segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

tears of dragon.


       Nove. O maior número existente, se você considerar apenas um dígito. Para os chineses, símbolo de sorte, grandeza e imponência, por ser relacionado aos majestosos dragões típicos do país. Não que eu vá dar tanta credibilidade a uns caras que comem insetos e começam o ano dia três de fevereiro, mas eles também inventaram o sorvete, de modo que decido dar-lhes esse crédito.
Porque é um número grandioso. Algumas pessoas vêem o 23 em tudo. Ou o 11. Eu não vejo porra nenhuma porque não me dou ao trabalho de fazer cálculos elaborados e mirabolantes, mas creio que o nove esteja fortemente ligado a ciclos. Toda década, século, milênio, termina nele. O número mais alto que pode ser escrito numa calculadora é uma seqüência de noves. Em meses, é aproximadamente o tempo necessário para gerar uma nova vida humana.
Seja por volubilidade ou seleção natural, uma nova vida nunca é apenas o nascimento. O que dizer de todas as transformações nesse período? Como descrever o profundo e verdadeiro processo de edificação pelo qual venho passando desde 30 de maio, quando percebemos que depois de uns treze meses um sabendo da existência do outro e tentando dar certo como estranhos, finalmente estávamos dispostos a nos conhecer? Mas conhecer genuinamente, as entranhas, os medos, os sonhos, o âmago.
Como descrever o que me ia à alma enquanto eu caminhava em direção a ele? Chegamos praticamente ao mesmo tempo, um de cada lado do calçadão. Era uma noite densamente nublada, mas mais tarde, logo ao chegar em casa, ele me ligaria pra ir lá fora ver a lua. Ele sentou-se no banco enquanto eu me aproximava lentamente, os últimos instantes de apreensão. Acho que dava pra sentir a estática no ar.
Eu o abracei com força e ele teve tempo de murmurar um “oi tudo bem” antes que eu o beijasse. Eu ainda era uma garota rechonchuda de quinze anos (o que ainda não é muito diferente), com tão pouco contato com o sexo oposto que jamais tinha começado um beijo, de modo que foi um ato de coragem, mas eu sabia que ele corresponderia.
Fomos andar por aí tomando chocolate quente com sorvete por cima ou comendo petit gateau – o que importa? –, eu ainda sem saber como seria dali pra frente.
Sentamo-nos num banco duma pequena praça mais afastada. Aqueles beijos e olhares mais doces que o próprio chocolate morno me fizeram ter certeza de que eu queria tentar novamente e dessa vez de verdade. Eu tinha sido uma vaca com ele no ano anterior. E ele também não tinha sido propriamente bonzinho. Então timidamente falei que ele prometera, uns meses antes, me pedir em namoro oficialmente e nunca o fizera. Mas não importava, porque na época não era real.
Ele ajoelhou-se diante de mim, disse que me amava, e que começar um novo capítulo não bastava, nós iríamos começar um novo livro. E me pediu em namoro, evidentemente.
Nos abraçamos com força, a noite ligeiramente gélida sendo o menos importante dos motivos, e passamos o que poderiam perfeitamente ser eras assim, sem estrelas, mas com I’ll follow you into the dark, os olhos marejados pela maior felicidade que eu já havia sentido até então, e o verdadeiro começo de um amor infinito.
E enfrentamos tanto desde então, que se não fosse o amor a me amparar, eu tenho certeza que jamais teria forças. Mas também fomos tão felizes que eu acredito que seja o ápice da realização que se pode ter nesse mundo. Ser feliz por nada em especial. Só por um toque, um beijo que faz suas entranhas dançarem tango, só por sentir um coração batendo junto ao seu e com os mesmos propósitos. Só por sentir que cada momento junto a ele vai compensar todas as agruras da sua existência. “‘Cause with you I’d withstand all the hell to hold your hand” é uma frase tão verdadeira. Você nunca terá idéia da sua capacidade de superação até que ame sinceramente. Só sou capaz de enfrentar minha via-sacra diária graças ao que me fortalece e edifica como ser humano e como mulher. Mesmo os momentos mais ordinários ao seu lado são melhores que quaisquer outros, porque posso me sentir feliz ou realizada com meus feitos independentes, mas jamais poderei me sentir completa se não for perpetuando o que tenho vivido nos últimos nove meses.

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