sexta-feira, 5 de agosto de 2011

No hero, no love, no glory

“It was like something from an old movie, where the sailor sees the girl across the crowded dancefloor, turns to his buddy and says: see that girl? I’m gonna marry her someday”
Dizem que o melhor não é quando você chega ao lugar desejado, e sim o caminho. Não sei em relação à vida como um todo, mas posso dizer que no que diz respeito aos romances, caminho mais horrível não há. É um despenhadeiro tortuoso no meio do deserto em busca de alguma relíquia de qualquer faraó que ninguém nem sabe se existe. Sob o sol escaldante. Sem mapa.
É tão bom chegar ao ponto onde se pára de cuidar exclusivamente da imagem, buscando ser atraente o suficiente, e passa-se a cuidar muito mais do psicológico, buscando conduzir o relacionamento por águas calmas e límpidas. Onde a viagem suicida pelo deserto se torna, muitas vezes literalmente, um tranqüilo passeio de balsa em Veneza. Com despesas pagas por terceiros.
A garota que chega na escola um pouco depois do início normal das aulas e quase instantaneamente é vista pelo marinheiro, de fones e abraçada aos cadernos olhando pra chuva, talvez demonstrando vulnerabilidade, completamente insegura sobre a vida nova e nenhum pouco consciente do que tinha começado a despertar – ela estava entrando no começo do fim. E isso era bom porque esse fim é bom. O fim da procura. O big boss do primeiro level.
Algures no passado já tinha experimentado toda sorte de pequenas decepções. Não viu quem esperava, ou viu e estava com outra. Pavoneou-se com roupa nova e maquiagem que julgava fabulosa e, se não fez papel de ridículo, não obteve também êxito. Escreveu no diário poemas irremediavelmente desesperados. Foi motivo da chacota masculina por variados motivos.
Que o diabo carregue todas as revistas femininas e seus testes que invariavelmente respondem se “ele” está interessado. Todas as matérias que juram desvendar qual look é irresistível a absolutamente qualquer espécime masculino. Todas as dicas de cabelo e maquiagem pra noite. Todos os debates sobre primeiros encontros. Todas as soluções milagrosas e irreais que essas bíblias do frívolo desespero conjugal prometem em suas capas.
Mesmo depois de o marinheiro apresentar-se timidamente e de trocarem os primeiros beijos, continuaram as decepções, as revistas femininas, os versos rabiscados. Não ficaram juntos muito tempo a princípio, e provavelmente não imaginavam que um voltaria aos braços do outro. Entregaram-se de volta às suas existências de poucas novidades, manifestaram algum interesse por outras pessoas.
Inevitavelmente, as outras portas se trancaram. Só restaram os dois numa sala cheia de portas trancadas, apenas uma delas aberta pra um corredor a infinito e além. E os dois perceberam que se um parasse, o outro também pararia, mas que sua vontade imensa era mesmo trilhar o único caminho disponível lado a lado. Que o fechamento de portas que vislumbraram desejando um pouco foi a melhor coisa que podia ter acontecido, e uma luzinha tênue acendeu.
Era como um grande castelo parcamente iluminado, cheio de cômodos de portas, onde uma multidão tateia pelos cômodos em busca de algo que nem sabe o que é. Esbarram-se, seguem seus caminhos, experimentam portas e muitas vezes voltam a se esbarrar. Até que o marinheiro e sua garota – ela exausta da procura, ele tendo investido poucos esforços mas agradavelmente surpreso em reencontrá-la – se vêem sem mais ninguém por perto, sem mais nenhum dos obstáculos que precisaram transpor quando era cada um por si. Chegaram ao segundo nível e nada mais importava. Mal tinham consciência de que existia mais gente naquele castelo, tateando na escuridão por ainda bastante tempo, como haviam estado até momentos antes, tamanho era seu enlevo. Olharam um pro outro e perceberam coisas que não percebiam antes. Uma cicatriz, um par de olhos brilhantes, longas unhas escarlate, pêlos ralos e castanhos insinuando-se através do botão aberto da camisa. E não queriam mais parar de olhar.
Ela trocou as revistas femininas por bons livros, a elaboradíssima maquiagem caça-homem por sua espontaneidade nenhum pouco artificial, parte do barulho das bandas adolescentes por algum jazz e blues vez ou outra, os amigos que a veneravam apenas pela irreverência por aqueles que a admiram pelo que sempre foi, sempre será e nunca mais vai tentar ocultar, porque é de fato seu melhor.
Se confrontadas, a Nova diria à Velha que se envergonha imensamente dela, que replicaria: “você é que é uma chata, uma velha, que não sabe mais aproveitar a vida”. A primeira, em sua sabedoria relativa, sorriria com condescendência e diria que tem sido muito mais feliz do que você, Velha, jamais foi, proferindo um absurdo “você vai entender quando for mais velha”.

(escrito em 30 de julho)

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