sábado, 12 de março de 2011
i'm a loose bolt of a complete machine.
Leu direitinho o manual das sogras, essa que eu tenho. Hoje me testou perguntando se eu queria “pegar uma pecinha” que ela pagava. No way, Isabel. O impulso pra conseguir uma roupa de graça é grande, mas graças a Deus estávamos na Riachuello que em roupa feminina só tem 95% porcaria e 5% coisa manera que não me serve.
Compramos roupa xadrez. Certo, tem todo um hype em torno disso, mas são lindas, certo? Foda-se que qualquer criança restart com tênis horroroso também possa ter uma peça semelhante.
Fomos pagar uma conta no terceiro andar do banco, eu com a sapatilha que ele ama mas que meu pé odeia. TERCEIRO ANDAR, AMIGOS!!! Subi a escada morrendo e desci descalça.
Sala de espera lotada, um cara alto de cabelo manero e óculos de nerd com a namorada escandalosa de cabelo roxo, camisa xadrez e short. Os dois discutindo Oscar Wilde e Charles Dickens em voz razoavelmente alta.
Não pensem, amigos, que através desse relato quero me sentir superior. Talvez eu seja mesmo uma babaca, talvez eu devesse usar jeans Revanche de cintura baixa, blusa decotada de strass da Riachuello e ir pra avenida principal da cidade todo sábado, me orgulhar do número de caras que me passam uma cantada de pedreiro. Não desejo, tampouco, pagar de profunda diferentinha bipolar viciada em café fã de beatles inadequada pra sociedade. Eu sei que há algum lugar, senão vários, nesse mundo, onde eu sei que posso me encaixar. Mas certamente não aqui. Não pertenço a esse lugar. Não gosto de gente de blusa de alcinha e crocs roçando em mim num calor de 38º ao som de sertanejo universitário. Não acho a Bella e o Edward o melhor casal da história do cinema e da literatura. Não tenho tênis e óculos de Pe Lanza. Não tenho a menor vontade de fazer Odontologia ou Veterinária, as únicas opções da única faculdade daqui capaz de dar algum futuro. O mundo é uma bagunça e é muito fácil culpar as novas gerações. Mas será que os eruditos do passado, os autores de clássicos, os grandes filósofos, cientistas, artistas e matemáticos, em vida, não foram pessoas como nós? Quase desprezíveis? Extremamente temperamentais? Cheios de conceitos distorcidos? Com suas crises existenciais, com sua consciência desesperada de que são diferentes mas que o conceito de diferente é tão pateticamente comum que no final das contas somos os dois?
Não foram desprezados, não tiveram suas tormentas e paixões que deram errado, não pensaram por ao menos um momento que jamais conseguiriam fazer algo realmente significativo pela humanidade? E será que as pessoas que viveram em outras épocas já não achavam o mundo uma terrível desordem? Eu sou apenas um amontoado de casacos xadrez com cheiro de novos, palavras um tanto desconexas, e cabelos coloridos particularmente revoltos. Tenho a consciência de que não sou especial mas que sou uma semente suficientemente transgênica pra sair daqui e me misturar à outras com aspecto semelhante, pra que eu não pareça mais uma aberração.
Como diz Thom Yorke – de quem eu não gosto e me odeio por citá-lo, mas o Anberlin fez um cover tão lindo dessa música –, I’m a creepy, I’m a weirdo, what the hell am I doing here? I don’t belong here.
Ultimamente, com essa praga chamada tumblr, parece muito bonito ser diferente. Parece especial. Mas quem realmente não é como a grande massa sabe que ser diferente, nessa sociedade, não é bom. Alguém que se orgulha de ser diferente não o é realmente. Você é visto como uma aberração, não importa quantas fotos de gente nerd e com cabelo colorido hajam na internet. Podem te enaltecer na sua vida virtual, mas você dificilmente terá uma real. Você é como uma ervilha, e o meio em que você vive é como Mendelev. Ele tenta extinguir aquelas que não são as mais procuradas para venda. Você é segregado, rotulado e se necessário, jogado fora.
E qualquer um faz isso. Você se considera levemente manero na internet e vai fazer piada com as pessoas da vida real, com a galera que usa hashtag e crocs e calça saruel. Não existe o ridículo absoluto. Existem divergências sobre qual é o melhor tipo de ervilha. Lugares – seja um bar, uma cidade, um país – onde as pessoas podem se encontrar e serem elas mesmas. E pessoas que as amam como elas são. Felizmente, em quase dezessete anos aqui, eu encontrei outra aberração, tão destoante de tudo o que eu já tinha visto que despertou o melhor que havia em mim. Sinto por ele, não só o mais infinito e sincero amor, como profunda admiração, devoção, identificação e, não creio que alguém imagine isso, mas indescritível gratidão. Por não ter se transfigurado no que o meio exigia que ele fosse mas que ele jamais seria. Por ter me feito odiar sua máscara e amar o que ele realmente era. Não só amar mas me orgulhar, não só me orgulhar mas me espelhar.
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