Meu dia começou detestável. Mal dormi por causa do frio, não consegui ir pra escola. Fui pro quarto onde dormem meus irmãos e minha vó esperando que lá estivesse melhor por causa do calor humano, mas o frio estava praticamente o mesmo, e não consegui dormir por causa dos roncos. Juro, ficar perto da minha vó enquanto ela dorme é a décima primeira praga enviada à Terra. Não consegui fazer nada o dia todo, exceto jogar jatos de secador pra me aquecer. Minha manhã e tarde toda foi a porra de um pesadelo completo, e odiei minha vida quase tanto quanto odiava em 2008, o pior ano do mundo, meu number of the beast particular.
Mas aí o Diogo me ligou pra dizer que vinha pra cá pra gente ver um filme, e pude ver o frio com outros olhos. Foi ótimo, nossa. A melhor coisa do mundo é ter uma boa surpresa num dia que parecia completamente lixo.
Ontem foi quase ótimo. O Diogo foi me encontrar na saída da escola pra gente almoçar juntos de novo, mas dessa vez eu tomei chuva. Almoçamos na padaria, com o céu nublado lá fora e bem quente lá dentro. Me senti um bocado inglesa, por mais patético que seja dizê-lo. Ficamos fazendo fumaça no ar. Mas tomei chuva, o ônibus demorou uma eternidade e tive que assistir Hora Acme ao invés de Padrinhos Mágicos. Não basta o aborrecimento pelo frio, tem que assistir Cartoon (a Nick era “cortesia por uma semana”, QUERO MORRE).
A única coisa meramente divertida na escola foi me esconder debaixo das escadas com Ariane, Sun e Lanina pra não sermos jogadas lá fora no frio cortante sem piedade durante o intervalo. Tinha uma garota e um moleque evidentemente mais novos que a gente escondidos lá quando chegamos, e ficamos os seis bem quietos ouvindo as mulheres que trabalham na escola conversando acima de nossas cabeças, e de algum modo isso foi infinitamente engraçado.
E hoje me pus a reler a carta final do Juiz Wargrave, coincidentemente quando começou a tocar Dance Dance Christa Päffgen. O Raffa teria orgulho de mim, juntando tanta awesomeness.
Sendo menos awesome, descobri que sou incapaz de acertar exercícios de probabilidade e muito provavelmente vou zerar matemática até no Enem, mas por outro lado sei tudo sobre a situação fundiária do país e tenho alguma chance em física se houver perguntas teóricas de elétrica e mecânica o bastante.
Sério, isso me mata. Graças ao bom Deus desisti de cursos concorridos. Seria uma frustração enorme. Quero dizer, será muito maior se eu não passar nem em Letras – e não o digo com desprezo, mas a concorrência é baixa e gosto de supor que todo mundo é ruim em exatas como eu.
Meus motivos de fazer Letras meio que estão acima de minhas próprias compreensões. A grade curricular de repente me parece fascinante. Meu trabalho vai contribuir para o mundo – é um fator decisivo na minha escolha. Não sou a pessoa mais decente do mundo mas odiaria ser um instrumento de disseminação de babaquice quando posso tentar ensinar as pessoas e fazê-las gostar de ler. Lembrar a mim mesma que eu posso nunca ser notável, mas posso ensinar português pra alguém que será notável no futuro.
E, menos altruísta, eu não quero perder minha predisposição pra escrever, pelo contrário, pretendo ampliá-la até o ponto de poder escrever um livro razoável. Estaria mentindo se dissesse que não é meu sonho, mas seria ingênua se quisesse seguir qualquer outra carreira que não professora ou tradutora e mesmo assim me atrever a publicar algo. Quero dizer, eu não evoluiria, apenas continuaria escrevendo no nível que escrevo agora – respeitando gramática e ortografia e sem grandes dificuldades para argumentar ou descrever – mas pra uma mulher adulta tencionando publicar um livro não será o suficiente. Mal me é suficiente agora. É, na verdade, obrigação de qualquer criatura pertencente ao gênero Homo e o fato de muitas delas não cumprirem com isso não me torna brilhante. Nem mesmo comparativamente.
E meu Deus, esse tem sido um ano difícil. Me sinto estranha em relação às minhas amigas. Eu não quero mais comentar minha vida, porque eu me conheço, e conheço uma característica comum a qualquer mulher: você sempre se compara. Inconscientemente. De modo tão tênue que quando a idéia é incurtida na sua mente, você não se dá conta de que não é sua. E a culpa não é de ninguém senão da natureza feminina. Que te faz querer que seu cabelo fique como o da sua amiga, que você sirva nas mesmas roupas que ela, que o seu namorado faça o que o dela faz. É por isso que eu tenho estado tão distante, tão avessa a conversas íntimas e confissões. Acho que isso faz parte do meu feitio agora. Já tenho tanto com que me preocupar, não preciso estragar minha pouca mas estável auto-estima desejando que coisas que estão perfeitamente ok estejam diferentes. É claro que você tem que buscar a felicidade, mas puta que pariu, seu namorado é ótimo e tem chegado algumas vezes até ao que você considera perfeição, seu cabelo está hidratado e não há problema nenhum com as suas roupas, então mergulhe no que você possui e encontre a felicidade em meio àquilo. Ame o que é seu. Se a natureza te fez de cabelo pixaim e você gastou mil reais no salão pra deixá-lo liso – pra ir contra a natureza – porque você não pode simplesmente ir contra a natureza de querer a vida alheia?
(escrito em 4 de gosto)
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