quarta-feira, 30 de março de 2011

diamonds are forever

Dez meses atrás eu tava tendo a conversa mais linda da minha vida.
Tenho usado todos os clichês e descrito de todos os modos um dos melhores dias de toda a minha existência. Sou dada a arroubos de sentimentalismo e demonstrações públicas de afeto são comigo mesma, de modo que, meus amigos, depois de anos sem cometer tal exibicionismo, vou colocar um poema meu num blog.
A Thatha de doze anos, aquela guria é uma babaca completa. Ela usa o internetês mais n00b do universo e se sente carregando o peso de todo o sofrimento do mundo nas costas, como qualquer bom poeta gótico. Mas ela é a porra de um gênio. Eu provavelmente conseguiria me igualar a ela em babaquice sem muito esforço, mas nunca escreverei poemas como ela. Claro que ela costumava escrever um bocado de coisas medíocres, mas ela era excelente na arte de versar e sabia disso.
Sem mais delongas, meu primeiro poema de amor real, correspondido e razoavelmente maduro. Castro Alves e Álvares de Azevedo não saíram de mim mesmo depois de quatro anos, com todo esse simbologismo de anjos e natureza, e todos nós sabemos que poemas de sofrimento são bons e de amor feliz são bobos, mas eu espero que esses versos sejam significativos a quem são destinados.

Diamante

O amor verdadeiro é inebriante
Tal qual as cortinas do firmamento infindo
Só a mais intensa chama é capaz de dilapidar o diamante
Definitivamente apagar todo esboço errante
Desvela-se, pedra bruta, em octaedro lindo!
E brilha, como paixão atemporal,
Como noite do luar de Camões,
Como puntiforme e incerta nau
Como olhos e mãos ao alcançarem nossos corações

Como o selvagem e místico amanhecer,
Deixa-te por mim guiar, deixa-te por mim morrer,
Deixa-te por um momento existir pra sempre em meus braços
Em matéria angelical e esquálida eu me perfaço
Pois nada pode destruir tal querer
Se Eras atrás Deus designou nosso enlaço

És toda minha vida propriamente dita, o fim do prefácio
No qual éramos tal qual querubins a planar no espaço
Agora teu olhar é a estrela mais brilhante
Celestial, estarei ao teu lado, amando-o a cada instante
De toda minha alma de pureza infante,
De todo meu ardor de carne, ossos e sangue pulsante
Te faço meu anjo errante, repleto de amor inebriante.

domingo, 27 de março de 2011

the kids you used to love but then we grew old

vamo fingir que a gente é branquinho assim galera

Are we growing up or just going down? It’s just a matter of time until we all find out. Take your tears and put them on ice, ‘cause I swear I’d burn this tribo down to show you the light.
As pessoas normais que lêem isso que me perdoem, mas eu preciso fazer um post de aniversário pra um dos meus melhores amigos. Cheio de piadas internas e tudo mais.
Dezenove anos, Felícia linda. E ganhando de presente coisas da faculdade, como uma mãe que ganha uma nova luva de cozinha de aniversário. Frustração total.
E como não consegui pensar em nada melhor, vou expor meu amor publicamente (pra mais umas quatro pessoas, dos quais devem ser três hate-stalkers).
Dois anos e meio não é muita coisa. Mas nós crescemos tanto nesse tempo, gente. Tudo começou porque estávamos os dois sem internet, morando na lan house. E porque assistíamos novela da tarde (quando não estávamos na lan house né). E porque espirrávamos alto. E amávamos fob acima de todas as coisas.
Agora aqui estamos nós, com internet, sem novela da tarde, com a melhor banda do mundo em hiato mas ainda nos nossos corações, e ainda espirrando alto, e os dois últimos itens não vão mudar nunca.
Primeiro, a fase piadinha. Morrendo de rir das nossas próprias vidas loser (ok, isso também continua praticamente inalterado). Sendo o único amiguinho um do outro no meio de um monte de gente que tentávamos agradar mas jamais conseguiríamos.
Daí fomos nos aproximamos por mais coisas em comum – banda preferida e mesma vida loser já é pauta pra meses de conversa né – até nos tornarmos aquele grude insuportável. “Vou no banheiro” “ai não vai, não me deixa aqui sozinha, você não me ama”.
“Tô saindo” “ah não, fica, por favor, te amo, vamos faltar na escola”.
Eram realmente coisas do gênero. E apesar desse grude todo ter sido ruim, na época a gente não podia se imaginar sem essa coisa toda compulsiva. E eu fico realmente feliz até pela fase que ficamos mais afastados, porque conseguimos amadurecer pra manter a amizade tendo vida própria.
Você é tão importante pra mim, e significa muito saber que eu sou sua melhor amiga. Você me encorajando pra ficar com o Diogo, eu te encorajando a sair de Nárnia. Você sempre esteve ao meu lado, me fazendo rir quando eu estava me preocupando demais com algo pequeno e me aconselhando nos momentos certos. Fazendo amizade com todas as outras pessoas importantes da minha vida e viajando oito horas pra vir pra tribo nos ver. Jogando glíter na minha existência. Se preocupando com todos meus problemas e dividindo os seus comigo. Você esteve ao meu lado em alguns dos piores momentos da minha vida e soube a coisa certa a me dizer, mas também esteve comigo, inclusive literalmente, em alguns dos melhores dias da minha vida. Devo usar os clichês de sou muito grata por ter você na minha vida e tudo mais? Porque é verdade. Sua amizade é uma das coisas pelas quais eu mais prezo na vida. E eu espero que daqui a uns anos a gente ria desse post, assim como rimos das peripécias de 2009, porque significa que ainda estaremos amadurecendo, e ainda seremos amigos. (ou amigas, nunca se sabe o que você vai ter aprontado até lá)
E vad, você merecia uma vida inteira de acessórios de sex shop pra eu retribuir tudo o que você já fez por mim, mas eu sei que você vai dizer “aw vad, que lindo, pode mandar o vibrador depois” e ficar feliz de verdade que eu tenha feito um post meio bobo, muito mal escrito, mas ainda assim que significa muito.
Eu sei que todo esse sentimentalismo e piada interna é uma coisa cretina quando se vê por fora, mas quando é a sua vida, a sua amizade, e sobretudo, alguém escrevendo sobre você, você realmente se sente especial. E é como eu quero que todas as pessoas que eu amo se sintam quando eu escrever sobre elas. Mesmo que todas as pessoas de fora me achem mais babaca que o normal. Principalmente por eu ter colocado uma foto que eu tô toda horrorosa, mas fiquei com preguiça de procurar uma foto bonitinha com vela de aniversário e tal, como seria mais apropriado.
Eu pensei também em fazer uma retrospectiva desse tempo de amizade e tal, mas minha memória é péssima e eu só consigo lembrar da gente brigando por causa de waking up in vegas e chorando com seize the day.
Então, Bryan Felícia Albuquerque, feliz aniversário. E obrigada por ter compartilhado os últimos dois anos e meio desses dezenove comigo. E não adianta só agradecer a homenagem, tem que cantar dancing queen no meu aniversário porque eu passei a vida inteira esperando pelos dezessete só pra poder colocar “young and sweet only seventeen” no quem sou eu do orkut.

where there's music and there's people who are young and alive

Tem uma música do son of dork que chama murdered in the mosh e agora eu sei o que significa.
Cara, ontem foi um tanto assustador.
Nada realmente ruim aconteceu, mas eu me senti a creepy a weirdo what the hell am I doing here etc.
O Pub é lindo, eu já tinha estado lá com a Tah uma vez. As paredes são cobertas de jornal envelhecido, o palco é foda, a parte onde vende as bebidas é linda, toda iluminada de verde-heineken, amarelo-bavária e vermelho-coca-cola. Muito lindo mesmo. Mas definitivamente não é o meu lugar.
Eu toda arrumada, aquele monte de cara com roupa que parece de dormir. Tá, ninguém te mandou ir arrumada, vadia. Os caras com alargadores de mais de 20mm. Eu odeio alargador, odeio orelha, não uso nem brinco. Os caras com tatuagens gigantescas no corpo todo. Eu com uma única tatuagem gay de estrelinhas nas costas, que nem era visível com a roupinha de boneca que eu tava usando. Eles tomando vinte cervejas por minuto, eu dividindo uma coca e uma água com a Sun. Eles moshando lá na frente, eu quietinha numa mesa acompanhando a bateria com um dos pés e eventualmente batucando com as palmas das mãos na saia. Até meu cabelo, minha única coisa realmente legal, parece antiquado de algum modo.
Eu pareço patética lá. E definitivamente não quero me encaixar. I’m no ordinary girl, mas cara, também não sou tão diferente assim. Eu jurava que ia tá lotado, mas tava super vazio. Ninguém gosta dessas coisas aqui. Eu não gosto.
Ok no começo tocou foo fighters e eu tava animadona cantando e batendo os pezinhos, e a primeira banda foi bem legal, mas depois meus tímpanos estouraram.
Há uma linha tênue entre ser altruísta e encaixar em tudo, como uma extensão da vontade alheia. Eu fiquei em cima da linha, então. Fui de boa vontade com minha melhor amiga que ama uma gritaria. Era festival de metal, e eu pensei “porra, legal né. Nunca tem algo mais decente pra cá”. Mas sei lá, é algo que dá pra ouvir, só que tem que gostar muito pra ficar num lugar fechado ouvindo isso por horas.
A segunda banda me irritou e acabou com meus ouvidos. Fui pro banheiro ver se melhorava, fiquei sentada na privada jogando soccer league no celular, E A PORRA DA PRIVADA TREMIA.
Eu tava quase vomitando com aquelas ondas sonoras destruidoras entrando no meu estômago oco, até que olhei pro papel higiênico e decidi enfiar no ouvido.
Beleza, diminuiu muito a dor, agüentei mais um pouco lá, depois fiquei um tempão lá fora e a gente veio embora porque eu tava passando mal.
Tá, eu não sou uma boa amiga porque fiz ela sair antes de acabar, mas eu sou uma boa amiga porque agüentei firme por várias horas e antes de começar a gente se divertiu com bobagens como sempre. Não me forcei a me adaptar à vontade alheia, mas também não fui cuzona. Até porque eu nunca tinha ido num troço desses, vai que eu gostasse? Se fosse num ambiente aberto eu provavelmente curtiria bem mais. Aquelas ondas sonoras fortíssimas se chocando contra paredes sólidas e corpos frenéticos me fazem querer morrer.
Seguindo essa mesma lógica, vou prestar um vestibular que eu não quero e o Diogo quer. Eu não conheço o lugar pessoalmente e nunca prestei tal vestibular [e nenhum outro, evidentemente], de modo que eu tenho que dar a chance.
E agora eu tenho mais certeza de que minha segunda casa nessa cidade é o porks. Cara, vou sentir tanta falta de lá quanto da minha família. Rock clássico, 70s’, 80s’, 90s’, ao vivo. Todo mundo sendo legal comigo. Coca cola a preço justo. Batata frita. Ambiente aberto. Perto de casa. Se tudo der certo, ano que vem a essa altura estarei numa cidade onde sempre quis morar, um lugar realmente incrível, mas ainda assim de vez em quando vou lembrar da minúscula mas extremamente significativa parcela de coisas boas que existem em Araçatuba.
Então, só pra explicar essa coisa de mosh, que eu descobri ontem de tarde o que era: os caras curtindo o som se batendo, sabe? É tão babaca quando você tá de fora, gente. E eles realmente acham manero moshar. Eles se dão socos e chutes e voadoras e headshots porque não conseguem segurar seu orgasmo musical.
Inclusive, funny story: tinha um cara muito bonitinho a certa distância da gente, antes de começar o show. Eu não enxergo bem a tal distância mas ele parecia bem bonitinho e meio delicado, sabe? Achei ele a cara do Spencer do Panic!, e a Sun disse que ele parece o vocalista de uma dessas bandas de macho que ela gosta.
Enfim. Bonitinho demais pra ser hétero, eu pensei.
Daí quando começa a rodinha punk em volta do palco ele foi o que mais dava socos e chutes e tal, e eu e a Sun ficamos super impressionadas porque ele parecia todo fofo.
Ok, não sei como terminar esse post porque não estou nem tentando fazer algo bem-escrito, só contar de ontem mesmo. No fim das contas não foi ruim porque é impossível algo ser realmente ruim com a Sun, tomei aspirina e não tô mais dolorida hoje, ninguém se machucou de verdade. Mas não coloco mais meus pés no Pub, beijo família.
She’s into Jane’s Addiction but she don’t know their songs and I fall over laughing when she tries to sing along. She thinks that she’s so emo, next week she’ll be a goth, it all amounts to nothing and she gets murdered in the mosh > não quero ser essa garota, sabe.

sexta-feira, 25 de março de 2011

with arms and eyes open wide

Não estava de pé e na rua tão cedo desde o dia que fui buscar o Bryan na rodoviária. Fui andando pela Oscar Rodrigues Alves, provavelmente uma das ruas mais bonitas da vizinhança, e pensando no texto que mais tarde eu comporia.
Mas eu sou uma eterna atualização de banco de dados e esqueço da frase anterior no momento em que penso numa nova. Tentarei me ater ao que eu estava pensando, então.
Inalando ar puro, passei uns instantes pensando na sensação estranhamente acolhedora de andar nas ruas quase vazias antes das seis da manhã, e que eu deveria fazer isso todo dia.
E de imediato o outro lado do meu cérebro repeliu a idéia, não só pela preguiça, mas porque todas as melhores coisas devem acontecer homeopaticamente. Caso contrário, deixam de ser as melhores coisas e se tornam apenas mais uma banalidade na rotina. Talvez por isso tantos milionários reclamem de serem infelizes. Eles podem ter tudo o tempo todo. Isso pode se tornar um bocado aborrecido, acho eu.
Mas ainda assim pretendo descobrir pessoalmente se é mesmo tão chato ter dinheiro.

Me pus a admirar as casas bonitas ainda na semi-escuridão. É quase patético você morar numa casa caindo aos pedaços num lugar tão bonito, e definitivamente irônico percorrer esse caminho pra ir num médico do SUS.
Uma hora da mais detestável espera – não tinha como ler nem escrever, a primeira meia hora porque estava de pé e a segunda porque estava com colírio no olho e espremida entre velhinhos – pra tipo, três minutos, senão menos, nos quais o médico perguntou qual era meu problema,
— Enxergo tudo embaçado de longe. E me dá dor de cabeça quando tento ler.
— Ok, olha praquele quadro iluminado.
Me fez abrir bem os olhos por alguns segundos pra algum processo que ignoro como funciona e depois me colocou aquela maquininha com as lentes na frente dos olhos. Disse que enxergo um pouco melhor com o esquerdo mas ele colocou o mesmo grau nos dois. Tá bom então né amigo, não to pagando nada e não posso exigir mais que isso, tenho inclusive que dar graças a Deus por ter sido atendida.
Quase esperei que ele dissesse isso, seguido de “filhinha só to aqui porque o salário é bom”. Mas tudo bem. Vou ter meus óculos. E por algum método semelhante à fotossíntese, tenho transformado a frustração em motivação. Motivação pra não ter mais que passar por tais situações, e sobretudo pra que meus filhos nem venham a saber o que é só ter arroz com salsicha pra comer por meses, ou ter que usar agasalhos e materiais escolares doados, ou morar em casa emprestada que pode ser revogada a qualquer momento, ou não ter como bancar aluguel de uma espelunca no pior dos subúrbios, ou perder móveis na chuva, ou vender 400 gibis a 18 reais pra ter dinheiro pra comprar o almoço da família toda, ou ter bolsa numa escola particular e sofrer humilhação da própria diretora, mesmo que a bolsa tenha sido conquistada justamente. Ou acordar cedinho pra ter um atendimento horrível depois de uma fila quilométrica (que pensando bem não é tão ruim quanto todo o resto). Na época eu evidentemente me envergonhava de tudo isso. Minha mãe fazia o que podia e eu era nova demais pra fazer algo. Mas agora eu tenho idade pra fazer minhas próprias coisas, e vergonhoso seria se eu não buscasse um destino melhor do que havia tido até então.
Claro que eu não vou dar aos meus filhos um jatinho e um barco pra cada um, ou comprar uma ilha pra colocar o nome deles. Tampouco mandá-los pra Disney todas as férias. Mas conforto, estabilidade, todas as condições pra que eles sejam mais inteligentes, mais felizes, e menos falhos na personalidade e no caráter do que eu sou.
E então contar todas as histórias horríveis dos primeiros anos da minha vida, sabendo que já se tornou algo distante. E o que me distanciou disso foi minha própria dedicação.
Porque sabe, a sucessão de fatos que me permito chamar de minha vida tem sido surreal. Surreal de verdade, mais surreal que uma pintura do Magritte. Eu sinto que nunca tive nada do que eu queria, mas depois aconteceu algo muito melhor que me fez pensar “ainda bem que aquilo que eu queria naquela época não deu certo”.
Por exemplo, eu tive um monte de namorados virtuais que nunca conheci. E na época, porra, eu era muito mais lixo em todos os aspectos do que sou agora. E mesmo assim eles me faziam sentir alguma coisinha melhor do que eu era.
É claro que é porque eles não me conheciam, não porque viam em mim algo que o resto das pessoas não podiam enxergar, mas só me dei conta disso agora.
E sofria. Sofria porque estava longe, sofria porque tinha medo dos chifres, sofria porque não tinha como encontrá-los, etc, etc, etc. E nunca cansava de tomar no cu, eles que tinham que terminar comigo. Daí eu sofria porque tava sem meus adesivos de nicotina emocionais. E eu realmente queria que tivesse dado certo, na época. Com doze, treze, quatorze anos, quando eu não sabia nem limpar a bunda e nunca tinha beijado, muito menos tido um relacionamento real pra saber diferenciar.
Daí eu conheci o Diogo etc etc etc e vejo que o que eu queria antes não só era irreal, inviável e com enormes chances de dar errado, como também não fazia parte de um plano maior.
Porque eu acredito num plano maior.
É como na física, como corpo extenso e ponto material.
O corpo extenso é o que você vê e deseja dentro do seu limitado vislumbre da própria vida. E o ponto material é como se você pudesse ver toda uma estrada e aquele momento como apenas um ponto em toda a amplidão. E percebesse que aquele ponto jamais faria parte da estrada principal.
É como se houvesse um GPS pro passado, e só depois de certo tempo você pudesse analisar fatos já transcorridos com mais propriedade. Quanto tempo? Não sei. Talvez o necessário pra acontecer um fato que seja melhor do que aquele que você desejava e não aconteceu.
E é aí que entra outro fator que torna minha vida mais surreal que um quadro do Renézinho. O fato de até então eu ter sido um agente passivo nas minhas conquistas.
Tipo, tudo o que eu tenho que mais estimo eu jamais planejei ter. Eu sinto que mereci, por já ter me fodido tanto na vida. Mas não são coisas que eu desejei e fui atrás.
É por isso que eu quero tanto passar no vestibular, no curso que eu finalmente escolhi, na faculdade pela qual tenho preferência. Eu quero uma vez na vida conseguir atingir meu objetivo pelo meu esforço, não por ser coitadinha e inteligente. Tenho certeza que a maioria dos meus concorrentes também já teve alguma dificuldade na vida, e certamente são inteligentes.
Mas ainda assim, eu acredito demais em mim mesma. Eu nunca me matei de estudar, só prestava atenção na aula, e era a melhor aluna da sala no meio de um monte de riquinho. Eu passei em segundo lugar pra bolsa do Coc no colegial, e em 15º na prova do cursinho que eu fiz só pra me avaliar.
E eu me orgulho muito disso, mas eram coisas que eu nem queria muito. Coisas nas quais eu competia com gente que tinha minha idade e mais ou menos o mesmo grau de instrução que nem eu. Agora vai ser diferente. Tem gente que quer a vaga ainda mais do que eu. Desesperadamente.
E por mais que eu ache vestibular uma coisa arbitrária, é o único modo de atingir meus objetivos. Vestibular não é um atestado de inteligência ou burrice, tampouco o teste de QI do Einstein. Inteligente, pra mim, é alguém que sabe um pouco de tudo, que consegue raciocinar, que consegue expressar suas idéias com clareza. E no dia do vestibular você pode acordar com uma dor de cabeça horrível, pode estar cansado da viagem até sua cidade de destino, pode ter brigado com a mãe no dia anterior, pode passar errado no gabarito, pode se confundir, interpretar errado, esquecer. São milhares de coisas que podem acontecer com todos e qualquer um. Na hora da prova, você se torna igual a todos os seus concorrentes. Já não importa mais quem passou noites e noites acordado estudando ou quem se preparou menos. Importa quem vai ter não só conhecimento e raciocínio, mas também sorte e astúcia. Não existe nenhuma diferença entre você, o cara ao lado que vive de café e barra de cereal desde o ano retrasado, estudando infinitamente pra se garantir, e o cara detrás que foi bêbado fazer a prova. As chances são injustamente iguais.
É por isso que todo mundo diz “don’t postpone joy”. Num vestibular e num caixão – os dois principais dead ends de todas as coisas – não existe diferença entre ninguém. O que faz sua existência ter valido a pena não são os planos que você fez, mas os momentos felizes que você teve. Não é o conhecimento e o dinheiro que você adquiriu, mas o uso que fez eles. Ciência e economia sempre serão importantíssimos, mas nunca mais do que pessoas.

domingo, 20 de março de 2011

mark true or false

“Mulher é um bicho falso”, acho que toda a humanidade já disse isso em todos os dialetos possíveis (menos eu né amiga).
A gente às vezes é bem filha da puta, mas às vezes também acaba sendo cruel totalmente sem perceber. Ou então nem acha que é cruel, até um cara vir e dizer isso.
Cada vez que você só comenta o corte novo da sua amiga que ficou parecendo a Gaga na capa do Monster depois que ela sai, com as outras, pra não magoar. Cada vez que você concorda com alguém só pra não ter que discutir, mesmo que não ache nada daquilo.Cada vez que você diz que ama uma pessoa, e depois que ela te decepciona, você começa a apontar todos os defeitos dela.
Descobri que os homens acham que isso é ser falsa e má. Claro que eles não estão sendo falsos quando pegam a mulher do amigo, quando dizem que vão te ligar. Claro que eles não estão sendo maus quando fazem piadas com o tamanho do pau do outro e juram que vão matar a pessoa que os irritou com alguma bobagem.
Não vejo crueldade nesses atos de mulherzinha – e os caras provavelmente também pensam que o que eles fazem tá tudo bem – porque eu não gostaria que me dissessem que meu corte de cabelo tá feio, porque afinal não tem como arrumar e eu só vou me sentir pior. Porque tem discussões que são completamente desnecessárias e você quer evitar desgaste a troco de nada. Porque quando eu dizia que amava alguém, eu realmente acreditava que amava, e isso fazia com que eu não visse ou ignorasse seus defeitos, e só a decepção me permitiu enxergá-los ou relevá-los. E a mágoa é tanta que a gente enfatiza e até aumenta as falhas alheias, tudo pra se sentir melhor, pra se sentir vingada.
Quando alguém te joga algo na cara, é claro que você acaba ficando péssima. Mas acontece que é algo que você já fez. E se não tem mais como arrumar, tudo o que você pode fazer é analisar se foi algo realmente ruim e fazer o possível pra não repetir. Mas peraí, se minha amiga ainda não cortou o cabelo, eu vou avisar que acho que vai ficar ruim. Se é algo realmente importante, é claro que eu vou discutir, mesmo que tenha que me desgastar. Se é a milésima decepção com a mesma pessoa e eu ainda sinto o mesmo, então me dou ao direito de dizer que esse amor é de verdade. Quanto a exaltar as faltas das pessoas que a gente dizia amar, eu nem sei o que dizer. É horrível, é um mecanismo de defesa extremamente falho. Eu espero trabalhar isso. Eu espero nunca estar errada em relação ao amor que não só digo sentir, mas acredito verdadeiramente que sinto. Espero nunca ter outro namorado pra enumerar as falhas do Diogo – alias, espero nunca ter outro namorado. Pelo amor de Deus, eu só tenho dezesseis anos. Eu cresci lendo Pedro Bandeira, Álvares de Azevedo, Poe e o blog dos meus amigos góticos de 2007. Eu amo e odeio o drama, porque ele faz parte de mim. Eu me apego facilmente às pessoas porque cresci sozinha, sem amigos. Vendo novela, esperando encontrar amor e o vendo onde não tinha. Sendo cobrada ao extremo e tratada com considerável frieza pela minha mãe. E mesmo que quase nunca pareça, eu sou a mais frágil e mais mulherzinha de todas. I’m a mess. Mas por ter consciência de toda essa fraqueza de personalidade, é que eu paro pra refletir sobre o que eu posso melhorar. Porque eu nunca vou deixar de ser um monte de coisa ruim que eu sou. Só que eu acredito que a ignorância é uma bênção, e uma vez que você toma conhecimento de algo, você tem que assumir aquilo. Se você percebe que agiu horrivelmente, você tem que parar de agir horrivelmente. Mesmo que você deseje nunca ter sabido daquilo, já é tarde demais. Você deve andar pra frente, você pode até andar para os lados, mas nunca pra trás.

sexta-feira, 18 de março de 2011

oh can't you see how happy we will be

Arrependimento é uma via dupla. Você olha só pra direita e algo vindo do outro lado te atinge.
Porque eu tava planejando um post sobre como eu me arrependo de não ter começado a estudar o mais cedo possível.
E não me refiro ao estudar de prestar atenção na escola. Tenho um punhado de bons professores, dos quais pouquíssimos conseguem se impor sobre quarenta filhos da puta e cumprir seu trabalho satisfatoriamente.
Mas a culpa não é só dos meus professores medianos e/ou sem pulso firme. Tampouco dos filhos da puta que se acham tão fodões mas só estão na escola porque a mamãe obrigou. E também não totalmente minha, meus amigos. É o ambiente não me deixando estudar e eu não resistindo ao ambiente.
Cursinho é a melhor coisa. Aparentemente todo mundo interessado, todo mundo com o mesmo objetivo. Não lembro se contei, mas um desses sábados antes do carnaval eu fiz a prova do cursinho da unesp só pra me testar (Diogo me chamou de irresponsável porque eu disse que fiz ~só de zua~ mas meus amigos como eu ia saber que ia pegar uma colocação bem boa e fazer?).
Eu pensei: porra, 42 questões (41, uma foi anulada). Se eu acertar menos de 15 é vergonha demais. Vinte tá ótimo.
Tá, acertei vinte e duas, fiquei satisfeita pelo meu rendimento mediano. Daí sai a lista e eu nem ligo pra olhar, tendo certeza que ia ter uns gênios acertando mais de trinta. Fiquei puta surpresa quando a Ana disse que tinha meu nome lá e tal. Décimo quinto, porra. De 570. Ok, vamos colocar como incompetência alheia e não mérito meu, porque se eu acertar só metade do vestibular não passo nem pra segunda fase da minha opção mais fuleira.
Passamos eu, o Diogo, a Nati (que é da minha sala e do grupinho mas não sou muito próxima) e a Sun (minha atual melhor amiga, para os leigos. O que é uma coisa bem estranha de se dizer por que você supostamente tem que ter uma pra sempre mas enfim, devo ser péssima amiga e nunca dei muita sorte).
Mal deu uma semana e eu já aprendi tanto, já me senti tão capaz de passar. Nunca senti isso na escola. No Bom Pastor (escola particular que estudei da quinta até a oitava porque tinha bolsa integral) dava pra sentir que você tava aprendendo porque mesmo os alunos terríveis não atrapalhavam a aula. Nego no máximo vinha olhar sua resposta depois do professor dar uns berros mas normalmente se mantinha quieto. Só que eu ainda era muito nova pra pensar em faculdade de modo concreto.
Daí que esse texto me veio, a princípio, pra dizer como eu me arrependo de não ter estudado desde o primeiro ano, mas porra, ia ser uma coisa forçada, eu não ia entender bem as coisas e me odiar. Eu acabei passando por ciclos que me edificaram como pessoa.
No primeiro ano eu saí do meu estigma de nerd pobre bolsista. Tá, ainda me achavam nerd, mas eu era bem vagabunda, de faltar, dormir e tal, apenas conhecia bem o conteúdo porque tinha aprendido de verdade nos anos anteriores. Tipo, eu estava livre da escolinha católica. Tudo o que eu crescia como estudante, eu era oprimida como pessoa. Tinha que estar sempre impecável, pontual, com as tarefas prontas, muito mais do que qualquer riquinho. Uma das diretoras me odiava e fazia de tudo pra me humilhar. As pessoas queriam minhas apostilas, queriam que eu fizesse redação pra elas, mas nunca me chamaram pra sair. Eu não raro passava as noites de sábado chorando. Eu era inocente mas me apegava a qualquer menino aleatório que jamais ia querer ser meu namoradinho, de tão carente afetiva que sou. Eu era a mais mal-sucedida das putinhas sentimentais, falou oi pra mim na semana seguinte já tô escrevendo no diário que o menino podia ser meu namorado. Eu era toda complexada por não ter beijado.
Daí no primeiro ano eu estava livre de tudo isso. Até mesmo dos meus amores platônicos. E foi no momento que eu resolvi ser fria que eu conheci quem me faria me tornar muito mais passional do que eu já tinha sido, mas não é esse o foco né.
No segundo ano eu tive uma dessas amizades que as duas fazem tudo juntas. Apesar de tudo eu tive bons momentos com ela. Não sinto falta (um pouquinho às vezes, vai) mas tenho boas lembranças sobrepostas às ruins. Ela me ajudou a ser quem eu sou ou mostrar quem eu era. Eu dizia a ela que a amava praticamente tanto quanto ao Diogo, e eu acreditava piamente nisso. Ela era praticamente meu mundo e minha consciência. Uma vez estávamos andando na rua e eu lembro que disse uma coisa bonita pra caralho, não sei bem as palavras agora, mas que eu a amava duplamente, por ela ser minha melhor amiga e por ela ter me aberto os olhos de que eu realmente amava o Diogo.
E ano passado eu me diverti. Cara, me diverti mesmo. Mais do que em qualquer outro ano da minha vida até então, mesmo que seja pouco demais pra maioria das pessoas.
No primeiro ano eu pude ser eu mesma, e no segundo eu aprendi a ser. E agora eu tô tomando vergonha na cara.
E então, quanto aos arrependimentos, eu acho que não me adianta tê-los mas é válido eu dar meu exemplo. Se você tá no primeiro, segundo ano, ou até antes, saia. E se divirta pra caralho. Mas se divirta, meu amigo. Não vai fazer um monte de bobagem porque os amigos te disseram pra fazer. Deixe sua mãe puta de vez em quando, ela vai sentir falta quando você deixar de morar com ela. Mas não o tempo todo pra matar a coitada de desgosto antes que isso aconteça. Estude as matérias que você gosta por diversão, por curiosidade. Deixa as que você não gosta pra aprender com cursinho, porque só quando você faz que você percebe como é algo essencial, como é ridículo a gente perder três anos da vida no ensino médio pra não aprender metade do que a gente aprende no cursinho. Mas se você sabe bem quem você é, o curso que você quer, não se importa com vida social, então estuda. Pelo menos você vai ganhar mais do que eu, e nós vamos ganhar mais do que aquela biscate burra que fica gritando e atrapalhando a sala inteira. E tem sempre uma, se você não identificou ninguém assim, você é a biscate burra que fica gritando e atrapalhando a sala inteira.

sábado, 12 de março de 2011

you just might get it


Hoje aconteceu the craziest thing desde que eu pintei o cabelo de roxo. Eu tava numa daquelas ruas antiguinhas que saem da praça central da cidade (a título de curiosidade, Araçatuba foi feita num modelo arquitetônico francês do qual todas as ruas saem da praça principal. E aquela praça era usada pra negociação de bois back in 1910).
E tava indo pro sebo, comprar uma revistinha do homem-aranha pro lindo do meu namorado e um vinyl. Estava totalmente absorta na minha tarefa de escolher gibi quando vem uma mulher de uns trinta e poucos toda esbaforida, com seu cabelo vermelho-intenso-tipo-o-que-eu-tinha-até-mês-passado.
“Meu Deus moça que cabelo lindo..................................calma não vou perguntar que cor você usou porque eu nunca falo a minha mas eu tava lá no restaurante [um restaurante do outro lado da rua alguns metros acima] e vi você passando e tive que vir aqui falar”.
Wow.
A gente se sente alguém, sabe? Sempre esperei que alguém me reconhecesse do twitter e tentasse pronunciar meu user e dissesse que morre de rir com meus tweets. Mas não, gente aleatória, gente que jamais pintaria o cabelo de roxo e teria conta no twitter, me para pra dizer que-cabelo-lindo-que-tintura-você-usou (pra fazer justiça, meu cabelo ainda precisa de muita hidratação pra ficar lindo, mas a cor é bem legal mesmo).
E eu também comprei uma bolsa muito fofa e tal. Minha mãe me devia um dinheiro então estou podendo ser um pouco Becky Bloom. E quer saber? Eu sempre comprava coisas baratas que eu gostava mais ou menos, e meses depois me desfazia delas. Então estou deixando de ter dó do dinheiro. É o que dizem, “você tem que ser o senhor do seu dinheiro e não ele o seu senhor” ou algo assim. So true.
Provavelmente o que eu possuo não vai me tornar uma pessoa melhor. Mas quem consegue ser profundo e desapegado a valores materiais o tempo todo? Eu odiaria conviver com alguém assim, de verdade. Espero que esse tipo de gente esteja na Índia meditando doze horas por dia e em voto de silêncio fazendo trabalho voluntário nas outras doze horas.
Porque tudo nessa vida normal é dinheiro. Sou um horror sob todos os aspectos, mas se não fosse por dinheiro eu não me sentiria consideravelmente melhor comigo mesma agora do que, digamos, no começo do ano passado. A academia e os adventos pra emagrecer me custaram uma fortuna. Nunca vou ser magra mas já consigo caber no G de qualquer loja (afinal quem cabe na porra do P não é mesmo?), ao invés de precisar comprar roupas de velha em lojas horríveis com tamanhos especiais. E caras, obviamente, porque essas criações que fariam De La Renta querer morrer requerem um bocado de pano. Lembro que minha calça era sempre uns 80 reais enquanto as de números normais eram basicamente metade do preço. E eu mal tinha saído da infância. Doía de humilhação, e, pior, doía no bolso.
E minhas roupas e meu cabelo não são os melhores do universo e nunca vão ser, mas acho que pros padrões daqui são bem legais (claro que seriam melhores se estivessem emoldurando um corpo e uma cara bonitos né).
Ainda sou terrivelmente insegura. Rôo as unhas e passo horas analisando o que foi que eu fiz de errado. Morro de medo de postar fotos de corpo inteiro. Queria fazer tatuagem em lugares que são só banha e tenho um mínimo de noção de que não devo fazê-las agora. Mas porra, olha pra mim. As pessoas gostam do meu cabelo e de algumas das minhas roupas (se eu usar sempre as mesmas tá tudo certo). Isso é a capa. Isso faz com que te peguem da prateleira. espanem o pó e abram pra ler. Mas nunca soube de ninguém que se manteve lendo ávida e atentamente um livro até a última página apenas porque a capa era atraente.

i'm a loose bolt of a complete machine.


    Leu direitinho o manual das sogras, essa que eu tenho. Hoje me testou perguntando se eu queria “pegar uma pecinha” que ela pagava. No way, Isabel. O impulso pra conseguir uma roupa de graça é grande, mas graças a Deus estávamos na Riachuello que em roupa feminina só tem 95% porcaria e 5% coisa manera que não me serve.
Compramos roupa xadrez. Certo, tem todo um hype em torno disso, mas são lindas, certo? Foda-se que qualquer criança restart com tênis horroroso também possa ter uma peça semelhante.
Fomos pagar uma conta no terceiro andar do banco, eu com a sapatilha que ele ama mas que meu pé odeia. TERCEIRO ANDAR, AMIGOS!!! Subi a escada morrendo e desci descalça.
Sala de espera lotada, um cara alto de cabelo manero e óculos de nerd com a namorada escandalosa de cabelo roxo, camisa xadrez e short. Os dois discutindo Oscar Wilde e Charles Dickens em voz razoavelmente alta.
Não pensem, amigos, que através desse relato quero me sentir superior. Talvez eu seja mesmo uma babaca, talvez eu devesse usar jeans Revanche de cintura baixa, blusa decotada de strass da Riachuello e ir pra avenida principal da cidade todo sábado, me orgulhar do número de caras que me passam uma cantada de pedreiro. Não desejo, tampouco, pagar de profunda diferentinha bipolar viciada em café fã de beatles inadequada pra sociedade. Eu sei que há algum lugar, senão vários, nesse mundo, onde eu sei que posso me encaixar. Mas certamente não aqui. Não pertenço a esse lugar. Não gosto de gente de blusa de alcinha e crocs roçando em mim num calor de 38º ao som de sertanejo universitário. Não acho a Bella e o Edward o melhor casal da história do cinema e da literatura. Não tenho tênis e óculos de Pe Lanza. Não tenho a menor vontade de fazer Odontologia ou Veterinária, as únicas opções da única faculdade daqui capaz de dar algum futuro. O mundo é uma bagunça e é muito fácil culpar as novas gerações. Mas será que os eruditos do passado, os autores de clássicos, os grandes filósofos, cientistas, artistas e matemáticos, em vida, não foram pessoas como nós? Quase desprezíveis? Extremamente temperamentais? Cheios de conceitos distorcidos? Com suas crises existenciais, com sua consciência desesperada de que são diferentes mas que o conceito de diferente é tão pateticamente comum que no final das contas somos os dois?
Não foram desprezados, não tiveram suas tormentas e paixões que deram errado, não pensaram por ao menos um momento que jamais conseguiriam fazer algo realmente significativo pela humanidade? E será que as pessoas que viveram em outras épocas já não achavam o mundo uma terrível desordem? Eu sou apenas um amontoado de casacos xadrez com cheiro de novos, palavras um tanto desconexas, e cabelos coloridos particularmente revoltos. Tenho a consciência de que não sou especial mas que sou uma semente suficientemente transgênica pra sair daqui e me misturar à outras com aspecto semelhante, pra que eu não pareça mais uma aberração.
Como diz Thom Yorke – de quem eu não gosto e me odeio por citá-lo, mas o Anberlin fez um cover tão lindo dessa música –, I’m a creepy, I’m a weirdo, what the hell am I doing here? I don’t belong here.
Ultimamente, com essa praga chamada tumblr, parece muito bonito ser diferente. Parece especial. Mas quem realmente não é como a grande massa sabe que ser diferente, nessa sociedade, não é bom. Alguém que se orgulha de ser diferente não o é realmente. Você é visto como uma aberração, não importa quantas fotos de gente nerd e com cabelo colorido hajam na internet. Podem te enaltecer na sua vida virtual, mas você dificilmente terá uma real. Você é como uma ervilha, e o meio em que você vive é como Mendelev. Ele tenta extinguir aquelas que não são as mais procuradas para venda. Você é segregado, rotulado e se necessário, jogado fora.
E qualquer um faz isso. Você se considera levemente manero na internet e vai fazer piada com as pessoas da vida real, com a galera que usa hashtag e crocs e calça saruel. Não existe o ridículo absoluto. Existem divergências sobre qual é o melhor tipo de ervilha. Lugares – seja um bar, uma cidade, um país – onde as pessoas podem se encontrar e serem elas mesmas. E pessoas que as amam como elas são. Felizmente, em quase dezessete anos aqui, eu encontrei outra aberração, tão destoante de tudo o que eu já tinha visto que despertou o melhor que havia em mim. Sinto por ele, não só o mais infinito e sincero amor, como profunda admiração, devoção, identificação e, não creio que alguém imagine isso, mas indescritível gratidão. Por não ter se transfigurado no que o meio exigia que ele fosse mas que ele jamais seria. Por ter me feito odiar sua máscara e amar o que ele realmente era. Não só amar mas me orgulhar, não só me orgulhar mas me espelhar.