Não estava de pé e na rua tão cedo desde o dia que fui buscar o Bryan na rodoviária. Fui andando pela Oscar Rodrigues Alves, provavelmente uma das ruas mais bonitas da vizinhança, e pensando no texto que mais tarde eu comporia.
Mas eu sou uma eterna atualização de banco de dados e esqueço da frase anterior no momento em que penso numa nova. Tentarei me ater ao que eu estava pensando, então.
Inalando ar puro, passei uns instantes pensando na sensação estranhamente acolhedora de andar nas ruas quase vazias antes das seis da manhã, e que eu deveria fazer isso todo dia.
E de imediato o outro lado do meu cérebro repeliu a idéia, não só pela preguiça, mas porque todas as melhores coisas devem acontecer homeopaticamente. Caso contrário, deixam de ser as melhores coisas e se tornam apenas mais uma banalidade na rotina. Talvez por isso tantos milionários reclamem de serem infelizes. Eles podem ter tudo o tempo todo. Isso pode se tornar um bocado aborrecido, acho eu.
Mas ainda assim pretendo descobrir pessoalmente se é mesmo tão chato ter dinheiro.
Me pus a admirar as casas bonitas ainda na semi-escuridão. É quase patético você morar numa casa caindo aos pedaços num lugar tão bonito, e definitivamente irônico percorrer esse caminho pra ir num médico do SUS.
Uma hora da mais detestável espera – não tinha como ler nem escrever, a primeira meia hora porque estava de pé e a segunda porque estava com colírio no olho e espremida entre velhinhos – pra tipo, três minutos, senão menos, nos quais o médico perguntou qual era meu problema,
— Enxergo tudo embaçado de longe. E me dá dor de cabeça quando tento ler.
— Ok, olha praquele quadro iluminado.
Me fez abrir bem os olhos por alguns segundos pra algum processo que ignoro como funciona e depois me colocou aquela maquininha com as lentes na frente dos olhos. Disse que enxergo um pouco melhor com o esquerdo mas ele colocou o mesmo grau nos dois. Tá bom então né amigo, não to pagando nada e não posso exigir mais que isso, tenho inclusive que dar graças a Deus por ter sido atendida.
Quase esperei que ele dissesse isso, seguido de “filhinha só to aqui porque o salário é bom”. Mas tudo bem. Vou ter meus óculos. E por algum método semelhante à fotossíntese, tenho transformado a frustração em motivação. Motivação pra não ter mais que passar por tais situações, e sobretudo pra que meus filhos nem venham a saber o que é só ter arroz com salsicha pra comer por meses, ou ter que usar agasalhos e materiais escolares doados, ou morar em casa emprestada que pode ser revogada a qualquer momento, ou não ter como bancar aluguel de uma espelunca no pior dos subúrbios, ou perder móveis na chuva, ou vender 400 gibis a 18 reais pra ter dinheiro pra comprar o almoço da família toda, ou ter bolsa numa escola particular e sofrer humilhação da própria diretora, mesmo que a bolsa tenha sido conquistada justamente. Ou acordar cedinho pra ter um atendimento horrível depois de uma fila quilométrica (que pensando bem não é tão ruim quanto todo o resto). Na época eu evidentemente me envergonhava de tudo isso. Minha mãe fazia o que podia e eu era nova demais pra fazer algo. Mas agora eu tenho idade pra fazer minhas próprias coisas, e vergonhoso seria se eu não buscasse um destino melhor do que havia tido até então.
Claro que eu não vou dar aos meus filhos um jatinho e um barco pra cada um, ou comprar uma ilha pra colocar o nome deles. Tampouco mandá-los pra Disney todas as férias. Mas conforto, estabilidade, todas as condições pra que eles sejam mais inteligentes, mais felizes, e menos falhos na personalidade e no caráter do que eu sou.
E então contar todas as histórias horríveis dos primeiros anos da minha vida, sabendo que já se tornou algo distante. E o que me distanciou disso foi minha própria dedicação.
Porque sabe, a sucessão de fatos que me permito chamar de minha vida tem sido surreal. Surreal de verdade, mais surreal que uma pintura do Magritte. Eu sinto que nunca tive nada do que eu queria, mas depois aconteceu algo muito melhor que me fez pensar “ainda bem que aquilo que eu queria naquela época não deu certo”.
Por exemplo, eu tive um monte de namorados virtuais que nunca conheci. E na época, porra, eu era muito mais lixo em todos os aspectos do que sou agora. E mesmo assim eles me faziam sentir alguma coisinha melhor do que eu era.
É claro que é porque eles não me conheciam, não porque viam em mim algo que o resto das pessoas não podiam enxergar, mas só me dei conta disso agora.
E sofria. Sofria porque estava longe, sofria porque tinha medo dos chifres, sofria porque não tinha como encontrá-los, etc, etc, etc. E nunca cansava de tomar no cu, eles que tinham que terminar comigo. Daí eu sofria porque tava sem meus adesivos de nicotina emocionais. E eu realmente queria que tivesse dado certo, na época. Com doze, treze, quatorze anos, quando eu não sabia nem limpar a bunda e nunca tinha beijado, muito menos tido um relacionamento real pra saber diferenciar.
Daí eu conheci o Diogo etc etc etc e vejo que o que eu queria antes não só era irreal, inviável e com enormes chances de dar errado, como também não fazia parte de um plano maior.
Porque eu acredito num plano maior.
É como na física, como corpo extenso e ponto material.
O corpo extenso é o que você vê e deseja dentro do seu limitado vislumbre da própria vida. E o ponto material é como se você pudesse ver toda uma estrada e aquele momento como apenas um ponto em toda a amplidão. E percebesse que aquele ponto jamais faria parte da estrada principal.
É como se houvesse um GPS pro passado, e só depois de certo tempo você pudesse analisar fatos já transcorridos com mais propriedade. Quanto tempo? Não sei. Talvez o necessário pra acontecer um fato que seja melhor do que aquele que você desejava e não aconteceu.
E é aí que entra outro fator que torna minha vida mais surreal que um quadro do Renézinho. O fato de até então eu ter sido um agente passivo nas minhas conquistas.
Tipo, tudo o que eu tenho que mais estimo eu jamais planejei ter. Eu sinto que mereci, por já ter me fodido tanto na vida. Mas não são coisas que eu desejei e fui atrás.
É por isso que eu quero tanto passar no vestibular, no curso que eu finalmente escolhi, na faculdade pela qual tenho preferência. Eu quero uma vez na vida conseguir atingir meu objetivo pelo meu esforço, não por ser coitadinha e inteligente. Tenho certeza que a maioria dos meus concorrentes também já teve alguma dificuldade na vida, e certamente são inteligentes.
Mas ainda assim, eu acredito demais em mim mesma. Eu nunca me matei de estudar, só prestava atenção na aula, e era a melhor aluna da sala no meio de um monte de riquinho. Eu passei em segundo lugar pra bolsa do Coc no colegial, e em 15º na prova do cursinho que eu fiz só pra me avaliar.
E eu me orgulho muito disso, mas eram coisas que eu nem queria muito. Coisas nas quais eu competia com gente que tinha minha idade e mais ou menos o mesmo grau de instrução que nem eu. Agora vai ser diferente. Tem gente que quer a vaga ainda mais do que eu. Desesperadamente.
E por mais que eu ache vestibular uma coisa arbitrária, é o único modo de atingir meus objetivos. Vestibular não é um atestado de inteligência ou burrice, tampouco o teste de QI do Einstein. Inteligente, pra mim, é alguém que sabe um pouco de tudo, que consegue raciocinar, que consegue expressar suas idéias com clareza. E no dia do vestibular você pode acordar com uma dor de cabeça horrível, pode estar cansado da viagem até sua cidade de destino, pode ter brigado com a mãe no dia anterior, pode passar errado no gabarito, pode se confundir, interpretar errado, esquecer. São milhares de coisas que podem acontecer com todos e qualquer um. Na hora da prova, você se torna igual a todos os seus concorrentes. Já não importa mais quem passou noites e noites acordado estudando ou quem se preparou menos. Importa quem vai ter não só conhecimento e raciocínio, mas também sorte e astúcia. Não existe nenhuma diferença entre você, o cara ao lado que vive de café e barra de cereal desde o ano retrasado, estudando infinitamente pra se garantir, e o cara detrás que foi bêbado fazer a prova. As chances são injustamente iguais.
É por isso que todo mundo diz “don’t postpone joy”. Num vestibular e num caixão – os dois principais dead ends de todas as coisas – não existe diferença entre ninguém. O que faz sua existência ter valido a pena não são os planos que você fez, mas os momentos felizes que você teve. Não é o conhecimento e o dinheiro que você adquiriu, mas o uso que fez eles. Ciência e economia sempre serão importantíssimos, mas nunca mais do que pessoas.