http://levolee.blogspot.com/
Primeiro blog da minha pseudo vida adulta. Vou continuar lá, aqui tem muita coisa das quais eu me envergonho. Mas também muito texto legal que corre o sério risco de ser repostado no blog novo.
Só vou sentir falta do nome desse. 'Nephelibate' é a palavra mais legal do mundo.
Nephelibate
...the wings that keep your heart in the clouds
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Pt. III — She broke your throne and she cut your hair
Eu gostaria de poder escrever uma análise imparcial sobre os últimos dezessete meses da minha vida, de nossas vidas. Mas como eu poderia fazer isso? Como eu poderia mensurar as conseqüências de cada gesto impensado, mal-interpretado, de cada palavra mal colocada ou mesmo daquelas ditas intencionalmente pra ferir? Deus, eu desejo que houvesse um aparelho pra medir quem esteve menos errado. Uma escala de dor. Qualquer coisa.
Encontro-me aqui, sozinha num quarto bagunçado e sujo, só um pouco menos caótico que a minha própria vida, em meio de minhas reflexões e contradições, em meio de pedaços de sonhos: não porque eles estão destruídos, mas porque estão confusos. Por um segundo destacam-se dos outros cacos, parecem tão certos, e então voltam a ser apenas retalhos.
Baby I’ve been here before
I’ve seen this room and I’ve walked this floor
I used to live alone before I knew you
I’ve seen your flag on the marble arch
But love is not a victory march
It’s a cold and it's a broken hallelujah
Eu nem sei se acredito no que eu digo e no que eu tenho escrito, por isso evitei fazê-lo – pra então despejar minha alma com todo o cuidado em três atos. Acredito em tudo isso, todo esse positivismo, até ouvir uma música triste. E então me lembro como somos incompatíveis e como nenhum dos dois vai ceder, choro, ponho uma música alegre.
Eu sinto um orgulho absurdo de mim por não estar me rastejando e aceitando quaisquer condições pra tê-lo de volta, mas é claro que eu estou morrendo por dentro. A cada memória preciosa que precisa ser esquecida, ou ao menos muitíssimo bem escondida, nós morremos um pouco. Mas ao mesmo tempo, esvaziamos um espaço não menos precioso, perfeitamente capaz de ser preenchido com pensamentos novos. Senão com lembranças, com sonhos. Senão com sonhos, com ocupações saudáveis, com trabalho, com conhecimento, com qualquer coisa que amorteça a morte.
Encontro-me aqui, sozinha num quarto bagunçado e sujo, só um pouco menos caótico que a minha própria vida, em meio de minhas reflexões e contradições, em meio de pedaços de sonhos: não porque eles estão destruídos, mas porque estão confusos. Por um segundo destacam-se dos outros cacos, parecem tão certos, e então voltam a ser apenas retalhos.
Baby I’ve been here before
I’ve seen this room and I’ve walked this floor
I used to live alone before I knew you
I’ve seen your flag on the marble arch
But love is not a victory march
It’s a cold and it's a broken hallelujah
Eu nem sei se acredito no que eu digo e no que eu tenho escrito, por isso evitei fazê-lo – pra então despejar minha alma com todo o cuidado em três atos. Acredito em tudo isso, todo esse positivismo, até ouvir uma música triste. E então me lembro como somos incompatíveis e como nenhum dos dois vai ceder, choro, ponho uma música alegre.
Eu sinto um orgulho absurdo de mim por não estar me rastejando e aceitando quaisquer condições pra tê-lo de volta, mas é claro que eu estou morrendo por dentro. A cada memória preciosa que precisa ser esquecida, ou ao menos muitíssimo bem escondida, nós morremos um pouco. Mas ao mesmo tempo, esvaziamos um espaço não menos precioso, perfeitamente capaz de ser preenchido com pensamentos novos. Senão com lembranças, com sonhos. Senão com sonhos, com ocupações saudáveis, com trabalho, com conhecimento, com qualquer coisa que amorteça a morte.
Pt. II — Blame me, blame me.
Começo aqui quase envergonhada, com um clichê quase inadmissível pra alguém tem um razoável arsenal de palavras: há males que vem para o bem. Eu não quero ver as coisas pelo lado do perdi um dos pilares da minha vida. Quero redescobrir todos os meus sonhos e meus amigos, e permitir que novos surjam. As noites no porks ouvindo Creed, as tatuagens que eu quero fazer há um tempão, a coleção de Barbies que eu sempre jurei que teria quando fosse adulta, todas as coisas ridículas, infantis e egoístas das quais eu não quero abrir mão mas deixei de lado por tanto tempo, pra viver uma realidade que não era a que eu sonhava – mas ainda assim me dispus a vivê-la (minha culpa, e apenas minha) por amor, por pensar que talvez no fim das contas alguma das minhas vontades fosse feita e, ridículo dos ridículos, por medo de que fosse algum tipo de Plano Maior, de Vontade Divina, que se eu cedesse em tudo esse ano, nos próximos conseguiria ser feliz.
Mas de repente me foi arrancada a venda semitransparente dos olhos: seria muito mais pesado do que eu poderia suportar, e com enormes chances de dar errado. Não quero viver minha vida de modo que eu faça a vontade de outrem e culpe-o pelos fracassos – quero meus fracassos. Quero minha dor. E também meus acertos, só meus, sem ter que creditá-los a alguém por ter me empurrado no “caminho certo”. Nenhum caminho é o certo, mas o menos errado é o que eu mesma escolho. E eu escolhi.
Mas de repente me foi arrancada a venda semitransparente dos olhos: seria muito mais pesado do que eu poderia suportar, e com enormes chances de dar errado. Não quero viver minha vida de modo que eu faça a vontade de outrem e culpe-o pelos fracassos – quero meus fracassos. Quero minha dor. E também meus acertos, só meus, sem ter que creditá-los a alguém por ter me empurrado no “caminho certo”. Nenhum caminho é o certo, mas o menos errado é o que eu mesma escolho. E eu escolhi.
Pt. I — Dead Memories
Nunca foi um conto de fadas, mas ainda assim era mágico, muito mais mágico do que sapatinhos de cristal e abóboras – era mais como Alice, num mundo pouco desvendado, num mundo que ninguém podia ter certeza se era real.
As coisas podem ser muito menos dolorosas do que se imagina, basta um mínimo de coragem. Basta encontrar pessoas que induzam um grão de mostarda de amor-próprio a transformar-se numa grande mudança de vida. Eu encontrei, encontrei, e encontrei de novo.
Eu fui muito bem no Enem – muito melhor do que eu podia esperar, é até injusto pelo tanto que eu estudo (quase nada), mas quem disse que a vida é justa e quem disse que cabe a nós o imediatismo de desentortá-la custe o que custar?
Em todos os outros términos, reinou o meu desespero de não saber o que fazer da vida – a percepção de que eu tinha uma vida inteira pela frente me assustava, e agora me fascina: eu. tenho. a. vida. inteira. pela. frente.
Quanta coisa eu posso fazer, quanta gente eu posso conhecer. Como é ingênuo pensar que só existe uma pessoa com quem a gente pode ser feliz pra sempre. Como é preciso um amor descomunal e bilateral e uma compreensão quase divina pra viver pro resto da vida com o cara que você conheceu aos quatorze anos e tentou adaptá-lo ao que você sempre sonhou, enquanto ele fazia o mesmo com você e obtinha mais sucesso.
A melancolia por deixar pra trás uma boa parte da minha vida existe, mas a sensação de poder sobre meu destino, de ter amplas escolhas de um futuro a se descortinar à minha frente é grandiosa. O fim de uma fase importante é sempre doloroso, mas é como levar pontos no hospital – ou ao menos suponho, eu que fui uma criança quieta, que nunca subiu em árvores, que nunca caiu de cabeça pra ter que ser costurada.
Você se sente remendado, frágil e forte ao mesmo tempo. Eu sei que vou acabar deixando a parte dolorosa sobressair se eu ouvir uma música triste, como uma criança que não pára de mexer um minuto nos pontos e acaba sangrando muito mais do que precisava. Mas eu posso optar por ser forte. Chega de induzir sofrimento, porque reconheço como tudo foi bom pra mim – tudo o que eu aprendi no amor e na dor, tudo o que eu descobri que não quero, todos os erros que eu nunca mais preciso cometer porque já sei que são erros. Nós dois amadurecemos tanto, e é nisso que eu me firmo: fizemos bem um pro outro até onde deu. As lembranças afinal são feitas, não pra ferir, mas pra provocar aquele sorriso de quem diz “éramos tão ingênuos e tão felizes”.
As coisas podem ser muito menos dolorosas do que se imagina, basta um mínimo de coragem. Basta encontrar pessoas que induzam um grão de mostarda de amor-próprio a transformar-se numa grande mudança de vida. Eu encontrei, encontrei, e encontrei de novo.
Eu fui muito bem no Enem – muito melhor do que eu podia esperar, é até injusto pelo tanto que eu estudo (quase nada), mas quem disse que a vida é justa e quem disse que cabe a nós o imediatismo de desentortá-la custe o que custar?
Em todos os outros términos, reinou o meu desespero de não saber o que fazer da vida – a percepção de que eu tinha uma vida inteira pela frente me assustava, e agora me fascina: eu. tenho. a. vida. inteira. pela. frente.
Quanta coisa eu posso fazer, quanta gente eu posso conhecer. Como é ingênuo pensar que só existe uma pessoa com quem a gente pode ser feliz pra sempre. Como é preciso um amor descomunal e bilateral e uma compreensão quase divina pra viver pro resto da vida com o cara que você conheceu aos quatorze anos e tentou adaptá-lo ao que você sempre sonhou, enquanto ele fazia o mesmo com você e obtinha mais sucesso.
A melancolia por deixar pra trás uma boa parte da minha vida existe, mas a sensação de poder sobre meu destino, de ter amplas escolhas de um futuro a se descortinar à minha frente é grandiosa. O fim de uma fase importante é sempre doloroso, mas é como levar pontos no hospital – ou ao menos suponho, eu que fui uma criança quieta, que nunca subiu em árvores, que nunca caiu de cabeça pra ter que ser costurada.
Você se sente remendado, frágil e forte ao mesmo tempo. Eu sei que vou acabar deixando a parte dolorosa sobressair se eu ouvir uma música triste, como uma criança que não pára de mexer um minuto nos pontos e acaba sangrando muito mais do que precisava. Mas eu posso optar por ser forte. Chega de induzir sofrimento, porque reconheço como tudo foi bom pra mim – tudo o que eu aprendi no amor e na dor, tudo o que eu descobri que não quero, todos os erros que eu nunca mais preciso cometer porque já sei que são erros. Nós dois amadurecemos tanto, e é nisso que eu me firmo: fizemos bem um pro outro até onde deu. As lembranças afinal são feitas, não pra ferir, mas pra provocar aquele sorriso de quem diz “éramos tão ingênuos e tão felizes”.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Inacabado.
A vida é esse projeto torto – como galhos de uma árvore, nunca vai linear até o fim, sempre se ramifica. Projetos são desviados, opiniões mudam, vontades são sacrificadas muitas vezes por serem substituídas por melhores.
Mas o crescimento não é cruel, não deixa tudo e todos pra trás. Existem padrões que sobressaem, folhas que permanecem, ramos que levam ao mesmo lugar. Há constante mutação, por si só e pelo vento. A existência muitas vezes nos sopra histórias quase a esmo, de tão inacabadas. Temos o hábito de relatar apenas histórias com princípio, meio, fim e moral – mas a realidade nem sempre é assim. Muita coisa parece completamente despropositada.
Assisti Histórias de amor duram apenas 90 minutos esses dias. Nunca tive paciência pra cinema, nunca me imaginei assistindo um filme nacional que mal foi veiculado – but here we are. É uma história densa, verdadeira, plausível, com toda a naturalidade do mundo que por vezes pensei estar diante dum drama real – e tudo isso coroado por um final babaca. Artisticamente babaca.
Porque simplesmente não tem bem um fim. O personagem principal (não que venha ao caso, mas adoro o Caio Blat desde que me lembro de existir) termina mais fodido do que começou: sem mulher, sem inspiração pra escrever. Confesso que esse choque de realidade tão forte não me agrada – não é por isso que estamos sempre procurando refúgio nas artes, onde as coisas, se não acabam bem, dão uma áurea de grandiosidade ao nosso herói?
Mas não morre o avestruz se enfiar-se na terra pra todo o sempre? Não morre o peixe quando explora uma profundidade maior do que deveria? Morremos também nós, figurativamente, ao fazermos do conforto de uma história de amor bem-sucedida nosso refúgio de ilusões pela eternidade. Morrem nossos neurônios ao lermos só histórias onde se é feliz para sempre e buscarmos ímpar e contínua perfeição. A perfeição é o agora, não o sempre.
Muitas vezes somos anti-heróis de nossa própria vida – sem contar da vida alheia. Ousamos achar que a história é nossa quando na verdade estamos fazendo figuração na vida alheia, impedindo a felicidade daqueles que teríamos escalado pra serem felizes a nosso lado. Acabamos, como o Zeca do filme, parados diante de um monitor com um documento em branco e sem ninguém – vazio completo. Nenhum final feliz, mal e mal um final – só acaba o ciclo. Uma batalha perdida.
A vida não precisa ser um livro aberto, mas é sempre um livro em aberto – tudo pode mudar ou permanecer a mesma porcaria. Existir é o mais grandioso e cruel espetáculo, dado que o protagonista nunca sabe suas linhas de cor e não faz idéia do que o impiedoso Maestro lhe reserva. E nunca saberá. Nunca assistiremos a nosso próprio gran finale, são nossos parentes e amigos que verão descer as cortinas de nossa existência, com os olhos cheios de lágrimas genuínas. Só não é inacabado o que está morto.
Mas o crescimento não é cruel, não deixa tudo e todos pra trás. Existem padrões que sobressaem, folhas que permanecem, ramos que levam ao mesmo lugar. Há constante mutação, por si só e pelo vento. A existência muitas vezes nos sopra histórias quase a esmo, de tão inacabadas. Temos o hábito de relatar apenas histórias com princípio, meio, fim e moral – mas a realidade nem sempre é assim. Muita coisa parece completamente despropositada.
Assisti Histórias de amor duram apenas 90 minutos esses dias. Nunca tive paciência pra cinema, nunca me imaginei assistindo um filme nacional que mal foi veiculado – but here we are. É uma história densa, verdadeira, plausível, com toda a naturalidade do mundo que por vezes pensei estar diante dum drama real – e tudo isso coroado por um final babaca. Artisticamente babaca.
Porque simplesmente não tem bem um fim. O personagem principal (não que venha ao caso, mas adoro o Caio Blat desde que me lembro de existir) termina mais fodido do que começou: sem mulher, sem inspiração pra escrever. Confesso que esse choque de realidade tão forte não me agrada – não é por isso que estamos sempre procurando refúgio nas artes, onde as coisas, se não acabam bem, dão uma áurea de grandiosidade ao nosso herói?
Mas não morre o avestruz se enfiar-se na terra pra todo o sempre? Não morre o peixe quando explora uma profundidade maior do que deveria? Morremos também nós, figurativamente, ao fazermos do conforto de uma história de amor bem-sucedida nosso refúgio de ilusões pela eternidade. Morrem nossos neurônios ao lermos só histórias onde se é feliz para sempre e buscarmos ímpar e contínua perfeição. A perfeição é o agora, não o sempre.
Muitas vezes somos anti-heróis de nossa própria vida – sem contar da vida alheia. Ousamos achar que a história é nossa quando na verdade estamos fazendo figuração na vida alheia, impedindo a felicidade daqueles que teríamos escalado pra serem felizes a nosso lado. Acabamos, como o Zeca do filme, parados diante de um monitor com um documento em branco e sem ninguém – vazio completo. Nenhum final feliz, mal e mal um final – só acaba o ciclo. Uma batalha perdida.
A vida não precisa ser um livro aberto, mas é sempre um livro em aberto – tudo pode mudar ou permanecer a mesma porcaria. Existir é o mais grandioso e cruel espetáculo, dado que o protagonista nunca sabe suas linhas de cor e não faz idéia do que o impiedoso Maestro lhe reserva. E nunca saberá. Nunca assistiremos a nosso próprio gran finale, são nossos parentes e amigos que verão descer as cortinas de nossa existência, com os olhos cheios de lágrimas genuínas. Só não é inacabado o que está morto.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
no one was saved
A igreja é a academia da alma; se você tem disciplina o suficiente para tomar formas harmoniosas por si só, não precisa gastar dinheiro com alguém que lhe oriente através de regras complicadíssimas.
Geralmente nossas regras pessoais são mais efetivas, nós que conhecemos tão bem a peça a ser talhada, seja corpo ou alma. Porém dificilmente temos discernimento para tal, de modo que é quase sempre mais vantajoso pagarmos pra alguém que nos dite regras, um personal trainer ou sacerdócio – e aí vem o problema: a ineficácia reside no fazer automático.
A queima de gordura – bem como aquilo que chamamos de salvação da alma – depende de diversos fatores complicadíssimos, mas o fato é: no começo é doloroso, e então se entra no estágio em que os exercícios apresentam resultados rapidamente, para logo em seguida passar à fase em que o corpo já está acostumado com a carga inicial de exercícios e não reage mais. Então é preciso aumentá-la para que continue a fazer efeito.
Ao percebermos as calças voltando a apertar, seguimos os conselhos de todas as revistas de dieta e intensificamos a rotina de exercícios. Bem, se a fé, o conhecimento e o rigor no cumprimento dos rituais não aumentarem gradativamente, logo deixarão de ser efetivos. Só freqüentar uma igreja não salva ninguém – uma beata que inferniza todas as pessoas ao redor é como uma gorda que faz vinte minutos de caminhada e passa o dia inteiro ingerindo carboidratos.
Geralmente nossas regras pessoais são mais efetivas, nós que conhecemos tão bem a peça a ser talhada, seja corpo ou alma. Porém dificilmente temos discernimento para tal, de modo que é quase sempre mais vantajoso pagarmos pra alguém que nos dite regras, um personal trainer ou sacerdócio – e aí vem o problema: a ineficácia reside no fazer automático.
A queima de gordura – bem como aquilo que chamamos de salvação da alma – depende de diversos fatores complicadíssimos, mas o fato é: no começo é doloroso, e então se entra no estágio em que os exercícios apresentam resultados rapidamente, para logo em seguida passar à fase em que o corpo já está acostumado com a carga inicial de exercícios e não reage mais. Então é preciso aumentá-la para que continue a fazer efeito.
Ao percebermos as calças voltando a apertar, seguimos os conselhos de todas as revistas de dieta e intensificamos a rotina de exercícios. Bem, se a fé, o conhecimento e o rigor no cumprimento dos rituais não aumentarem gradativamente, logo deixarão de ser efetivos. Só freqüentar uma igreja não salva ninguém – uma beata que inferniza todas as pessoas ao redor é como uma gorda que faz vinte minutos de caminhada e passa o dia inteiro ingerindo carboidratos.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Changes
Nos últimos meses eu comecei a apreciar as artes. Ainda leiga, em passos pequenos vacilantes, e muitíssimo trôpegos. Talvez eu nem possa usar o termo “apreciar” – ainda estamos nos conhecendo, eu e as artes.
Estou muito diferente desde – bem, a tintura preta. Como se cada cor de cabelo pudesse me dar uma personalidade. Vermelho-liferuler, roxo-não-é-porque-eu-sou-esquisita-que-eu-sou-burra e preto-sosseguei.
Mas estar diferente não é exatamente mudar. E é justamente o que me pergunto – será que eu mudei (e se mudei, por que motivo?), ou será que apenas fui impulsionada a ser o que já ia por dentro da versão anterior?
Talvez seja uma pergunta que todo mundo vai fazer ao longo da vida – talvez seja a pergunta mais importante. Assim como em Dom Casmurro, não seria sobre a traição ter ou não acontecido, mas apenas isso: estaria a Capitu do Engenho Novo dentro da Capitu Mata-Cavalos?
Estou muito diferente desde – bem, a tintura preta. Como se cada cor de cabelo pudesse me dar uma personalidade. Vermelho-liferuler, roxo-não-é-porque-eu-sou-esquisita-que-eu-sou-burra e preto-sosseguei.
Mas estar diferente não é exatamente mudar. E é justamente o que me pergunto – será que eu mudei (e se mudei, por que motivo?), ou será que apenas fui impulsionada a ser o que já ia por dentro da versão anterior?
Talvez seja uma pergunta que todo mundo vai fazer ao longo da vida – talvez seja a pergunta mais importante. Assim como em Dom Casmurro, não seria sobre a traição ter ou não acontecido, mas apenas isso: estaria a Capitu do Engenho Novo dentro da Capitu Mata-Cavalos?
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Lovesong
É aterrador quando você para pra pensar que todo mundo teve, tem ou terá sentimentos e sonhos. Que muitos te acham desprezível e julgam sua vida medíocre, e ainda assim você tem seus planos, suas metas, e até suas pequenas glórias – então as pessoas que você julga medíocres também possuem ou encontrarão amor, motivos pra viver, recompensa.
Ninguém é oco por completo que não possa produzir som ou tão cheio de conteúdo e valores que o propague melhor que os outros.
O universo todo é o tilintar misteriosamente harmonioso de graves e agudos, pianos e violoncelos, acordeões e flautas, belos e repugnantes. Cada um possui e produz sua acústica singular, uns menos medíocres que outros mas todos de mesma importância para o conjunto da obra. E cada pequena parte tem esse misterioso poder – se ela se cala, faz falta no todo, pois uma nota conta com a outra e todos os que estão próximos erram. Mas se todas cessam para que apenas uma possa ser ouvida, ela soará tremendamente insignificante.
Alguns emitem notas melodiosas como uma colherinha de prata numa taça de cristal, outros são como os baques grosseiros de uma grande cidade – uma orquestra não consiste de um único tipo de instrumento, afinal. Mesmo os ruídos mais reles encaixar-se-ão num vão do ressoar sublime.
Que são afinal os ruídos reles senão os considerados por nós inferiores ao som que produzimos? Um Ré pode ser mais agradável que um Dó, mas nenhuma nota é substituível apenas pelo conceito estético individual.
Algumas pessoas parecem-nos desagradáveis por criarem desarmonia na partitura de nossas vidas; tomemos para nós então aquelas que produzem o mais belíssimo som quando combinadas ao nosso e deixemos que aqueles que são baques grosseiros aos nossos ouvidos encontrem quem lhes escute como se fossem o som de um milhão de colherinhas polidíssimas açoitando levemente o cristal. Sejamos, pois, como o bom músico, que nada discrimina, nada repugna; sabe onde posicionar elementos ordinários de tal forma que surja algo novo e magnífico.
Ninguém é oco por completo que não possa produzir som ou tão cheio de conteúdo e valores que o propague melhor que os outros.
O universo todo é o tilintar misteriosamente harmonioso de graves e agudos, pianos e violoncelos, acordeões e flautas, belos e repugnantes. Cada um possui e produz sua acústica singular, uns menos medíocres que outros mas todos de mesma importância para o conjunto da obra. E cada pequena parte tem esse misterioso poder – se ela se cala, faz falta no todo, pois uma nota conta com a outra e todos os que estão próximos erram. Mas se todas cessam para que apenas uma possa ser ouvida, ela soará tremendamente insignificante.
Alguns emitem notas melodiosas como uma colherinha de prata numa taça de cristal, outros são como os baques grosseiros de uma grande cidade – uma orquestra não consiste de um único tipo de instrumento, afinal. Mesmo os ruídos mais reles encaixar-se-ão num vão do ressoar sublime.
Que são afinal os ruídos reles senão os considerados por nós inferiores ao som que produzimos? Um Ré pode ser mais agradável que um Dó, mas nenhuma nota é substituível apenas pelo conceito estético individual.
Algumas pessoas parecem-nos desagradáveis por criarem desarmonia na partitura de nossas vidas; tomemos para nós então aquelas que produzem o mais belíssimo som quando combinadas ao nosso e deixemos que aqueles que são baques grosseiros aos nossos ouvidos encontrem quem lhes escute como se fossem o som de um milhão de colherinhas polidíssimas açoitando levemente o cristal. Sejamos, pois, como o bom músico, que nada discrimina, nada repugna; sabe onde posicionar elementos ordinários de tal forma que surja algo novo e magnífico.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
happy nihilist
Nada define melhor a existência, seus cursos e seus mistérios que o meio-termo entre Rousseau e Marx. A vida é produto do meio e o meio é produto da vida; numa troca constante e exata, num relacionamento harmonioso.
Somos aptos a fazer uma escolha entre as cartas que nos são colocadas, em possibilidades muitas vezes amplas mas sempre finitas. Um meio livre-arbítrio em contraponto a um meio evento pré-destinado ou aleatório.
Um pensamento que parece tão óbvio mas precisou de tantos homens de intelecto secularmente reconhecido para ser esculpido.
As grandes verdades são, pois, as grandes obviedades – porque de algum modo já estão intrínsecas em nós desde sempre. Talvez sejam a programação para a parte que não se pode definir por uma simples escolha.
Somos aptos a fazer uma escolha entre as cartas que nos são colocadas, em possibilidades muitas vezes amplas mas sempre finitas. Um meio livre-arbítrio em contraponto a um meio evento pré-destinado ou aleatório.
Um pensamento que parece tão óbvio mas precisou de tantos homens de intelecto secularmente reconhecido para ser esculpido.
As grandes verdades são, pois, as grandes obviedades – porque de algum modo já estão intrínsecas em nós desde sempre. Talvez sejam a programação para a parte que não se pode definir por uma simples escolha.
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