Pessoas me fazem, desejam, ou cogitam fazer e desejar algum tipo de mal. É claro que é muito mais fácil – é até um reflexo inconsciente, de tão natural – desejar o mal de volta, ou ao menos sentir-me vingada ressaltando os defeitos e falhas de meu remetente de podridão. Eu, ainda bastante moralmente questionável que sou, não posso cobrar dos outros que não façam o mesmo. Não me cabe agora e talvez nunca, como ser humano, dar exemplo de virtuosidade – mas como criatura pensante e que escreve, permito-me uma análise.
Será que alguém neste mundo consegue devolver com pensamentos positivos o mal feito, desejado, pensado? Sei que para os mais espirituosos é o que se deve fazer, mas quem é que consegue tal gesto de infinito perdão? Dedicar uma prece a um inimigo não é difícil, mas fazê-lo sinceramente requer um esforço quase que sobre-humano. Às vezes até a declaração de que “a justiça divina se encarregará de punir” me parece um tanto mesquinha, pontilhada de prepotência ao julgar que Deus está do seu lado e voltado contra o outro.
Digamos que um mau pensamento ou atitude para com o próximo seja uma seta envenenada, daquelas que se usava em guerra uns mil e tantos anos trás. A primeira coisa a fazer, ao ser atingido, é cuidar de si; medicar-se, antes de mais nada. Não faz sentido sofrer uma agressão e correr para remediar seu algoz. Se quiser devolver o mal com o bem, é imperativo primeiro consertar-se por completo do que o outro lhe causou.
Mas é claro que encontramos desculpas – neste caso, sempre foi o outro que começou. Você só reagiu à provocação. Só quis responder à altura. Isto é deixar de tomar o remédio mas de bom grado consumir a droga. Troçar da vida alheia é um prazer reles e reconfortante como vinho barato – e o vinho barato é o pai dos prazeres vis.
Há então, em oposição à vida inconseqüente, a idéia de que todos os prazeres são pecaminosos e abomináveis – idéia da Igreja, essencialmente antagônica a Roma Antiga, a sua maravilhosa arte pagã e as suas festas em homenagem a Baco; idéia de braços e pernas ao encontrar eco nas pessoas – mas se não houvesse diferença entre cada um deles, seriam um só.
Existem, portanto, prazeres abomináveis por sua natureza destrutiva; prazeres baratos e dispensáveis, parnasianos, a satisfação pela satisfação; e aqueles absolutamente não condenáveis, porque são conseqüência e não objetivo. É a constante guerra interna que nos faz percebê-los e classificá-los, pois a verdadeira arte da guerra não é o uso engenhoso de venenos, átomos pesados e homens dispostos a morrer, mas do cérebro em função do próprio corpo. Sempre partindo da individualidade, mas jamais limitando-se a ela.

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