Engraçado como minha mente parece ter deixado tudo pra trás, junto com o monte de entulho e quinquilharias que naturalmente se deixa numa “casa velha”, especialmente quando a “casa nova” é menor.
É como um coma. Anestesiada, me distraindo em outra dimensão como se esta fosse a coisa mais natural do mundo, e não a em que eu sempre vivi.
O Diogo me ligou todos os dias sem exceção, sem eu nem pedir. A programação na tv a cabo é boa. O lugar é agradável ao entardecer e de noite, e durante o dia eu posso simplesmente estudar e ver tv. É estranho ter vizinhos mas ainda não se mostraram os piores que já tive. Meu índice de sono é o mais diminuto registrado desde quando eu acordava sete da manhã – ou mais cedo, o que era um bocado aborrecido porque só tinha programa de padre – pra assistir desenho a manhã toda, com um pacote de bolacha com personagens da Looney tunes de chocolate branco. Como foi boa minha infância, no que diz respeito aos prazeres da mesa! Tanta coisa que guardarei eternamente no coração das minhas papilas gustativas, que custava tão barato, e entretanto hoje em dia nem existe mais. Bem entendo porque dizem que cada geração é pior. Meus irmãos – pior, meus filhos – jamais comerão todas essas coisas que são o próprio Bon Dieu na nobre forma de comida.
Mas estava eu a devanear sobre meu retiro espiritual da internet.
Penso no meu twitter como o pai extremoso pensando no filho querido que foi concluir os estudos na Europa – com vago pesar por deixar o primogênito se virar sozinho tão longe, mas com a sensação de dever cumprido, sabendo que esse tempo fará bem para ambos.
Penso nos meus amigos indistintamente, sem devoção. Ninguém vai entrar na faculdade por mim, e atualmente 80% não é entusiasta do meu namoro, mas deixo-os a sentir minha falta. Se me amam tanto quanto dizem amar, não faz diferença passar uns dias longe. Se não me amam, será muito conveniente poder descobri-lo.
No mais, tenho me adaptado bem, e passado bem. É certo que passei toda a semana com horrível dor de garganta e ouvidos sem razão identificada, amaldiçoando a evolução por não ter feito canais diferentes que não façam um doer em função do outro, e associando psicologicamente à mudança, mas não é grande coisa. Eu me conheço e sei que minhas reais dificuldades de adaptação incluem sucessivas crises nervosas indômitas e dolorosas pra todos os envolvidos. Essa é minha décima mudança. Pra quem já viveu em onze casas, é claro que eu abominava umas seis. Mas não esta, apesar dos inconvenientes.
Ao que parece, eu sou bonitinha aqui. Ou apenas muito borsois, de modo a despertar a atenção. Não se passa um dia sem que um espécime masculino estique o pescoço pra me olhar, e pela primeira vez não recebo olhares depreciativos. Não que sejam homens bonitos, mas eu já tenho o homem mais bonito do mundo dirigindo-me olhares apreciativos constantemente. E tentando prever qual seria o choque do bairro se eu tivesse ainda o cabelo roxo.
Pequeno parêntese pra dizer que eu amava infinitamente e, como tudo que se ama demais, odiava um pouquinho. Às vezes eu achava divertido ser olhada e parada na rua – por algo legal, não por ser uma gorda horrorosa – mas às vezes não estava no humor pra isso, queria apenas misturar-me à multidão castanha de jeans e camiseta comum. Não me arrependo de ter passado o roxo, mas também não me arrependo de ter passado o preto. Ambos foram impulsos, mas o primeiro, sabia eu, já estava ficando insustentável.
Daí que o Diogo disse e a família toda fez coro: graças a Deus você pintou o cabelo antes mesmo de saber que ia mudar (foi deveras repentino), senão você ia ser a estranha, não iam te deixar em paz, agora pelo menos você é só a que tem cara de burguesa.
(escrito em 29 de julho)
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