quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Changes

Nos últimos meses eu comecei a apreciar as artes. Ainda leiga, em passos pequenos vacilantes, e muitíssimo trôpegos. Talvez eu nem possa usar o termo “apreciar” – ainda estamos nos conhecendo, eu e as artes.
Estou muito diferente desde – bem, a tintura preta. Como se cada cor de cabelo pudesse me dar uma personalidade. Vermelho-liferuler, roxo-não-é-porque-eu-sou-esquisita-que-eu-sou-burra e preto-sosseguei.
Mas estar diferente não é exatamente mudar. E é justamente o que me pergunto – será que eu mudei (e se mudei, por que motivo?), ou será que apenas fui impulsionada a ser o que já ia por dentro da versão anterior?
Talvez seja uma pergunta que todo mundo vai fazer ao longo da vida – talvez seja a pergunta mais importante. Assim como em Dom Casmurro, não seria sobre a traição ter ou não acontecido, mas apenas isso: estaria a Capitu do Engenho Novo dentro da Capitu Mata-Cavalos?

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Lovesong

É aterrador quando você para pra pensar que todo mundo teve, tem ou terá sentimentos e sonhos. Que muitos te acham desprezível e julgam sua vida medíocre, e ainda assim você tem seus planos, suas metas, e até suas pequenas glórias – então as pessoas que você julga medíocres também possuem ou encontrarão amor, motivos pra viver, recompensa.
Ninguém é oco por completo que não possa produzir som ou tão cheio de conteúdo e valores que o propague melhor que os outros.
O universo todo é o tilintar misteriosamente harmonioso de graves e agudos, pianos e violoncelos, acordeões e flautas, belos e repugnantes. Cada um possui e produz sua acústica singular, uns menos medíocres que outros mas todos de mesma importância para o conjunto da obra. E cada pequena parte tem esse misterioso poder – se ela se cala, faz falta no todo, pois uma nota conta com a outra e todos os que estão próximos erram. Mas se todas cessam para que apenas uma possa ser ouvida, ela soará tremendamente insignificante.
Alguns emitem notas melodiosas como uma colherinha de prata numa taça de cristal, outros são como os baques grosseiros de uma grande cidade – uma orquestra não consiste de um único tipo de instrumento, afinal. Mesmo os ruídos mais reles encaixar-se-ão num vão do ressoar sublime.
Que são afinal os ruídos reles senão os considerados por nós inferiores ao som que produzimos? Um Ré pode ser mais agradável que um Dó, mas nenhuma nota é substituível apenas pelo conceito estético individual.
Algumas pessoas parecem-nos desagradáveis por criarem desarmonia na partitura de nossas vidas; tomemos para nós então aquelas que produzem o mais belíssimo som quando combinadas ao nosso e deixemos que aqueles que são baques grosseiros aos nossos ouvidos encontrem quem lhes escute como se fossem o som de um milhão de colherinhas polidíssimas açoitando levemente o cristal. Sejamos, pois, como o bom músico, que nada discrimina, nada repugna; sabe onde posicionar elementos ordinários de tal forma que surja algo novo e magnífico.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

happy nihilist

Nada define melhor a existência, seus cursos e seus mistérios que o meio-termo entre Rousseau e Marx. A vida é produto do meio e o meio é produto da vida; numa troca constante e exata, num relacionamento harmonioso.
Somos aptos a fazer uma escolha entre as cartas que nos são colocadas, em possibilidades muitas vezes amplas mas sempre finitas. Um meio livre-arbítrio em contraponto a um meio evento pré-destinado ou aleatório.
Um pensamento que parece tão óbvio mas precisou de tantos homens de intelecto secularmente reconhecido para ser esculpido.
As grandes verdades são, pois, as grandes obviedades – porque de algum modo já estão intrínsecas em nós desde sempre. Talvez sejam a programação para a parte que não se pode definir por uma simples escolha.

domingo, 18 de setembro de 2011

Ebony and Ivory

— Você precisa abandonar toda forma de preconceito.
Não precisa não. Precisa é parar de ter nojo de preto e pobre. Precisa é parar de se sentir superior porque sua roupa é da grife da moda e a da outra pessoa não. Precisa uma vez na vida não fazer cara feia quando sua vizinha religiosa te convida pra ir na igreja. Precisa provar a salada antes de torcer o nariz pra ela. Precisa uma vez correr o risco de se tornar um leproso social e comprar aquela roupa que você achou linda mas tem medo de todo mundo achar estranha. Precisa ir ver aquele filme cult que os entendidos elogiam mas seus amigos não entenderam nada. Precisa ler uns clássicos da literatura antes de comprar Crepúsculo dizendo que “Machado é muito difícil”.
Porque o preconceito é o glóbulo branco do psicológico; é perfeitamente natural que depois de vivenciarmos más experiências com tipos específicos, fiquemos já um tanto imunes a eles. Um assalto, um livro chatíssimo escrito duzentos anos atrás, um filme consagrado que parece sem pé nem cabeça.
Tudo isso insere em nós a cautela de segurar a bolsa com mais força ao passar por alguém mal-vestido, de buscar livros contemporâneos e fáceis, de nunca chegar perto de nada que contenha o nome Kubrick. Cada um que encontre seu divisor de águas entre o cuidado e o desprezo adquiridos pela experiência própria.
São situações em que a única saída é vivenciá-las – o “certo pra uns e pra outros não”, que universalmente não é certo ou errado, mas depende unicamente da aptidão pessoal. E por outro lado, há coisas pras quais já somos vacinados desde sempre.
Palavrão é errado, beber demais é errado (“o papai só bebe uma cervejinha de domingo, viu; quando você for mais velho também vai poder”), usar drogas é errado, bater nos amiguinhos é errado.
E é aí que o preconceito familiar vem contaminar a nova geração. Crianças não possuem preconceitos nem escrúpulos. Se lhe é colocado que negros são maus, imundos e qualquer barbaridade semelhante, o moleque branco fará da vida do negrinho um inferno – e, por outro lado, uma criança na qual se injeta escrúpulo desde cedo tem muito menos chances de tender para aquele preconceito que não é por segurança própria – aquele, humilhante e cravejado de repugnância, cuja existência em tempos tão evoluídos é quase uma piada... de humor negro.

sábado, 10 de setembro de 2011

Art of War

Pessoas me fazem, desejam, ou cogitam fazer e desejar algum tipo de mal. É claro que é muito mais fácil – é até um reflexo inconsciente, de tão natural – desejar o mal de volta, ou ao menos sentir-me vingada ressaltando os defeitos e falhas de meu remetente de podridão. Eu, ainda bastante moralmente questionável que sou, não posso cobrar dos outros que não façam o mesmo. Não me cabe agora e talvez nunca, como ser humano, dar exemplo de virtuosidade – mas como criatura pensante e que escreve, permito-me uma análise.
Será que alguém neste mundo consegue devolver com pensamentos positivos o mal feito, desejado, pensado? Sei que para os mais espirituosos é o que se deve fazer, mas quem é que consegue tal gesto de infinito perdão? Dedicar uma prece a um inimigo não é difícil, mas fazê-lo sinceramente requer um esforço quase que sobre-humano. Às vezes até a declaração de que “a justiça divina se encarregará de punir” me parece um tanto mesquinha, pontilhada de prepotência ao julgar que Deus está do seu lado e voltado contra o outro.
Digamos que um mau pensamento ou atitude para com o próximo seja uma seta envenenada, daquelas que se usava em guerra uns mil e tantos anos trás. A primeira coisa a fazer, ao ser atingido, é cuidar de si; medicar-se, antes de mais nada. Não faz sentido sofrer uma agressão e correr para remediar seu algoz. Se quiser devolver o mal com o bem, é imperativo primeiro consertar-se por completo do que o outro lhe causou.
Mas é claro que encontramos desculpas – neste caso, sempre foi o outro que começou. Você só reagiu à provocação. Só quis responder à altura. Isto é deixar de tomar o remédio mas de bom grado consumir a droga. Troçar da vida alheia é um prazer reles e reconfortante como vinho barato – e o vinho barato é o pai dos prazeres vis.
Há então, em oposição à vida inconseqüente, a idéia de que todos os prazeres são pecaminosos e abomináveis – idéia da Igreja, essencialmente antagônica a Roma Antiga, a sua maravilhosa arte pagã e as suas festas em homenagem a Baco; idéia de braços e pernas ao encontrar eco nas pessoas – mas se não houvesse diferença entre cada um deles, seriam um só.
Existem, portanto, prazeres abomináveis por sua natureza destrutiva; prazeres baratos e dispensáveis, parnasianos, a satisfação pela satisfação; e aqueles absolutamente não condenáveis, porque são conseqüência e não objetivo. É a constante guerra interna que nos faz percebê-los e classificá-los, pois a verdadeira arte da guerra não é o uso engenhoso de venenos, átomos pesados e homens dispostos a morrer, mas do cérebro em função do próprio corpo. Sempre partindo da individualidade, mas jamais limitando-se a ela.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Swallowed in the Sea

Gostar é instantâneo, odiar é inesquecível. A frase de um livro que eu li com uns onze anos ainda me vale, e como. É claro que a experiência própria me fez modificá-la um pouco – o ódio não é propriamente inesquecível, mas muito menos instantâneo. O ódio verdadeiro, se é que posso falar com propriedade deste, vai-se sedimentando tão devagar que é justamente por isso mais difícil de ser removido. Mas não nos alonguemos; quero aqui enfatizar o quanto nós sabemos bem o que não queremos, ao menos de modo mais consistente do que aquilo que queremos.
É a lei da eliminação. Diante de uma incerteza – e assim como a célula é a do corpo, a unidade fundamental da vida é a incerteza – rapidamente nos livramos do mais improvável. A letra que contém a resposta mais absurda, o bar mais cheio de babacas, a profissão na área que pior vamos na escola.
E mesmo quando eu não sei direito o que quero ser, me sinto contente por saber o que não quero. Não quero ter uma profissão que torne as pessoas piores ou mais burras, mesmo que isso signifique viver com o temível salário de professor. Não quero fazer parte de um desses casais de que todo mundo já pensa direto que pra alguém tão feia estar com um cara tão lindo tem que ser muito boa de cama, porque onde fica o amor? O que isso faz, a longo prazo, com a confiança mútua, com a autoconfiança? Gente bonita demais nos padrões de passarela e internet me cansa, me assusta. É bom estar com aquele que é o homem mais lindo do mundo pra mim e pra mais ninguém, e que de algum modo, reciprocamente, vê o que ninguém mais vê.
Não quero chegar aos 25 anos ainda morando com a mãe, explorando a boa vontade familiar, sem nenhum objetivo na vida além de colocar uma saia de cintura alta e o salto novo que custou todo meu salário pra encher a cara e conseguir uma foda – uma diferente a cada semana.
Não quero, por outro lado, trabalhar duro demais porque o objetivo não é ser rica demais. Nada de luxos, nada de fortunas gastas em bobagens. O dinheiro é literalmente remédio. Sua ausência mata do modo mais desumano. Seu excesso aniquila os valores, troca o amor por interesse, e no fim das contas é tão letal e implacável quanto o outro extremo.
Não penso mais também em mudar o mundo, em fama – porque quem é que quer mudar o mundo apenas pra que as pessoas vivam melhor?
No campo intelectual, tudo o que tinha pra se dizer de revolucionário já foi dito, e não sou das ciências exatas, nas quais ainda há muito a ser descoberto, e dito, e contestado, e aperfeiçoado duas, dez, cem vezes. Quem realmente muda o mundo nesses tempos é quem possui esse estranho altruísmo de querer tornar-se melhor levando os outros consigo – os que estão ao seu redor. Como quem joga uma mensagem ao mar, atingindo pouquíssimas pessoas mas sabe que nenhuma delas ficará indiferente. Creio que no tempo certo as pessoas certas encontrarão as minhas garrafas.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

We are not questioning God, just those He chose to carry on his cross


Tudo é maquiado e nem por isso deixa de ter seu fundo de verdade. Uma mulher é linda de maquiagem e nem tanto sem, mas quando lava o rosto, não deixa de ser mulher. A história de Jesus, como qualquer história mitológica – porque é assim; a crença alheia é mitologia, a nossa é fato consumado –, possui seus ajustes pomposos, sem no entanto deixar de ser uma belíssima história, um belíssimo exemplo, talvez acima do próprio Deus.
Sou cristã, sem me preocupar com religião. Já estive diante de padres e pastores e me foi bastante desconfortável – por incrível que pareça, menos na igreja evangélica. Li Zíbia e Mônica Carvalho e senti grande paz interior, mas ainda assim não concordei com tudo. Sei que seguir dadas regras – das quais o boníssimo Jesus nunca falou em vida, porque estava preocupado em pregar e executar o amor ao próximo – não garante a salvação de ninguém.
Acho altamente provável que exista um Deus, onipotente, onipresente, onisciente, mas adepto do laissez-faire. Ele se preocupa com nosso bem-estar e caráter em geral, mas não está preocupado em nos punir porque deixamos a toalha em cima da cama ou demos a salada pro cachorro. Isso se chama sua mãe e é um evento inteiramente mundano.
E este Deus certamente enviou um homem de bondade inigualável no mundo – inigualável porque não nos esforçamos o suficiente, mas por outro lado ninguém quer desperdiçar cada segundo da vida com altruísmo. Ele era um homem como nós, passível de erros, mas os cometeu certamente no menor número possível. Que os cometeu, tenho certeza; se Deus quisesse colocar um representante perfeito no mundo, ele não seria um homem.
Pouco me importa se Jesus ressuscitou Lázaro, transformou água em vinho, curou leprosos com um toque, morreu e reviveu pra depois ser levado pelo Espírito Santo em glória infinita. Estes fatos podem ser apenas uma maquiagem para a história, mas não é esta sua essência. É preciso ver além do esplendor fantástico que é feito apenas para conquistar, pois um livro com uma bela capa atrai, mas é a história, a essência, que mantém – ou não – o interesse. É o que há por detrás das aparências que determina se o que é belo também é bom.
E o conceito do que é bom é algo a ser estudado cuidadosamente, com conhecimento de causa. A religião é um mecanismo vivo, deve ser questionada com respeito e inteligência. Não me curvarei diante das regras de humanos como eu apenas porque estes estudaram teologia e eu não. Ninguém pode comprovar que tudo da bíblia de fato aconteceu, e obviamente muito do que aconteceu foi omitido por questões de bom-senso e espaço. Daí vem alguém te dizer que “não pode ficar porque na bíblia ninguém fica”. Mas na bíblia Jó “tomou fulana por concubina” e Davi mandou o melhor amigo pra guerra por causa de uma mulher, então isso pode mas ficar não pode? A bíblia também não menciona vacinas, computadores, naves espaciais, então isso tudo é do capeta? Com um pouco de raciocínio qualquer um vê que o que a bíblia não menciona é por questão de época, não porque é errado.
Prefiro não guiar-me por estes caminhos falhos, criados por padres, pastores, ou qualquer coisa equivalente. Jesus era humano, mas não tinha como profissão sacerdote. Um escritor por profissão e não por vocação escreve qualquer coisa por dinheiro, e o mesmo acontece com os líderes das igrejas. A crença, seja ela vinculada com a religião ou não, é uma sustentação, um escudo contra as agruras da vida. É algo positivo, e por isso, libertador. Liberta da dor, do medo. O que é imposto através do rótulo de religião aliena e sufoca; seguir todas as ordens de um presbítero não é a garantia de salvação, é a garantia de uma vida robótica, de enganos. Todo aquele tocado pelo amor sincero torna-se conhecedor de seus próprios limites, de sua própria moral, e não precisa de regras criadas por outros; cada um sabe o que é bom para si quando possui a verdadeira e abstrata pureza divina, esta que o homem com a maior cruz do mundo tentou nos ensinar a alcançar.