As pessoas com quem você se importa e a proporção na qual o faz – nisso há uma linha tênue tal qual o medicamento e o veneno. Não se importe com ninguém e tenha uma vida vazia e com boas chances de sucesso. Importe-se com gente demais e espere receber ao menos um reconhecimento post-mortem do Vaticano. Muito calor humano pra pouco progresso capitalista.
E a resposta para a eterna questão “mas em quem devo confiar” é dada ao longo de meses, anos, a vida toda talvez. Quantos casais que passaram trinta anos juntos se afundam em mentiras e tédio e se separam? Quantos melhores amigos de infância roubam a mulher ou o cargo um do outro e passam a se odiar? Quantos pais não falam com seus filhos há décadas?
Eu confiava em muita gente. Em qualquer um, basicamente. Tive muitos esboços de personalidade – nem posso saber se este se tornará perpétuo. Muitos amigos se foram nessas mudanças. Muitos se foram na última, mesmo sem ainda saber.
E não pensem que não me é penoso também.
Dói a solidão de não fazer parte de um estereótipo, mas dói menos que me adequar a regras frívolas – um peso, uma cor de cabelo, um tipo de roupa. Dói ver que não tenho mais nada a ver com pessoas com quem eu tinha grande afinidade e com quem dividi meses ou anos felizes. Dói ter reduzido minhas amizades a um grupo ínfimo e ainda assim não saber bem se vale a pena continuar confiando, cuidando, mantendo-as numa grande lacuna da minha vida.
Mas dói menos que ter que forçar um sorriso e uma palavra educada, que ter medo de compartilhar qualquer coisa.
Tenho um medo muito grande de estar diante de algo crucial e fazer a escolha errada. Acredito que não tenha feito todas as escolhas erradas, mas ainda assim angariei pra mim um caminho um tanto íngreme. E eu nunca percebo de imediato. É sempre preciso chegar à beira do precipício para então, penosamente, dar uns passos pra trás e ver no que eu estava prestes a cair vertiginosamente.

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