minha mãe do que o Diogo. É que ele me disse pra usar all star, mas me dá uma aparência nojentamente desleixada. E, quanto à pastinha...
Parei na esquina pra respirar fundo. Queria poder twittar, mas nem com meu celular eu estava, e não é como se eu tivesse internet nele.
Entrei e fiquei esperando recatadamente por alguns segundos. Deus pode ter colocado em mim uma das piores caras que ele tinha no estoque, mas pelo menos não é uma cara de vadia pobre ou coisa assim. Tenho cara de menininha, só isso. Ao menos não intimida as pessoas. Nem gera desconfiança. Uma cidadã acima de qualquer suspeita, é como me descreveriam Millôr ou Stanislaw.
Esperei alguns segundos antes que uma mulher viesse me atender. Aparentava ter seus trinta anos, mas podia também estar no começo da casa dos vinte. Apesar dos óculos austeros, me deu um sorriso amigável, e estava vestida de um modo tão informal que não consegui me sentir nervosa. Retribuindo-lhe com um sorriso radiante, eu disse que queria deixar um CV. Ela disse “é comigo mesma” e eu perguntei se devia deixar na pastinha ou não. Ela disse tanto faz. Estendi-lhe a pastinha, dizendo mentalmente “sorry babe”.

Um comentário:

Gabriella Chame disse...

"qualquer distancia percorrida de salto alto vale por quatro dias de caminhada" verdaade :T

Mas bem, boa sorte [?]