— Você precisa abandonar toda forma de preconceito.
Não precisa não. Precisa é parar de ter nojo de preto e pobre. Precisa é parar de se sentir superior porque sua roupa é da grife da moda e a da outra pessoa não. Precisa uma vez na vida não fazer cara feia quando sua vizinha religiosa te convida pra ir na igreja. Precisa provar a salada antes de torcer o nariz pra ela. Precisa uma vez correr o risco de se tornar um leproso social e comprar aquela roupa que você achou linda mas tem medo de todo mundo achar estranha. Precisa ir ver aquele filme cult que os entendidos elogiam mas seus amigos não entenderam nada. Precisa ler uns clássicos da literatura antes de comprar Crepúsculo dizendo que “Machado é muito difícil”.
Porque o preconceito é o glóbulo branco do psicológico; é perfeitamente natural que depois de vivenciarmos más experiências com tipos específicos, fiquemos já um tanto imunes a eles. Um assalto, um livro chatíssimo escrito duzentos anos atrás, um filme consagrado que parece sem pé nem cabeça.
Tudo isso insere em nós a cautela de segurar a bolsa com mais força ao passar por alguém mal-vestido, de buscar livros contemporâneos e fáceis, de nunca chegar perto de nada que contenha o nome Kubrick. Cada um que encontre seu divisor de águas entre o cuidado e o desprezo adquiridos pela experiência própria.
São situações em que a única saída é vivenciá-las – o “certo pra uns e pra outros não”, que universalmente não é certo ou errado, mas depende unicamente da aptidão pessoal. E por outro lado, há coisas pras quais já somos vacinados desde sempre.
Palavrão é errado, beber demais é errado (“o papai só bebe uma cervejinha de domingo, viu; quando você for mais velho também vai poder”), usar drogas é errado, bater nos amiguinhos é errado.
E é aí que o preconceito familiar vem contaminar a nova geração. Crianças não possuem preconceitos nem escrúpulos. Se lhe é colocado que negros são maus, imundos e qualquer barbaridade semelhante, o moleque branco fará da vida do negrinho um inferno – e, por outro lado, uma criança na qual se injeta escrúpulo desde cedo tem muito menos chances de tender para aquele preconceito que não é por segurança própria – aquele, humilhante e cravejado de repugnância, cuja existência em tempos tão evoluídos é quase uma piada... de humor negro.

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