quinta-feira, 25 de agosto de 2011

This is the correlation of salvation and love.

  As pessoas com quem você se importa e a proporção na qual o faz – nisso há uma linha tênue tal qual o medicamento e o veneno. Não se importe com ninguém e tenha uma vida vazia e com boas chances de sucesso. Importe-se com gente demais e espere receber ao menos um reconhecimento post-mortem do Vaticano. Muito calor humano pra pouco progresso capitalista.
E a resposta para a eterna questão “mas em quem devo confiar” é dada ao longo de meses, anos, a vida toda talvez. Quantos casais que passaram trinta anos juntos se afundam em mentiras e tédio e se separam? Quantos melhores amigos de infância roubam a mulher ou o cargo um do outro e passam a se odiar? Quantos pais não falam com seus filhos há décadas?
Eu confiava em muita gente. Em qualquer um, basicamente. Tive muitos esboços de personalidade – nem posso saber se este se tornará perpétuo. Muitos amigos se foram nessas mudanças. Muitos se foram na última, mesmo sem ainda saber.
E não pensem que não me é penoso também.
Dói a solidão de não fazer parte de um estereótipo, mas dói menos que me adequar a regras frívolas – um peso, uma cor de cabelo, um tipo de roupa. Dói ver que não tenho mais nada a ver com pessoas com quem eu tinha grande afinidade e com quem dividi meses ou anos felizes. Dói ter reduzido minhas amizades a um grupo ínfimo e ainda assim não saber bem se vale a pena continuar confiando, cuidando, mantendo-as numa grande lacuna da minha vida.
Mas dói menos que ter que forçar um sorriso e uma palavra educada, que ter medo de compartilhar qualquer coisa.
Tenho um medo muito grande de estar diante de algo crucial e fazer a escolha errada. Acredito que não tenha feito todas as escolhas erradas, mas ainda assim angariei pra mim um caminho um tanto íngreme. E eu nunca percebo de imediato. É sempre preciso chegar à beira do precipício para então, penosamente, dar uns passos pra trás e ver no que eu estava prestes a cair vertiginosamente.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Walking on warm lights


Posso amar sem compreender?
Porque eu amo meus irmãos. Loucamente. Amarei meus filhos. No superlativo sintético de loucamente. Mas não compreendo as crianças, nunca consegui, nem mesmo quando era uma delas. Eu era uma deslocada, sem saber o que eu era, sem saber o que o outro era. Fui jogada num cenário desconhecido sem saber quais eram meus superpoderes. E, se por um lado um sorriso de dentes de leite me acalenta o coração, por outro me irrita a balbúrdia de suas vozes estridentes berrando obscenidades numa idade em que estas são mais que inaceitáveis, os rostinhos que serão imberbes ainda por muito tempo reluzindo por uma maldade feita com seus próprios amiguinhos. Não compreendo o processo pelo qual um anjinho, quase sempre amado por sua família e doutrinado com os melhores valores possíveis, se torna uma criança insuportável, boca-suja, que dá escândalo com outros moleques seis da manhã num ônibus. Diariamente e daí pra pior.
Quase os invejo em sua ignorância de poder escolher o caminho errado apenas por não saberem que é errado; uma vez extinta a ignorância, uma vez flamejada a treva, uma vez iluminado o caminho correto, é imperdoável seguir adiante na escuridão.
E não seguir adiante na escuridão é um desafio hercúleo constante. Os passos trôpegos e incertos que adentram o negrume do caminho do ignóbil em nada se comparam à sofreguidão da marcha dos retos de coração. Pois enveredar-se na luz é enxergar o caminho mas não enxergar suas armadilhas, e apesar disso ter a certeza de que é esta a trilha que leva ao manancial das virtudes, mas não aos virtuosos pois estes delas não precisam; não aos inteligentes, aos belos, aos ousados, aos heróis, mas aqueles que a buscam de todo o ser. Aqueles que não sepultaram na alma seu pedaço de anjo amado pela família e doutrinado com os melhores valores possíveis.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

How does it feel?

Uma peça perfeitamente quadrada pode ser justaposta a qualquer outra peça que possua um lado plano. Já a peça de quebra-cabeça, complexa, cuidadosamente delineada e apta apenas a determinados e limitadíssimos encaixes, encaixa. Não fica apenas ao lado, não se permite ser facilmente remanejada.
Se encaixar é uma coisa muito mais fácil do que pertencer. O que acontece na maioria das vezes é que aquele que se encaixa em qualquer lugar dificilmente pertence.
Pertencer, intransitivamente. Porque quando se pertence, não se pertence a. Não se pertence a pessoa amada, ao ramo em que se trabalha. Se pertence. É o encontrar da lacuna do mundo que lhe cabe por direito divino.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Let's just breathe.

Talvez no futuro os rumos da vida caibam numa equação, não importa de qual sorte. Gêmeos univitelinos que morrem de infarto no mesmo dia me fazem pensar que será pura química e biologia – particularmente agradável pra alguém que é definitivamente de humanas mas com uma quedinha pelo desenrolar do DNA.
Porém a linearidade de acontecimentos que não competem à biologia me faz pensar numa equação complicadíssima de matemática e física, com geometria plana, espacial, analítica e cálculo de Hertz. Uma perspectiva assustadora mas fundamentada na minha própria experiência.
Linear. Nunca igual, mas um caminho desenrolado em dèja vu. O princípio básico de toda a existência é olhar pra trás e se sentir imbecil ad infinitum. Talvez agora eu esteja sendo estúpida em um modo que jamais posso imaginar, mas no futuro verei claramente e me envergonharei. Isso é a evolução. Muito possivelmente as briófitas pensaram: porque é que eu não vim pra terra antes?
É isso o que faz a literatura clássica parecer clichê e batida se você não tem a maturidade – eu estou adquirindo-a agora. Agora é uma idéia comum, mas na época era revolucionário, ninguém havia pensado nisso antes. Agora é uma idéia comum de que ano passado eu era um lixo, mas quando eu estava lá estava bela e satisfeita comigo mesma.
Você simplesmente sabe quando está no caminho certo – o certo pra sua alma, não o moralmente aceitável, mas também não o esperado pelas pessoas ao seu redor. Você sente aquela felicidade sublime, que nada tem a ver com os arroubos da juventude, mas também não é a sensação de estar no fim da vida e chorar de emoção com uma planta nascendo. É apenas aquilo que acontece quando você encontra o equilíbrio, entre corpo, alma e mundo. E não há biologia ou matemática que explique essa parte do caminho.
Talvez no futuro os rumos da vida caibam numa equação. Mas eu nunca fui boa com contas mesmo.


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

The C(o)urse of Nature

Meu dia começou detestável. Mal dormi por causa do frio, não consegui ir pra escola. Fui pro quarto onde dormem meus irmãos e minha vó esperando que lá estivesse melhor por causa do calor humano, mas o frio estava praticamente o mesmo, e não consegui dormir por causa dos roncos. Juro, ficar perto da minha vó enquanto ela dorme é a décima primeira praga enviada à Terra. Não consegui fazer nada o dia todo, exceto jogar jatos de secador pra me aquecer. Minha manhã e tarde toda foi a porra de um pesadelo completo, e odiei minha vida quase tanto quanto odiava em 2008, o pior ano do mundo, meu number of the beast particular.
Mas aí o Diogo me ligou pra dizer que vinha pra cá pra gente ver um filme, e pude ver o frio com outros olhos. Foi ótimo, nossa. A melhor coisa do mundo é ter uma boa surpresa num dia que parecia completamente lixo.
Ontem foi quase ótimo. O Diogo foi me encontrar na saída da escola pra gente almoçar juntos de novo, mas dessa vez eu tomei chuva. Almoçamos na padaria, com o céu nublado lá fora e bem quente lá dentro. Me senti um bocado inglesa, por mais patético que seja dizê-lo. Ficamos fazendo fumaça no ar. Mas tomei chuva, o ônibus demorou uma eternidade e tive que assistir Hora Acme ao invés de Padrinhos Mágicos. Não basta o aborrecimento pelo frio, tem que assistir Cartoon (a Nick era “cortesia por uma semana”, QUERO MORRE).
A única coisa meramente divertida na escola foi me esconder debaixo das escadas com Ariane, Sun e Lanina pra não sermos jogadas lá fora no frio cortante sem piedade durante o intervalo. Tinha uma garota e um moleque evidentemente mais novos que a gente escondidos lá quando chegamos, e ficamos os seis bem quietos ouvindo as mulheres que trabalham na escola conversando acima de nossas cabeças, e de algum modo isso foi infinitamente engraçado.
E hoje me pus a reler a carta final do Juiz Wargrave, coincidentemente quando começou a tocar Dance Dance Christa Päffgen. O Raffa teria orgulho de mim, juntando tanta awesomeness.
Sendo menos awesome, descobri que sou incapaz de acertar exercícios de probabilidade e muito provavelmente vou zerar matemática até no Enem, mas por outro lado sei tudo sobre a situação fundiária do país e tenho alguma chance em física se houver perguntas teóricas de elétrica e mecânica o bastante.
Sério, isso me mata. Graças ao bom Deus desisti de cursos concorridos. Seria uma frustração enorme. Quero dizer, será muito maior se eu não passar nem em Letras – e não o digo com desprezo, mas a concorrência é baixa e gosto de supor que todo mundo é ruim em exatas como eu.
Meus motivos de fazer Letras meio que estão acima de minhas próprias compreensões. A grade curricular de repente me parece fascinante. Meu trabalho vai contribuir para o mundo – é um fator decisivo na minha escolha. Não sou a pessoa mais decente do mundo mas odiaria ser um instrumento de disseminação de babaquice quando posso tentar ensinar as pessoas e fazê-las gostar de ler. Lembrar a mim mesma que eu posso nunca ser notável, mas posso ensinar português pra alguém que será notável no futuro.
E, menos altruísta, eu não quero perder minha predisposição pra escrever, pelo contrário, pretendo ampliá-la até o ponto de poder escrever um livro razoável. Estaria mentindo se dissesse que não é meu sonho, mas seria ingênua se quisesse seguir qualquer outra carreira que não professora ou tradutora e mesmo assim me atrever a publicar algo. Quero dizer, eu não evoluiria, apenas continuaria escrevendo no nível que escrevo agora – respeitando gramática e ortografia e sem grandes dificuldades para argumentar ou descrever – mas pra uma mulher adulta tencionando publicar um livro não será o suficiente. Mal me é suficiente agora. É, na verdade, obrigação de qualquer criatura pertencente ao gênero Homo e o fato de muitas delas não cumprirem com isso não me torna brilhante. Nem mesmo comparativamente.
E meu Deus, esse tem sido um ano difícil. Me sinto estranha em relação às minhas amigas. Eu não quero mais comentar minha vida, porque eu me conheço, e conheço uma característica comum a qualquer mulher: você sempre se compara. Inconscientemente. De modo tão tênue que quando a idéia é incurtida na sua mente, você não se dá conta de que não é sua. E a culpa não é de ninguém senão da natureza feminina. Que te faz querer que seu cabelo fique como o da sua amiga, que você sirva nas mesmas roupas que ela, que o seu namorado faça o que o dela faz. É por isso que eu tenho estado tão distante, tão avessa a conversas íntimas e confissões. Acho que isso faz parte do meu feitio agora. Já tenho tanto com que me preocupar, não preciso estragar minha pouca mas estável auto-estima desejando que coisas que estão perfeitamente ok estejam diferentes. É claro que você tem que buscar a felicidade, mas puta que pariu, seu namorado é ótimo e tem chegado algumas vezes até ao que você considera perfeição, seu cabelo está hidratado e não há problema nenhum com as suas roupas, então mergulhe no que você possui e encontre a felicidade em meio àquilo. Ame o que é seu. Se a natureza te fez de cabelo pixaim e você gastou mil reais no salão pra deixá-lo liso – pra ir contra a natureza – porque você não pode simplesmente ir contra a natureza de querer a vida alheia?

(escrito em 4 de gosto)

Rare. Precious.

Hoje a chuva salvou minha vida. Fui me arrumar pra escola com aquela cólica com a qual você paga por qualquer pecado passado e futuro, mas seis horas ela começou a cair bem forte e, que chato, tive que me enfiar num moletom velho e no meu lindo edredom de volta.
Aí às sete o Diogo me ligou pra confirmar que estava indo pra casa da vó em outra cidade por uns dias. Ele estava procrastinando isso desde o começo das férias. Vai ser bom pra ele estudar em paz por uns dias, lá deve ser super calmo. Tenho muita coisa pra estudar, acho que isso ajuda.
Não vou ficar triste porque desde que nós voltamos (o que foi no dia onze e eu só contei pra Ariane porque ela adora historinhas de amor e acha que eu e ele somos as pessoas mais admiráveis do mundo) ele tem sido muito muito muito amor. Quase que outra pessoa, só que ainda com a essência que eu amava mesmo nos nossos piores dias. Me dando rosas, me cobrindo de atenção, se decidindo pela profissão que ele ama mesmo que o salário seja menor. E eu dou todo o apoio do mundo. Nunca vivi com luxo e nunca vou exigir que ele me dê luxo. Quero uma casa confortável, dinheiro pra comprar meus livros preferidos e minhas roupas de preços moderados, e um filho adorável. Ele não precisa me dar mais nada. Jóias ou viagens pra Europa quando eu quiser, champanhe de trezentos dólares e sapatos Prada. Nada disso. Quando essas coisas se tornam banais e você pode ter tudo o que quiser, uma hora vai ser infeliz. Não vai mais ter o que querer, daí você vai começar a desejar ter a vida tranqüila de uma mulher de classe média que precisa trabalhar o dia todo e entra em desespero quando a diarista não vem. Porque viajar pra Europa com certeza é a melhor coisa do mundo, e se você puder fazê-lo o tempo todo, nem vai mais se importar. A coisa perde o valor quando se torna constante.

(escrito em 2 de agosto)

Cadence

São as pessoas, e não as coisas. De verdade mesmo. Eu moro numa casa pequena, num bairro afastado, acordei cinco e vinte pra pegar o ônibus pra escola, o esmalte que eu passei ontem já lascou todo e eu devia ter lavado o cabelo hoje, mas eu nunca estive mais feliz. Tudo tem seu tempo e o tempo do perfeito meio-termo entre nossas vontades chegou. Eu estou soterrada sob tanto amor e não poderia sentir-me mais viva, mais importante no mundo.
Meu dia começou extremamente cedo, mas sem nenhum problema. Uma vizinha estuda na escola, no segundo ano, de modo que não preciso passar pelo desconforto que é ser a pessoa mais velha do ônibus que fica sozinha ou coisa assim. Sei lá, minha cabeça tem dessas. Ela é legal.
Abracei minhas quatro coisas lindas, as únicas coisas que mantém parte da minha sanidade matinal intacta, e fui exemplar durante as aulas – mesmo que no primeiro dia após as férias seja meio que fácil pra qualquer babaca sê-lo.
O Diogo foi me buscar na escola. Me trouxe almoço e fomos comer na praça onde as pessoas fazem prova prática pra tirar carta. Níveis de amor da minha mãe por ele sobem infinitamente por ele ter me levado nuggets assados ao invés de me deixar comer doces na rua.
Fomos estudar e eu quase dormi em cima do livro de história. De verdade mesmo, sabe quando você pisca e suas pálpebras trancam magicamente? Mas até que passou rápido. Me enfiei no ônibus de volta e lá permaneci, juro, por mais de uma hora. Afundei o pé na terra fofa da casa da vizinha. A Nick não tava funcionando e é o melhor canal do mundo do meu pacote. Aquela parte horrível do seu dia que momentaneamente apaga a boa da sua mente. Mas daí fui ouvir Adele e ler um chic lit levinho pra relaxar e o Diogo me ligou. Ficamos uma eternidade no telefone. Ele está tão mudado, meu Deus. Quero me ajoelhar e agradecer por todas as minhas preces terem sido atendidas. Não adianta pedir dinheiro ou paciência. Apenas desejo que sempre estejamos bem, porque a única coisa mais poderosa que uma pessoa que age movida pela raiva é uma que age movida pela felicidade. Eu sei que daí posso ser paciente e conseguir tudo o mais. Ele sente tanto minha falta que quase não quero mais voltar pra internet. Me ligou todos os dias, veio pra cá sexta depois da biblioteca porque era aniversário da minha irmã – ela deu o primeiro pedaço de bolo pra ele, até. Veio ontem à noite sem eu nem pedir. Vai fucking me dar uma camiseta do System. Deixou de ser obcecado com USP e profissão extremamente bem remunerada e cheia de gente infeliz. E eu, que vos escrevo sob meu enfoque, tornando-me perfeita a vossos olhos, sinto o peso dos dezessete nas costas. De que eu obviamente não era perfeita e também precisei de alguma mudança. Não por ele, não tanto por nós, mas sobretudo por mim mesma. Eu deixei vir à tona com toda a força a personalidade que combina com esse cabelo. Sutil, comum, mas nem por isso menos interessante do que a anterior – mera questão de ponto de vista.

Helpless, I’ve become so helpless to your touch, so, touch me somehow. Restless, you leave me restless, breathless wait for me. The closer I come to you, the closer I am to finding God, you’re a miracle to me. Burning like Joan of Arc just to see you, just to feel you. Cadence, I’d dance with the death, ‘cause I believe, yes I believe, yes I believe.
(escrito em 1º de agosto)

No hero, no love, no glory

“It was like something from an old movie, where the sailor sees the girl across the crowded dancefloor, turns to his buddy and says: see that girl? I’m gonna marry her someday”
Dizem que o melhor não é quando você chega ao lugar desejado, e sim o caminho. Não sei em relação à vida como um todo, mas posso dizer que no que diz respeito aos romances, caminho mais horrível não há. É um despenhadeiro tortuoso no meio do deserto em busca de alguma relíquia de qualquer faraó que ninguém nem sabe se existe. Sob o sol escaldante. Sem mapa.
É tão bom chegar ao ponto onde se pára de cuidar exclusivamente da imagem, buscando ser atraente o suficiente, e passa-se a cuidar muito mais do psicológico, buscando conduzir o relacionamento por águas calmas e límpidas. Onde a viagem suicida pelo deserto se torna, muitas vezes literalmente, um tranqüilo passeio de balsa em Veneza. Com despesas pagas por terceiros.
A garota que chega na escola um pouco depois do início normal das aulas e quase instantaneamente é vista pelo marinheiro, de fones e abraçada aos cadernos olhando pra chuva, talvez demonstrando vulnerabilidade, completamente insegura sobre a vida nova e nenhum pouco consciente do que tinha começado a despertar – ela estava entrando no começo do fim. E isso era bom porque esse fim é bom. O fim da procura. O big boss do primeiro level.
Algures no passado já tinha experimentado toda sorte de pequenas decepções. Não viu quem esperava, ou viu e estava com outra. Pavoneou-se com roupa nova e maquiagem que julgava fabulosa e, se não fez papel de ridículo, não obteve também êxito. Escreveu no diário poemas irremediavelmente desesperados. Foi motivo da chacota masculina por variados motivos.
Que o diabo carregue todas as revistas femininas e seus testes que invariavelmente respondem se “ele” está interessado. Todas as matérias que juram desvendar qual look é irresistível a absolutamente qualquer espécime masculino. Todas as dicas de cabelo e maquiagem pra noite. Todos os debates sobre primeiros encontros. Todas as soluções milagrosas e irreais que essas bíblias do frívolo desespero conjugal prometem em suas capas.
Mesmo depois de o marinheiro apresentar-se timidamente e de trocarem os primeiros beijos, continuaram as decepções, as revistas femininas, os versos rabiscados. Não ficaram juntos muito tempo a princípio, e provavelmente não imaginavam que um voltaria aos braços do outro. Entregaram-se de volta às suas existências de poucas novidades, manifestaram algum interesse por outras pessoas.
Inevitavelmente, as outras portas se trancaram. Só restaram os dois numa sala cheia de portas trancadas, apenas uma delas aberta pra um corredor a infinito e além. E os dois perceberam que se um parasse, o outro também pararia, mas que sua vontade imensa era mesmo trilhar o único caminho disponível lado a lado. Que o fechamento de portas que vislumbraram desejando um pouco foi a melhor coisa que podia ter acontecido, e uma luzinha tênue acendeu.
Era como um grande castelo parcamente iluminado, cheio de cômodos de portas, onde uma multidão tateia pelos cômodos em busca de algo que nem sabe o que é. Esbarram-se, seguem seus caminhos, experimentam portas e muitas vezes voltam a se esbarrar. Até que o marinheiro e sua garota – ela exausta da procura, ele tendo investido poucos esforços mas agradavelmente surpreso em reencontrá-la – se vêem sem mais ninguém por perto, sem mais nenhum dos obstáculos que precisaram transpor quando era cada um por si. Chegaram ao segundo nível e nada mais importava. Mal tinham consciência de que existia mais gente naquele castelo, tateando na escuridão por ainda bastante tempo, como haviam estado até momentos antes, tamanho era seu enlevo. Olharam um pro outro e perceberam coisas que não percebiam antes. Uma cicatriz, um par de olhos brilhantes, longas unhas escarlate, pêlos ralos e castanhos insinuando-se através do botão aberto da camisa. E não queriam mais parar de olhar.
Ela trocou as revistas femininas por bons livros, a elaboradíssima maquiagem caça-homem por sua espontaneidade nenhum pouco artificial, parte do barulho das bandas adolescentes por algum jazz e blues vez ou outra, os amigos que a veneravam apenas pela irreverência por aqueles que a admiram pelo que sempre foi, sempre será e nunca mais vai tentar ocultar, porque é de fato seu melhor.
Se confrontadas, a Nova diria à Velha que se envergonha imensamente dela, que replicaria: “você é que é uma chata, uma velha, que não sabe mais aproveitar a vida”. A primeira, em sua sabedoria relativa, sorriria com condescendência e diria que tem sido muito mais feliz do que você, Velha, jamais foi, proferindo um absurdo “você vai entender quando for mais velha”.

(escrito em 30 de julho)

Back In

Engraçado como minha mente parece ter deixado tudo pra trás, junto com o monte de entulho e quinquilharias que naturalmente se deixa numa “casa velha”, especialmente quando a “casa nova” é menor.
É como um coma. Anestesiada, me distraindo em outra dimensão como se esta fosse a coisa mais natural do mundo, e não a em que eu sempre vivi.
O Diogo me ligou todos os dias sem exceção, sem eu nem pedir. A programação na tv a cabo é boa. O lugar é agradável ao entardecer e de noite, e durante o dia eu posso simplesmente estudar e ver tv. É estranho ter vizinhos mas ainda não se mostraram os piores que já tive. Meu índice de sono é o mais diminuto registrado desde quando eu acordava sete da manhã – ou mais cedo, o que era um bocado aborrecido porque só tinha programa de padre – pra assistir desenho a manhã toda, com um pacote de bolacha com personagens da Looney tunes de chocolate branco. Como foi boa minha infância, no que diz respeito aos prazeres da mesa! Tanta coisa que guardarei eternamente no coração das minhas papilas gustativas, que custava tão barato, e entretanto hoje em dia nem existe mais. Bem entendo porque dizem que cada geração é pior. Meus irmãos – pior, meus filhos – jamais comerão todas essas coisas que são o próprio Bon Dieu na nobre forma de comida.
Mas estava eu a devanear sobre meu retiro espiritual da internet.
Penso no meu twitter como o pai extremoso pensando no filho querido que foi concluir os estudos na Europa – com vago pesar por deixar o primogênito se virar sozinho tão longe, mas com a sensação de dever cumprido, sabendo que esse tempo fará bem para ambos.
Penso nos meus amigos indistintamente, sem devoção. Ninguém vai entrar na faculdade por mim, e atualmente 80% não é entusiasta do meu namoro, mas deixo-os a sentir minha falta. Se me amam tanto quanto dizem amar, não faz diferença passar uns dias longe. Se não me amam, será muito conveniente poder descobri-lo.
No mais, tenho me adaptado bem, e passado bem. É certo que passei toda a semana com horrível dor de garganta e ouvidos sem razão identificada, amaldiçoando a evolução por não ter feito canais diferentes que não façam um doer em função do outro, e associando psicologicamente à mudança, mas não é grande coisa. Eu me conheço e sei que minhas reais dificuldades de adaptação incluem sucessivas crises nervosas indômitas e dolorosas pra todos os envolvidos. Essa é minha décima mudança. Pra quem já viveu em onze casas, é claro que eu abominava umas seis. Mas não esta, apesar dos inconvenientes.
Ao que parece, eu sou bonitinha aqui. Ou apenas muito borsois, de modo a despertar a atenção. Não se passa um dia sem que um espécime masculino estique o pescoço pra me olhar, e pela primeira vez não recebo olhares depreciativos. Não que sejam homens bonitos, mas eu já tenho o homem mais bonito do mundo dirigindo-me olhares apreciativos constantemente. E tentando prever qual seria o choque do bairro se eu tivesse ainda o cabelo roxo.
Pequeno parêntese pra dizer que eu amava infinitamente e, como tudo que se ama demais, odiava um pouquinho. Às vezes eu achava divertido ser olhada e parada na rua – por algo legal, não por ser uma gorda horrorosa – mas às vezes não estava no humor pra isso, queria apenas misturar-me à multidão castanha de jeans e camiseta comum. Não me arrependo de ter passado o roxo, mas também não me arrependo de ter passado o preto. Ambos foram impulsos, mas o primeiro, sabia eu, já estava ficando insustentável.
Daí que o Diogo disse e a família toda fez coro: graças a Deus você pintou o cabelo antes mesmo de saber que ia mudar (foi deveras repentino), senão você ia ser a estranha, não iam te deixar em paz, agora pelo menos você é só a que tem cara de burguesa.

(escrito em 29 de julho)