quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Swallowed in the Sea

Gostar é instantâneo, odiar é inesquecível. A frase de um livro que eu li com uns onze anos ainda me vale, e como. É claro que a experiência própria me fez modificá-la um pouco – o ódio não é propriamente inesquecível, mas muito menos instantâneo. O ódio verdadeiro, se é que posso falar com propriedade deste, vai-se sedimentando tão devagar que é justamente por isso mais difícil de ser removido. Mas não nos alonguemos; quero aqui enfatizar o quanto nós sabemos bem o que não queremos, ao menos de modo mais consistente do que aquilo que queremos.
É a lei da eliminação. Diante de uma incerteza – e assim como a célula é a do corpo, a unidade fundamental da vida é a incerteza – rapidamente nos livramos do mais improvável. A letra que contém a resposta mais absurda, o bar mais cheio de babacas, a profissão na área que pior vamos na escola.
E mesmo quando eu não sei direito o que quero ser, me sinto contente por saber o que não quero. Não quero ter uma profissão que torne as pessoas piores ou mais burras, mesmo que isso signifique viver com o temível salário de professor. Não quero fazer parte de um desses casais de que todo mundo já pensa direto que pra alguém tão feia estar com um cara tão lindo tem que ser muito boa de cama, porque onde fica o amor? O que isso faz, a longo prazo, com a confiança mútua, com a autoconfiança? Gente bonita demais nos padrões de passarela e internet me cansa, me assusta. É bom estar com aquele que é o homem mais lindo do mundo pra mim e pra mais ninguém, e que de algum modo, reciprocamente, vê o que ninguém mais vê.
Não quero chegar aos 25 anos ainda morando com a mãe, explorando a boa vontade familiar, sem nenhum objetivo na vida além de colocar uma saia de cintura alta e o salto novo que custou todo meu salário pra encher a cara e conseguir uma foda – uma diferente a cada semana.
Não quero, por outro lado, trabalhar duro demais porque o objetivo não é ser rica demais. Nada de luxos, nada de fortunas gastas em bobagens. O dinheiro é literalmente remédio. Sua ausência mata do modo mais desumano. Seu excesso aniquila os valores, troca o amor por interesse, e no fim das contas é tão letal e implacável quanto o outro extremo.
Não penso mais também em mudar o mundo, em fama – porque quem é que quer mudar o mundo apenas pra que as pessoas vivam melhor?
No campo intelectual, tudo o que tinha pra se dizer de revolucionário já foi dito, e não sou das ciências exatas, nas quais ainda há muito a ser descoberto, e dito, e contestado, e aperfeiçoado duas, dez, cem vezes. Quem realmente muda o mundo nesses tempos é quem possui esse estranho altruísmo de querer tornar-se melhor levando os outros consigo – os que estão ao seu redor. Como quem joga uma mensagem ao mar, atingindo pouquíssimas pessoas mas sabe que nenhuma delas ficará indiferente. Creio que no tempo certo as pessoas certas encontrarão as minhas garrafas.

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