quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Moving

http://levolee.blogspot.com/
Primeiro blog da minha pseudo vida adulta. Vou continuar lá, aqui tem muita coisa das quais eu me envergonho. Mas também muito texto legal que corre o sério risco de ser repostado no blog novo.
Só vou sentir falta do nome desse. 'Nephelibate' é a palavra mais legal do mundo.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Pt. III — She broke your throne and she cut your hair

Eu gostaria de poder escrever uma análise imparcial sobre os últimos dezessete meses da minha vida, de nossas vidas. Mas como eu poderia fazer isso? Como eu poderia mensurar as conseqüências de cada gesto impensado, mal-interpretado, de cada palavra mal colocada ou mesmo daquelas ditas intencionalmente pra ferir? Deus, eu desejo que houvesse um aparelho pra medir quem esteve menos errado. Uma escala de dor. Qualquer coisa.
Encontro-me aqui, sozinha num quarto bagunçado e sujo, só um pouco menos caótico que a minha própria vida, em meio de minhas reflexões e contradições, em meio de pedaços de sonhos: não porque eles estão destruídos, mas porque estão confusos. Por um segundo destacam-se dos outros cacos, parecem tão certos, e então voltam a ser apenas retalhos.

Baby I’ve been here before
I’ve seen this room and I’ve walked this floor
I used to live alone before I knew you
I’ve seen your flag on the marble arch
But love is not a victory march
It’s a cold and it's a broken hallelujah


Eu nem sei se acredito no que eu digo e no que eu tenho escrito, por isso evitei fazê-lo – pra então despejar minha alma com todo o cuidado em três atos. Acredito em tudo isso, todo esse positivismo, até ouvir uma música triste. E então me lembro como somos incompatíveis e como nenhum dos dois vai ceder, choro, ponho uma música alegre.
Eu sinto um orgulho absurdo de mim por não estar me rastejando e aceitando quaisquer condições pra tê-lo de volta, mas é claro que eu estou morrendo por dentro. A cada memória preciosa que precisa ser esquecida, ou ao menos muitíssimo bem escondida, nós morremos um pouco. Mas ao mesmo tempo, esvaziamos um espaço não menos precioso, perfeitamente capaz de ser preenchido com pensamentos novos. Senão com lembranças, com sonhos. Senão com sonhos, com ocupações saudáveis, com trabalho, com conhecimento, com qualquer coisa que amorteça a morte.

Pt. II — Blame me, blame me.

Começo aqui quase envergonhada, com um clichê quase inadmissível pra alguém tem um razoável arsenal de palavras: há males que vem para o bem. Eu não quero ver as coisas pelo lado do perdi um dos pilares da minha vida. Quero redescobrir todos os meus sonhos e meus amigos, e permitir que novos surjam. As noites no porks ouvindo Creed, as tatuagens que eu quero fazer há um tempão, a coleção de Barbies que eu sempre jurei que teria quando fosse adulta, todas as coisas ridículas, infantis e egoístas das quais eu não quero abrir mão mas deixei de lado por tanto tempo, pra viver uma realidade que não era a que eu sonhava – mas ainda assim me dispus a vivê-la (minha culpa, e apenas minha) por amor, por pensar que talvez no fim das contas alguma das minhas vontades fosse feita e, ridículo dos ridículos, por medo de que fosse algum tipo de Plano Maior, de Vontade Divina, que se eu cedesse em tudo esse ano, nos próximos conseguiria ser feliz.
Mas de repente me foi arrancada a venda semitransparente dos olhos: seria muito mais pesado do que eu poderia suportar, e com enormes chances de dar errado. Não quero viver minha vida de modo que eu faça a vontade de outrem e culpe-o pelos fracassos – quero meus fracassos. Quero minha dor. E também meus acertos, só meus, sem ter que creditá-los a alguém por ter me empurrado no “caminho certo”. Nenhum caminho é o certo, mas o menos errado é o que eu mesma escolho. E eu escolhi.

Pt. I — Dead Memories

Nunca foi um conto de fadas, mas ainda assim era mágico, muito mais mágico do que sapatinhos de cristal e abóboras – era mais como Alice, num mundo pouco desvendado, num mundo que ninguém podia ter certeza se era real.
As coisas podem ser muito menos dolorosas do que se imagina, basta um mínimo de coragem. Basta encontrar pessoas que induzam um grão de mostarda de amor-próprio a transformar-se numa grande mudança de vida. Eu encontrei, encontrei, e encontrei de novo.
Eu fui muito bem no Enem – muito melhor do que eu podia esperar, é até injusto pelo tanto que eu estudo (quase nada), mas quem disse que a vida é justa e quem disse que cabe a nós o imediatismo de desentortá-la custe o que custar?
Em todos os outros términos, reinou o meu desespero de não saber o que fazer da vida – a percepção de que eu tinha uma vida inteira pela frente me assustava, e agora me fascina: eu. tenho. a. vida. inteira. pela. frente.
Quanta coisa eu posso fazer, quanta gente eu posso conhecer. Como é ingênuo pensar que só existe uma pessoa com quem a gente pode ser feliz pra sempre. Como é preciso um amor descomunal e bilateral e uma compreensão quase divina pra viver pro resto da vida com o cara que você conheceu aos quatorze anos e tentou adaptá-lo ao que você sempre sonhou, enquanto ele fazia o mesmo com você e obtinha mais sucesso.
A melancolia por deixar pra trás uma boa parte da minha vida existe, mas a sensação de poder sobre meu destino, de ter amplas escolhas de um futuro a se descortinar à minha frente é grandiosa. O fim de uma fase importante é sempre doloroso, mas é como levar pontos no hospital – ou ao menos suponho, eu que fui uma criança quieta, que nunca subiu em árvores, que nunca caiu de cabeça pra ter que ser costurada.
Você se sente remendado, frágil e forte ao mesmo tempo. Eu sei que vou acabar deixando a parte dolorosa sobressair se eu ouvir uma música triste, como uma criança que não pára de mexer um minuto nos pontos e acaba sangrando muito mais do que precisava. Mas eu posso optar por ser forte. Chega de induzir sofrimento, porque reconheço como tudo foi bom pra mim – tudo o que eu aprendi no amor e na dor, tudo o que eu descobri que não quero, todos os erros que eu nunca mais preciso cometer porque já sei que são erros. Nós dois amadurecemos tanto, e é nisso que eu me firmo: fizemos bem um pro outro até onde deu. As lembranças afinal são feitas, não pra ferir, mas pra provocar aquele sorriso de quem diz “éramos tão ingênuos e tão felizes”.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Inacabado.

A vida é esse projeto torto – como galhos de uma árvore, nunca vai linear até o fim, sempre se ramifica. Projetos são desviados, opiniões mudam, vontades são sacrificadas muitas vezes por serem substituídas por melhores.
Mas o crescimento não é cruel, não deixa tudo e todos pra trás. Existem padrões que sobressaem, folhas que permanecem, ramos que levam ao mesmo lugar. Há constante mutação, por si só e pelo vento. A existência muitas vezes nos sopra histórias quase a esmo, de tão inacabadas. Temos o hábito de relatar apenas histórias com princípio, meio, fim e moral – mas a realidade nem sempre é assim. Muita coisa parece completamente despropositada.
Assisti Histórias de amor duram apenas 90 minutos esses dias. Nunca tive paciência pra cinema, nunca me imaginei assistindo um filme nacional que mal foi veiculado – but here we are. É uma história densa, verdadeira, plausível, com toda a naturalidade do mundo que por vezes pensei estar diante dum drama real – e tudo isso coroado por um final babaca. Artisticamente babaca.
Porque simplesmente não tem bem um fim. O personagem principal (não que venha ao caso, mas adoro o Caio Blat desde que me lembro de existir) termina mais fodido do que começou: sem mulher, sem inspiração pra escrever. Confesso que esse choque de realidade tão forte não me agrada – não é por isso que estamos sempre procurando refúgio nas artes, onde as coisas, se não acabam bem, dão uma áurea de grandiosidade ao nosso herói?
Mas não morre o avestruz se enfiar-se na terra pra todo o sempre? Não morre o peixe quando explora uma profundidade maior do que deveria? Morremos também nós, figurativamente, ao fazermos do conforto de uma história de amor bem-sucedida nosso refúgio de ilusões pela eternidade. Morrem nossos neurônios ao lermos só histórias onde se é feliz para sempre e buscarmos ímpar e contínua perfeição. A perfeição é o agora, não o sempre.
Muitas vezes somos anti-heróis de nossa própria vida – sem contar da vida alheia. Ousamos achar que a história é nossa quando na verdade estamos fazendo figuração na vida alheia, impedindo a felicidade daqueles que teríamos escalado pra serem felizes a nosso lado. Acabamos, como o Zeca do filme, parados diante de um monitor com um documento em branco e sem ninguém – vazio completo. Nenhum final feliz, mal e mal um final – só acaba o ciclo. Uma batalha perdida.
A vida não precisa ser um livro aberto, mas é sempre um livro em aberto – tudo pode mudar ou permanecer a mesma porcaria. Existir é o mais grandioso e cruel espetáculo, dado que o protagonista nunca sabe suas linhas de cor e não faz idéia do que o impiedoso Maestro lhe reserva. E nunca saberá. Nunca assistiremos a nosso próprio gran finale, são nossos parentes e amigos que verão descer as cortinas de nossa existência, com os olhos cheios de lágrimas genuínas. Só não é inacabado o que está morto.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

no one was saved

A igreja é a academia da alma; se você tem disciplina o suficiente para tomar formas harmoniosas por si só, não precisa gastar dinheiro com alguém que lhe oriente através de regras complicadíssimas.
Geralmente nossas regras pessoais são mais efetivas, nós que conhecemos tão bem a peça a ser talhada, seja corpo ou alma. Porém dificilmente temos discernimento para tal, de modo que é quase sempre mais vantajoso pagarmos pra alguém que nos dite regras, um personal trainer ou sacerdócio – e aí vem o problema: a ineficácia reside no fazer automático.
A queima de gordura – bem como aquilo que chamamos de salvação da alma – depende de diversos fatores complicadíssimos, mas o fato é: no começo é doloroso, e então se entra no estágio em que os exercícios apresentam resultados rapidamente, para logo em seguida passar à fase em que o corpo já está acostumado com a carga inicial de exercícios e não reage mais. Então é preciso aumentá-la para que continue a fazer efeito.
Ao percebermos as calças voltando a apertar, seguimos os conselhos de todas as revistas de dieta e intensificamos a rotina de exercícios. Bem, se a fé, o conhecimento e o rigor no cumprimento dos rituais não aumentarem gradativamente, logo deixarão de ser efetivos. Só freqüentar uma igreja não salva ninguém – uma beata que inferniza todas as pessoas ao redor é como uma gorda que faz vinte minutos de caminhada e passa o dia inteiro ingerindo carboidratos.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Changes

Nos últimos meses eu comecei a apreciar as artes. Ainda leiga, em passos pequenos vacilantes, e muitíssimo trôpegos. Talvez eu nem possa usar o termo “apreciar” – ainda estamos nos conhecendo, eu e as artes.
Estou muito diferente desde – bem, a tintura preta. Como se cada cor de cabelo pudesse me dar uma personalidade. Vermelho-liferuler, roxo-não-é-porque-eu-sou-esquisita-que-eu-sou-burra e preto-sosseguei.
Mas estar diferente não é exatamente mudar. E é justamente o que me pergunto – será que eu mudei (e se mudei, por que motivo?), ou será que apenas fui impulsionada a ser o que já ia por dentro da versão anterior?
Talvez seja uma pergunta que todo mundo vai fazer ao longo da vida – talvez seja a pergunta mais importante. Assim como em Dom Casmurro, não seria sobre a traição ter ou não acontecido, mas apenas isso: estaria a Capitu do Engenho Novo dentro da Capitu Mata-Cavalos?

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Lovesong

É aterrador quando você para pra pensar que todo mundo teve, tem ou terá sentimentos e sonhos. Que muitos te acham desprezível e julgam sua vida medíocre, e ainda assim você tem seus planos, suas metas, e até suas pequenas glórias – então as pessoas que você julga medíocres também possuem ou encontrarão amor, motivos pra viver, recompensa.
Ninguém é oco por completo que não possa produzir som ou tão cheio de conteúdo e valores que o propague melhor que os outros.
O universo todo é o tilintar misteriosamente harmonioso de graves e agudos, pianos e violoncelos, acordeões e flautas, belos e repugnantes. Cada um possui e produz sua acústica singular, uns menos medíocres que outros mas todos de mesma importância para o conjunto da obra. E cada pequena parte tem esse misterioso poder – se ela se cala, faz falta no todo, pois uma nota conta com a outra e todos os que estão próximos erram. Mas se todas cessam para que apenas uma possa ser ouvida, ela soará tremendamente insignificante.
Alguns emitem notas melodiosas como uma colherinha de prata numa taça de cristal, outros são como os baques grosseiros de uma grande cidade – uma orquestra não consiste de um único tipo de instrumento, afinal. Mesmo os ruídos mais reles encaixar-se-ão num vão do ressoar sublime.
Que são afinal os ruídos reles senão os considerados por nós inferiores ao som que produzimos? Um Ré pode ser mais agradável que um Dó, mas nenhuma nota é substituível apenas pelo conceito estético individual.
Algumas pessoas parecem-nos desagradáveis por criarem desarmonia na partitura de nossas vidas; tomemos para nós então aquelas que produzem o mais belíssimo som quando combinadas ao nosso e deixemos que aqueles que são baques grosseiros aos nossos ouvidos encontrem quem lhes escute como se fossem o som de um milhão de colherinhas polidíssimas açoitando levemente o cristal. Sejamos, pois, como o bom músico, que nada discrimina, nada repugna; sabe onde posicionar elementos ordinários de tal forma que surja algo novo e magnífico.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

happy nihilist

Nada define melhor a existência, seus cursos e seus mistérios que o meio-termo entre Rousseau e Marx. A vida é produto do meio e o meio é produto da vida; numa troca constante e exata, num relacionamento harmonioso.
Somos aptos a fazer uma escolha entre as cartas que nos são colocadas, em possibilidades muitas vezes amplas mas sempre finitas. Um meio livre-arbítrio em contraponto a um meio evento pré-destinado ou aleatório.
Um pensamento que parece tão óbvio mas precisou de tantos homens de intelecto secularmente reconhecido para ser esculpido.
As grandes verdades são, pois, as grandes obviedades – porque de algum modo já estão intrínsecas em nós desde sempre. Talvez sejam a programação para a parte que não se pode definir por uma simples escolha.

domingo, 18 de setembro de 2011

Ebony and Ivory

— Você precisa abandonar toda forma de preconceito.
Não precisa não. Precisa é parar de ter nojo de preto e pobre. Precisa é parar de se sentir superior porque sua roupa é da grife da moda e a da outra pessoa não. Precisa uma vez na vida não fazer cara feia quando sua vizinha religiosa te convida pra ir na igreja. Precisa provar a salada antes de torcer o nariz pra ela. Precisa uma vez correr o risco de se tornar um leproso social e comprar aquela roupa que você achou linda mas tem medo de todo mundo achar estranha. Precisa ir ver aquele filme cult que os entendidos elogiam mas seus amigos não entenderam nada. Precisa ler uns clássicos da literatura antes de comprar Crepúsculo dizendo que “Machado é muito difícil”.
Porque o preconceito é o glóbulo branco do psicológico; é perfeitamente natural que depois de vivenciarmos más experiências com tipos específicos, fiquemos já um tanto imunes a eles. Um assalto, um livro chatíssimo escrito duzentos anos atrás, um filme consagrado que parece sem pé nem cabeça.
Tudo isso insere em nós a cautela de segurar a bolsa com mais força ao passar por alguém mal-vestido, de buscar livros contemporâneos e fáceis, de nunca chegar perto de nada que contenha o nome Kubrick. Cada um que encontre seu divisor de águas entre o cuidado e o desprezo adquiridos pela experiência própria.
São situações em que a única saída é vivenciá-las – o “certo pra uns e pra outros não”, que universalmente não é certo ou errado, mas depende unicamente da aptidão pessoal. E por outro lado, há coisas pras quais já somos vacinados desde sempre.
Palavrão é errado, beber demais é errado (“o papai só bebe uma cervejinha de domingo, viu; quando você for mais velho também vai poder”), usar drogas é errado, bater nos amiguinhos é errado.
E é aí que o preconceito familiar vem contaminar a nova geração. Crianças não possuem preconceitos nem escrúpulos. Se lhe é colocado que negros são maus, imundos e qualquer barbaridade semelhante, o moleque branco fará da vida do negrinho um inferno – e, por outro lado, uma criança na qual se injeta escrúpulo desde cedo tem muito menos chances de tender para aquele preconceito que não é por segurança própria – aquele, humilhante e cravejado de repugnância, cuja existência em tempos tão evoluídos é quase uma piada... de humor negro.

sábado, 10 de setembro de 2011

Art of War

Pessoas me fazem, desejam, ou cogitam fazer e desejar algum tipo de mal. É claro que é muito mais fácil – é até um reflexo inconsciente, de tão natural – desejar o mal de volta, ou ao menos sentir-me vingada ressaltando os defeitos e falhas de meu remetente de podridão. Eu, ainda bastante moralmente questionável que sou, não posso cobrar dos outros que não façam o mesmo. Não me cabe agora e talvez nunca, como ser humano, dar exemplo de virtuosidade – mas como criatura pensante e que escreve, permito-me uma análise.
Será que alguém neste mundo consegue devolver com pensamentos positivos o mal feito, desejado, pensado? Sei que para os mais espirituosos é o que se deve fazer, mas quem é que consegue tal gesto de infinito perdão? Dedicar uma prece a um inimigo não é difícil, mas fazê-lo sinceramente requer um esforço quase que sobre-humano. Às vezes até a declaração de que “a justiça divina se encarregará de punir” me parece um tanto mesquinha, pontilhada de prepotência ao julgar que Deus está do seu lado e voltado contra o outro.
Digamos que um mau pensamento ou atitude para com o próximo seja uma seta envenenada, daquelas que se usava em guerra uns mil e tantos anos trás. A primeira coisa a fazer, ao ser atingido, é cuidar de si; medicar-se, antes de mais nada. Não faz sentido sofrer uma agressão e correr para remediar seu algoz. Se quiser devolver o mal com o bem, é imperativo primeiro consertar-se por completo do que o outro lhe causou.
Mas é claro que encontramos desculpas – neste caso, sempre foi o outro que começou. Você só reagiu à provocação. Só quis responder à altura. Isto é deixar de tomar o remédio mas de bom grado consumir a droga. Troçar da vida alheia é um prazer reles e reconfortante como vinho barato – e o vinho barato é o pai dos prazeres vis.
Há então, em oposição à vida inconseqüente, a idéia de que todos os prazeres são pecaminosos e abomináveis – idéia da Igreja, essencialmente antagônica a Roma Antiga, a sua maravilhosa arte pagã e as suas festas em homenagem a Baco; idéia de braços e pernas ao encontrar eco nas pessoas – mas se não houvesse diferença entre cada um deles, seriam um só.
Existem, portanto, prazeres abomináveis por sua natureza destrutiva; prazeres baratos e dispensáveis, parnasianos, a satisfação pela satisfação; e aqueles absolutamente não condenáveis, porque são conseqüência e não objetivo. É a constante guerra interna que nos faz percebê-los e classificá-los, pois a verdadeira arte da guerra não é o uso engenhoso de venenos, átomos pesados e homens dispostos a morrer, mas do cérebro em função do próprio corpo. Sempre partindo da individualidade, mas jamais limitando-se a ela.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Swallowed in the Sea

Gostar é instantâneo, odiar é inesquecível. A frase de um livro que eu li com uns onze anos ainda me vale, e como. É claro que a experiência própria me fez modificá-la um pouco – o ódio não é propriamente inesquecível, mas muito menos instantâneo. O ódio verdadeiro, se é que posso falar com propriedade deste, vai-se sedimentando tão devagar que é justamente por isso mais difícil de ser removido. Mas não nos alonguemos; quero aqui enfatizar o quanto nós sabemos bem o que não queremos, ao menos de modo mais consistente do que aquilo que queremos.
É a lei da eliminação. Diante de uma incerteza – e assim como a célula é a do corpo, a unidade fundamental da vida é a incerteza – rapidamente nos livramos do mais improvável. A letra que contém a resposta mais absurda, o bar mais cheio de babacas, a profissão na área que pior vamos na escola.
E mesmo quando eu não sei direito o que quero ser, me sinto contente por saber o que não quero. Não quero ter uma profissão que torne as pessoas piores ou mais burras, mesmo que isso signifique viver com o temível salário de professor. Não quero fazer parte de um desses casais de que todo mundo já pensa direto que pra alguém tão feia estar com um cara tão lindo tem que ser muito boa de cama, porque onde fica o amor? O que isso faz, a longo prazo, com a confiança mútua, com a autoconfiança? Gente bonita demais nos padrões de passarela e internet me cansa, me assusta. É bom estar com aquele que é o homem mais lindo do mundo pra mim e pra mais ninguém, e que de algum modo, reciprocamente, vê o que ninguém mais vê.
Não quero chegar aos 25 anos ainda morando com a mãe, explorando a boa vontade familiar, sem nenhum objetivo na vida além de colocar uma saia de cintura alta e o salto novo que custou todo meu salário pra encher a cara e conseguir uma foda – uma diferente a cada semana.
Não quero, por outro lado, trabalhar duro demais porque o objetivo não é ser rica demais. Nada de luxos, nada de fortunas gastas em bobagens. O dinheiro é literalmente remédio. Sua ausência mata do modo mais desumano. Seu excesso aniquila os valores, troca o amor por interesse, e no fim das contas é tão letal e implacável quanto o outro extremo.
Não penso mais também em mudar o mundo, em fama – porque quem é que quer mudar o mundo apenas pra que as pessoas vivam melhor?
No campo intelectual, tudo o que tinha pra se dizer de revolucionário já foi dito, e não sou das ciências exatas, nas quais ainda há muito a ser descoberto, e dito, e contestado, e aperfeiçoado duas, dez, cem vezes. Quem realmente muda o mundo nesses tempos é quem possui esse estranho altruísmo de querer tornar-se melhor levando os outros consigo – os que estão ao seu redor. Como quem joga uma mensagem ao mar, atingindo pouquíssimas pessoas mas sabe que nenhuma delas ficará indiferente. Creio que no tempo certo as pessoas certas encontrarão as minhas garrafas.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

We are not questioning God, just those He chose to carry on his cross


Tudo é maquiado e nem por isso deixa de ter seu fundo de verdade. Uma mulher é linda de maquiagem e nem tanto sem, mas quando lava o rosto, não deixa de ser mulher. A história de Jesus, como qualquer história mitológica – porque é assim; a crença alheia é mitologia, a nossa é fato consumado –, possui seus ajustes pomposos, sem no entanto deixar de ser uma belíssima história, um belíssimo exemplo, talvez acima do próprio Deus.
Sou cristã, sem me preocupar com religião. Já estive diante de padres e pastores e me foi bastante desconfortável – por incrível que pareça, menos na igreja evangélica. Li Zíbia e Mônica Carvalho e senti grande paz interior, mas ainda assim não concordei com tudo. Sei que seguir dadas regras – das quais o boníssimo Jesus nunca falou em vida, porque estava preocupado em pregar e executar o amor ao próximo – não garante a salvação de ninguém.
Acho altamente provável que exista um Deus, onipotente, onipresente, onisciente, mas adepto do laissez-faire. Ele se preocupa com nosso bem-estar e caráter em geral, mas não está preocupado em nos punir porque deixamos a toalha em cima da cama ou demos a salada pro cachorro. Isso se chama sua mãe e é um evento inteiramente mundano.
E este Deus certamente enviou um homem de bondade inigualável no mundo – inigualável porque não nos esforçamos o suficiente, mas por outro lado ninguém quer desperdiçar cada segundo da vida com altruísmo. Ele era um homem como nós, passível de erros, mas os cometeu certamente no menor número possível. Que os cometeu, tenho certeza; se Deus quisesse colocar um representante perfeito no mundo, ele não seria um homem.
Pouco me importa se Jesus ressuscitou Lázaro, transformou água em vinho, curou leprosos com um toque, morreu e reviveu pra depois ser levado pelo Espírito Santo em glória infinita. Estes fatos podem ser apenas uma maquiagem para a história, mas não é esta sua essência. É preciso ver além do esplendor fantástico que é feito apenas para conquistar, pois um livro com uma bela capa atrai, mas é a história, a essência, que mantém – ou não – o interesse. É o que há por detrás das aparências que determina se o que é belo também é bom.
E o conceito do que é bom é algo a ser estudado cuidadosamente, com conhecimento de causa. A religião é um mecanismo vivo, deve ser questionada com respeito e inteligência. Não me curvarei diante das regras de humanos como eu apenas porque estes estudaram teologia e eu não. Ninguém pode comprovar que tudo da bíblia de fato aconteceu, e obviamente muito do que aconteceu foi omitido por questões de bom-senso e espaço. Daí vem alguém te dizer que “não pode ficar porque na bíblia ninguém fica”. Mas na bíblia Jó “tomou fulana por concubina” e Davi mandou o melhor amigo pra guerra por causa de uma mulher, então isso pode mas ficar não pode? A bíblia também não menciona vacinas, computadores, naves espaciais, então isso tudo é do capeta? Com um pouco de raciocínio qualquer um vê que o que a bíblia não menciona é por questão de época, não porque é errado.
Prefiro não guiar-me por estes caminhos falhos, criados por padres, pastores, ou qualquer coisa equivalente. Jesus era humano, mas não tinha como profissão sacerdote. Um escritor por profissão e não por vocação escreve qualquer coisa por dinheiro, e o mesmo acontece com os líderes das igrejas. A crença, seja ela vinculada com a religião ou não, é uma sustentação, um escudo contra as agruras da vida. É algo positivo, e por isso, libertador. Liberta da dor, do medo. O que é imposto através do rótulo de religião aliena e sufoca; seguir todas as ordens de um presbítero não é a garantia de salvação, é a garantia de uma vida robótica, de enganos. Todo aquele tocado pelo amor sincero torna-se conhecedor de seus próprios limites, de sua própria moral, e não precisa de regras criadas por outros; cada um sabe o que é bom para si quando possui a verdadeira e abstrata pureza divina, esta que o homem com a maior cruz do mundo tentou nos ensinar a alcançar.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

This is the correlation of salvation and love.

  As pessoas com quem você se importa e a proporção na qual o faz – nisso há uma linha tênue tal qual o medicamento e o veneno. Não se importe com ninguém e tenha uma vida vazia e com boas chances de sucesso. Importe-se com gente demais e espere receber ao menos um reconhecimento post-mortem do Vaticano. Muito calor humano pra pouco progresso capitalista.
E a resposta para a eterna questão “mas em quem devo confiar” é dada ao longo de meses, anos, a vida toda talvez. Quantos casais que passaram trinta anos juntos se afundam em mentiras e tédio e se separam? Quantos melhores amigos de infância roubam a mulher ou o cargo um do outro e passam a se odiar? Quantos pais não falam com seus filhos há décadas?
Eu confiava em muita gente. Em qualquer um, basicamente. Tive muitos esboços de personalidade – nem posso saber se este se tornará perpétuo. Muitos amigos se foram nessas mudanças. Muitos se foram na última, mesmo sem ainda saber.
E não pensem que não me é penoso também.
Dói a solidão de não fazer parte de um estereótipo, mas dói menos que me adequar a regras frívolas – um peso, uma cor de cabelo, um tipo de roupa. Dói ver que não tenho mais nada a ver com pessoas com quem eu tinha grande afinidade e com quem dividi meses ou anos felizes. Dói ter reduzido minhas amizades a um grupo ínfimo e ainda assim não saber bem se vale a pena continuar confiando, cuidando, mantendo-as numa grande lacuna da minha vida.
Mas dói menos que ter que forçar um sorriso e uma palavra educada, que ter medo de compartilhar qualquer coisa.
Tenho um medo muito grande de estar diante de algo crucial e fazer a escolha errada. Acredito que não tenha feito todas as escolhas erradas, mas ainda assim angariei pra mim um caminho um tanto íngreme. E eu nunca percebo de imediato. É sempre preciso chegar à beira do precipício para então, penosamente, dar uns passos pra trás e ver no que eu estava prestes a cair vertiginosamente.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Walking on warm lights


Posso amar sem compreender?
Porque eu amo meus irmãos. Loucamente. Amarei meus filhos. No superlativo sintético de loucamente. Mas não compreendo as crianças, nunca consegui, nem mesmo quando era uma delas. Eu era uma deslocada, sem saber o que eu era, sem saber o que o outro era. Fui jogada num cenário desconhecido sem saber quais eram meus superpoderes. E, se por um lado um sorriso de dentes de leite me acalenta o coração, por outro me irrita a balbúrdia de suas vozes estridentes berrando obscenidades numa idade em que estas são mais que inaceitáveis, os rostinhos que serão imberbes ainda por muito tempo reluzindo por uma maldade feita com seus próprios amiguinhos. Não compreendo o processo pelo qual um anjinho, quase sempre amado por sua família e doutrinado com os melhores valores possíveis, se torna uma criança insuportável, boca-suja, que dá escândalo com outros moleques seis da manhã num ônibus. Diariamente e daí pra pior.
Quase os invejo em sua ignorância de poder escolher o caminho errado apenas por não saberem que é errado; uma vez extinta a ignorância, uma vez flamejada a treva, uma vez iluminado o caminho correto, é imperdoável seguir adiante na escuridão.
E não seguir adiante na escuridão é um desafio hercúleo constante. Os passos trôpegos e incertos que adentram o negrume do caminho do ignóbil em nada se comparam à sofreguidão da marcha dos retos de coração. Pois enveredar-se na luz é enxergar o caminho mas não enxergar suas armadilhas, e apesar disso ter a certeza de que é esta a trilha que leva ao manancial das virtudes, mas não aos virtuosos pois estes delas não precisam; não aos inteligentes, aos belos, aos ousados, aos heróis, mas aqueles que a buscam de todo o ser. Aqueles que não sepultaram na alma seu pedaço de anjo amado pela família e doutrinado com os melhores valores possíveis.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

How does it feel?

Uma peça perfeitamente quadrada pode ser justaposta a qualquer outra peça que possua um lado plano. Já a peça de quebra-cabeça, complexa, cuidadosamente delineada e apta apenas a determinados e limitadíssimos encaixes, encaixa. Não fica apenas ao lado, não se permite ser facilmente remanejada.
Se encaixar é uma coisa muito mais fácil do que pertencer. O que acontece na maioria das vezes é que aquele que se encaixa em qualquer lugar dificilmente pertence.
Pertencer, intransitivamente. Porque quando se pertence, não se pertence a. Não se pertence a pessoa amada, ao ramo em que se trabalha. Se pertence. É o encontrar da lacuna do mundo que lhe cabe por direito divino.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Let's just breathe.

Talvez no futuro os rumos da vida caibam numa equação, não importa de qual sorte. Gêmeos univitelinos que morrem de infarto no mesmo dia me fazem pensar que será pura química e biologia – particularmente agradável pra alguém que é definitivamente de humanas mas com uma quedinha pelo desenrolar do DNA.
Porém a linearidade de acontecimentos que não competem à biologia me faz pensar numa equação complicadíssima de matemática e física, com geometria plana, espacial, analítica e cálculo de Hertz. Uma perspectiva assustadora mas fundamentada na minha própria experiência.
Linear. Nunca igual, mas um caminho desenrolado em dèja vu. O princípio básico de toda a existência é olhar pra trás e se sentir imbecil ad infinitum. Talvez agora eu esteja sendo estúpida em um modo que jamais posso imaginar, mas no futuro verei claramente e me envergonharei. Isso é a evolução. Muito possivelmente as briófitas pensaram: porque é que eu não vim pra terra antes?
É isso o que faz a literatura clássica parecer clichê e batida se você não tem a maturidade – eu estou adquirindo-a agora. Agora é uma idéia comum, mas na época era revolucionário, ninguém havia pensado nisso antes. Agora é uma idéia comum de que ano passado eu era um lixo, mas quando eu estava lá estava bela e satisfeita comigo mesma.
Você simplesmente sabe quando está no caminho certo – o certo pra sua alma, não o moralmente aceitável, mas também não o esperado pelas pessoas ao seu redor. Você sente aquela felicidade sublime, que nada tem a ver com os arroubos da juventude, mas também não é a sensação de estar no fim da vida e chorar de emoção com uma planta nascendo. É apenas aquilo que acontece quando você encontra o equilíbrio, entre corpo, alma e mundo. E não há biologia ou matemática que explique essa parte do caminho.
Talvez no futuro os rumos da vida caibam numa equação. Mas eu nunca fui boa com contas mesmo.


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

The C(o)urse of Nature

Meu dia começou detestável. Mal dormi por causa do frio, não consegui ir pra escola. Fui pro quarto onde dormem meus irmãos e minha vó esperando que lá estivesse melhor por causa do calor humano, mas o frio estava praticamente o mesmo, e não consegui dormir por causa dos roncos. Juro, ficar perto da minha vó enquanto ela dorme é a décima primeira praga enviada à Terra. Não consegui fazer nada o dia todo, exceto jogar jatos de secador pra me aquecer. Minha manhã e tarde toda foi a porra de um pesadelo completo, e odiei minha vida quase tanto quanto odiava em 2008, o pior ano do mundo, meu number of the beast particular.
Mas aí o Diogo me ligou pra dizer que vinha pra cá pra gente ver um filme, e pude ver o frio com outros olhos. Foi ótimo, nossa. A melhor coisa do mundo é ter uma boa surpresa num dia que parecia completamente lixo.
Ontem foi quase ótimo. O Diogo foi me encontrar na saída da escola pra gente almoçar juntos de novo, mas dessa vez eu tomei chuva. Almoçamos na padaria, com o céu nublado lá fora e bem quente lá dentro. Me senti um bocado inglesa, por mais patético que seja dizê-lo. Ficamos fazendo fumaça no ar. Mas tomei chuva, o ônibus demorou uma eternidade e tive que assistir Hora Acme ao invés de Padrinhos Mágicos. Não basta o aborrecimento pelo frio, tem que assistir Cartoon (a Nick era “cortesia por uma semana”, QUERO MORRE).
A única coisa meramente divertida na escola foi me esconder debaixo das escadas com Ariane, Sun e Lanina pra não sermos jogadas lá fora no frio cortante sem piedade durante o intervalo. Tinha uma garota e um moleque evidentemente mais novos que a gente escondidos lá quando chegamos, e ficamos os seis bem quietos ouvindo as mulheres que trabalham na escola conversando acima de nossas cabeças, e de algum modo isso foi infinitamente engraçado.
E hoje me pus a reler a carta final do Juiz Wargrave, coincidentemente quando começou a tocar Dance Dance Christa Päffgen. O Raffa teria orgulho de mim, juntando tanta awesomeness.
Sendo menos awesome, descobri que sou incapaz de acertar exercícios de probabilidade e muito provavelmente vou zerar matemática até no Enem, mas por outro lado sei tudo sobre a situação fundiária do país e tenho alguma chance em física se houver perguntas teóricas de elétrica e mecânica o bastante.
Sério, isso me mata. Graças ao bom Deus desisti de cursos concorridos. Seria uma frustração enorme. Quero dizer, será muito maior se eu não passar nem em Letras – e não o digo com desprezo, mas a concorrência é baixa e gosto de supor que todo mundo é ruim em exatas como eu.
Meus motivos de fazer Letras meio que estão acima de minhas próprias compreensões. A grade curricular de repente me parece fascinante. Meu trabalho vai contribuir para o mundo – é um fator decisivo na minha escolha. Não sou a pessoa mais decente do mundo mas odiaria ser um instrumento de disseminação de babaquice quando posso tentar ensinar as pessoas e fazê-las gostar de ler. Lembrar a mim mesma que eu posso nunca ser notável, mas posso ensinar português pra alguém que será notável no futuro.
E, menos altruísta, eu não quero perder minha predisposição pra escrever, pelo contrário, pretendo ampliá-la até o ponto de poder escrever um livro razoável. Estaria mentindo se dissesse que não é meu sonho, mas seria ingênua se quisesse seguir qualquer outra carreira que não professora ou tradutora e mesmo assim me atrever a publicar algo. Quero dizer, eu não evoluiria, apenas continuaria escrevendo no nível que escrevo agora – respeitando gramática e ortografia e sem grandes dificuldades para argumentar ou descrever – mas pra uma mulher adulta tencionando publicar um livro não será o suficiente. Mal me é suficiente agora. É, na verdade, obrigação de qualquer criatura pertencente ao gênero Homo e o fato de muitas delas não cumprirem com isso não me torna brilhante. Nem mesmo comparativamente.
E meu Deus, esse tem sido um ano difícil. Me sinto estranha em relação às minhas amigas. Eu não quero mais comentar minha vida, porque eu me conheço, e conheço uma característica comum a qualquer mulher: você sempre se compara. Inconscientemente. De modo tão tênue que quando a idéia é incurtida na sua mente, você não se dá conta de que não é sua. E a culpa não é de ninguém senão da natureza feminina. Que te faz querer que seu cabelo fique como o da sua amiga, que você sirva nas mesmas roupas que ela, que o seu namorado faça o que o dela faz. É por isso que eu tenho estado tão distante, tão avessa a conversas íntimas e confissões. Acho que isso faz parte do meu feitio agora. Já tenho tanto com que me preocupar, não preciso estragar minha pouca mas estável auto-estima desejando que coisas que estão perfeitamente ok estejam diferentes. É claro que você tem que buscar a felicidade, mas puta que pariu, seu namorado é ótimo e tem chegado algumas vezes até ao que você considera perfeição, seu cabelo está hidratado e não há problema nenhum com as suas roupas, então mergulhe no que você possui e encontre a felicidade em meio àquilo. Ame o que é seu. Se a natureza te fez de cabelo pixaim e você gastou mil reais no salão pra deixá-lo liso – pra ir contra a natureza – porque você não pode simplesmente ir contra a natureza de querer a vida alheia?

(escrito em 4 de gosto)

Rare. Precious.

Hoje a chuva salvou minha vida. Fui me arrumar pra escola com aquela cólica com a qual você paga por qualquer pecado passado e futuro, mas seis horas ela começou a cair bem forte e, que chato, tive que me enfiar num moletom velho e no meu lindo edredom de volta.
Aí às sete o Diogo me ligou pra confirmar que estava indo pra casa da vó em outra cidade por uns dias. Ele estava procrastinando isso desde o começo das férias. Vai ser bom pra ele estudar em paz por uns dias, lá deve ser super calmo. Tenho muita coisa pra estudar, acho que isso ajuda.
Não vou ficar triste porque desde que nós voltamos (o que foi no dia onze e eu só contei pra Ariane porque ela adora historinhas de amor e acha que eu e ele somos as pessoas mais admiráveis do mundo) ele tem sido muito muito muito amor. Quase que outra pessoa, só que ainda com a essência que eu amava mesmo nos nossos piores dias. Me dando rosas, me cobrindo de atenção, se decidindo pela profissão que ele ama mesmo que o salário seja menor. E eu dou todo o apoio do mundo. Nunca vivi com luxo e nunca vou exigir que ele me dê luxo. Quero uma casa confortável, dinheiro pra comprar meus livros preferidos e minhas roupas de preços moderados, e um filho adorável. Ele não precisa me dar mais nada. Jóias ou viagens pra Europa quando eu quiser, champanhe de trezentos dólares e sapatos Prada. Nada disso. Quando essas coisas se tornam banais e você pode ter tudo o que quiser, uma hora vai ser infeliz. Não vai mais ter o que querer, daí você vai começar a desejar ter a vida tranqüila de uma mulher de classe média que precisa trabalhar o dia todo e entra em desespero quando a diarista não vem. Porque viajar pra Europa com certeza é a melhor coisa do mundo, e se você puder fazê-lo o tempo todo, nem vai mais se importar. A coisa perde o valor quando se torna constante.

(escrito em 2 de agosto)

Cadence

São as pessoas, e não as coisas. De verdade mesmo. Eu moro numa casa pequena, num bairro afastado, acordei cinco e vinte pra pegar o ônibus pra escola, o esmalte que eu passei ontem já lascou todo e eu devia ter lavado o cabelo hoje, mas eu nunca estive mais feliz. Tudo tem seu tempo e o tempo do perfeito meio-termo entre nossas vontades chegou. Eu estou soterrada sob tanto amor e não poderia sentir-me mais viva, mais importante no mundo.
Meu dia começou extremamente cedo, mas sem nenhum problema. Uma vizinha estuda na escola, no segundo ano, de modo que não preciso passar pelo desconforto que é ser a pessoa mais velha do ônibus que fica sozinha ou coisa assim. Sei lá, minha cabeça tem dessas. Ela é legal.
Abracei minhas quatro coisas lindas, as únicas coisas que mantém parte da minha sanidade matinal intacta, e fui exemplar durante as aulas – mesmo que no primeiro dia após as férias seja meio que fácil pra qualquer babaca sê-lo.
O Diogo foi me buscar na escola. Me trouxe almoço e fomos comer na praça onde as pessoas fazem prova prática pra tirar carta. Níveis de amor da minha mãe por ele sobem infinitamente por ele ter me levado nuggets assados ao invés de me deixar comer doces na rua.
Fomos estudar e eu quase dormi em cima do livro de história. De verdade mesmo, sabe quando você pisca e suas pálpebras trancam magicamente? Mas até que passou rápido. Me enfiei no ônibus de volta e lá permaneci, juro, por mais de uma hora. Afundei o pé na terra fofa da casa da vizinha. A Nick não tava funcionando e é o melhor canal do mundo do meu pacote. Aquela parte horrível do seu dia que momentaneamente apaga a boa da sua mente. Mas daí fui ouvir Adele e ler um chic lit levinho pra relaxar e o Diogo me ligou. Ficamos uma eternidade no telefone. Ele está tão mudado, meu Deus. Quero me ajoelhar e agradecer por todas as minhas preces terem sido atendidas. Não adianta pedir dinheiro ou paciência. Apenas desejo que sempre estejamos bem, porque a única coisa mais poderosa que uma pessoa que age movida pela raiva é uma que age movida pela felicidade. Eu sei que daí posso ser paciente e conseguir tudo o mais. Ele sente tanto minha falta que quase não quero mais voltar pra internet. Me ligou todos os dias, veio pra cá sexta depois da biblioteca porque era aniversário da minha irmã – ela deu o primeiro pedaço de bolo pra ele, até. Veio ontem à noite sem eu nem pedir. Vai fucking me dar uma camiseta do System. Deixou de ser obcecado com USP e profissão extremamente bem remunerada e cheia de gente infeliz. E eu, que vos escrevo sob meu enfoque, tornando-me perfeita a vossos olhos, sinto o peso dos dezessete nas costas. De que eu obviamente não era perfeita e também precisei de alguma mudança. Não por ele, não tanto por nós, mas sobretudo por mim mesma. Eu deixei vir à tona com toda a força a personalidade que combina com esse cabelo. Sutil, comum, mas nem por isso menos interessante do que a anterior – mera questão de ponto de vista.

Helpless, I’ve become so helpless to your touch, so, touch me somehow. Restless, you leave me restless, breathless wait for me. The closer I come to you, the closer I am to finding God, you’re a miracle to me. Burning like Joan of Arc just to see you, just to feel you. Cadence, I’d dance with the death, ‘cause I believe, yes I believe, yes I believe.
(escrito em 1º de agosto)

No hero, no love, no glory

“It was like something from an old movie, where the sailor sees the girl across the crowded dancefloor, turns to his buddy and says: see that girl? I’m gonna marry her someday”
Dizem que o melhor não é quando você chega ao lugar desejado, e sim o caminho. Não sei em relação à vida como um todo, mas posso dizer que no que diz respeito aos romances, caminho mais horrível não há. É um despenhadeiro tortuoso no meio do deserto em busca de alguma relíquia de qualquer faraó que ninguém nem sabe se existe. Sob o sol escaldante. Sem mapa.
É tão bom chegar ao ponto onde se pára de cuidar exclusivamente da imagem, buscando ser atraente o suficiente, e passa-se a cuidar muito mais do psicológico, buscando conduzir o relacionamento por águas calmas e límpidas. Onde a viagem suicida pelo deserto se torna, muitas vezes literalmente, um tranqüilo passeio de balsa em Veneza. Com despesas pagas por terceiros.
A garota que chega na escola um pouco depois do início normal das aulas e quase instantaneamente é vista pelo marinheiro, de fones e abraçada aos cadernos olhando pra chuva, talvez demonstrando vulnerabilidade, completamente insegura sobre a vida nova e nenhum pouco consciente do que tinha começado a despertar – ela estava entrando no começo do fim. E isso era bom porque esse fim é bom. O fim da procura. O big boss do primeiro level.
Algures no passado já tinha experimentado toda sorte de pequenas decepções. Não viu quem esperava, ou viu e estava com outra. Pavoneou-se com roupa nova e maquiagem que julgava fabulosa e, se não fez papel de ridículo, não obteve também êxito. Escreveu no diário poemas irremediavelmente desesperados. Foi motivo da chacota masculina por variados motivos.
Que o diabo carregue todas as revistas femininas e seus testes que invariavelmente respondem se “ele” está interessado. Todas as matérias que juram desvendar qual look é irresistível a absolutamente qualquer espécime masculino. Todas as dicas de cabelo e maquiagem pra noite. Todos os debates sobre primeiros encontros. Todas as soluções milagrosas e irreais que essas bíblias do frívolo desespero conjugal prometem em suas capas.
Mesmo depois de o marinheiro apresentar-se timidamente e de trocarem os primeiros beijos, continuaram as decepções, as revistas femininas, os versos rabiscados. Não ficaram juntos muito tempo a princípio, e provavelmente não imaginavam que um voltaria aos braços do outro. Entregaram-se de volta às suas existências de poucas novidades, manifestaram algum interesse por outras pessoas.
Inevitavelmente, as outras portas se trancaram. Só restaram os dois numa sala cheia de portas trancadas, apenas uma delas aberta pra um corredor a infinito e além. E os dois perceberam que se um parasse, o outro também pararia, mas que sua vontade imensa era mesmo trilhar o único caminho disponível lado a lado. Que o fechamento de portas que vislumbraram desejando um pouco foi a melhor coisa que podia ter acontecido, e uma luzinha tênue acendeu.
Era como um grande castelo parcamente iluminado, cheio de cômodos de portas, onde uma multidão tateia pelos cômodos em busca de algo que nem sabe o que é. Esbarram-se, seguem seus caminhos, experimentam portas e muitas vezes voltam a se esbarrar. Até que o marinheiro e sua garota – ela exausta da procura, ele tendo investido poucos esforços mas agradavelmente surpreso em reencontrá-la – se vêem sem mais ninguém por perto, sem mais nenhum dos obstáculos que precisaram transpor quando era cada um por si. Chegaram ao segundo nível e nada mais importava. Mal tinham consciência de que existia mais gente naquele castelo, tateando na escuridão por ainda bastante tempo, como haviam estado até momentos antes, tamanho era seu enlevo. Olharam um pro outro e perceberam coisas que não percebiam antes. Uma cicatriz, um par de olhos brilhantes, longas unhas escarlate, pêlos ralos e castanhos insinuando-se através do botão aberto da camisa. E não queriam mais parar de olhar.
Ela trocou as revistas femininas por bons livros, a elaboradíssima maquiagem caça-homem por sua espontaneidade nenhum pouco artificial, parte do barulho das bandas adolescentes por algum jazz e blues vez ou outra, os amigos que a veneravam apenas pela irreverência por aqueles que a admiram pelo que sempre foi, sempre será e nunca mais vai tentar ocultar, porque é de fato seu melhor.
Se confrontadas, a Nova diria à Velha que se envergonha imensamente dela, que replicaria: “você é que é uma chata, uma velha, que não sabe mais aproveitar a vida”. A primeira, em sua sabedoria relativa, sorriria com condescendência e diria que tem sido muito mais feliz do que você, Velha, jamais foi, proferindo um absurdo “você vai entender quando for mais velha”.

(escrito em 30 de julho)

Back In

Engraçado como minha mente parece ter deixado tudo pra trás, junto com o monte de entulho e quinquilharias que naturalmente se deixa numa “casa velha”, especialmente quando a “casa nova” é menor.
É como um coma. Anestesiada, me distraindo em outra dimensão como se esta fosse a coisa mais natural do mundo, e não a em que eu sempre vivi.
O Diogo me ligou todos os dias sem exceção, sem eu nem pedir. A programação na tv a cabo é boa. O lugar é agradável ao entardecer e de noite, e durante o dia eu posso simplesmente estudar e ver tv. É estranho ter vizinhos mas ainda não se mostraram os piores que já tive. Meu índice de sono é o mais diminuto registrado desde quando eu acordava sete da manhã – ou mais cedo, o que era um bocado aborrecido porque só tinha programa de padre – pra assistir desenho a manhã toda, com um pacote de bolacha com personagens da Looney tunes de chocolate branco. Como foi boa minha infância, no que diz respeito aos prazeres da mesa! Tanta coisa que guardarei eternamente no coração das minhas papilas gustativas, que custava tão barato, e entretanto hoje em dia nem existe mais. Bem entendo porque dizem que cada geração é pior. Meus irmãos – pior, meus filhos – jamais comerão todas essas coisas que são o próprio Bon Dieu na nobre forma de comida.
Mas estava eu a devanear sobre meu retiro espiritual da internet.
Penso no meu twitter como o pai extremoso pensando no filho querido que foi concluir os estudos na Europa – com vago pesar por deixar o primogênito se virar sozinho tão longe, mas com a sensação de dever cumprido, sabendo que esse tempo fará bem para ambos.
Penso nos meus amigos indistintamente, sem devoção. Ninguém vai entrar na faculdade por mim, e atualmente 80% não é entusiasta do meu namoro, mas deixo-os a sentir minha falta. Se me amam tanto quanto dizem amar, não faz diferença passar uns dias longe. Se não me amam, será muito conveniente poder descobri-lo.
No mais, tenho me adaptado bem, e passado bem. É certo que passei toda a semana com horrível dor de garganta e ouvidos sem razão identificada, amaldiçoando a evolução por não ter feito canais diferentes que não façam um doer em função do outro, e associando psicologicamente à mudança, mas não é grande coisa. Eu me conheço e sei que minhas reais dificuldades de adaptação incluem sucessivas crises nervosas indômitas e dolorosas pra todos os envolvidos. Essa é minha décima mudança. Pra quem já viveu em onze casas, é claro que eu abominava umas seis. Mas não esta, apesar dos inconvenientes.
Ao que parece, eu sou bonitinha aqui. Ou apenas muito borsois, de modo a despertar a atenção. Não se passa um dia sem que um espécime masculino estique o pescoço pra me olhar, e pela primeira vez não recebo olhares depreciativos. Não que sejam homens bonitos, mas eu já tenho o homem mais bonito do mundo dirigindo-me olhares apreciativos constantemente. E tentando prever qual seria o choque do bairro se eu tivesse ainda o cabelo roxo.
Pequeno parêntese pra dizer que eu amava infinitamente e, como tudo que se ama demais, odiava um pouquinho. Às vezes eu achava divertido ser olhada e parada na rua – por algo legal, não por ser uma gorda horrorosa – mas às vezes não estava no humor pra isso, queria apenas misturar-me à multidão castanha de jeans e camiseta comum. Não me arrependo de ter passado o roxo, mas também não me arrependo de ter passado o preto. Ambos foram impulsos, mas o primeiro, sabia eu, já estava ficando insustentável.
Daí que o Diogo disse e a família toda fez coro: graças a Deus você pintou o cabelo antes mesmo de saber que ia mudar (foi deveras repentino), senão você ia ser a estranha, não iam te deixar em paz, agora pelo menos você é só a que tem cara de burguesa.

(escrito em 29 de julho)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

and if i had one wish

    Mas que estranho egocentrismo reverso é envelhecer. Você sempre acha que é o mundo que está ficando cada vez mais louco, quando na verdade é você que o está descobrindo. Qualquer reclamação que comece com “hoje em dia” é extremamente clichê e despropositada. Penso em como era bom quando a maioria dos meus leitores acompanhava meu blog porque gostava de saber da minha rotina tediosa, e não porque me odeiam e curtem ver quando eu me fodo, como “hoje em dia”. Mas sentimentos poucos dignos sempre existiram, eu apenas não tinha tanto contato com eles. Porque antes eu era extremamente ingênua não tinha nada invejável. E pensando bem, é muito melhor agora.
Então eu tive uns dias ruins, mas não tem problema, porque meu aniversário foi perfeito. Sempre achei que todo mundo devia ter no aniversário aquele dia onde nada dá errado e todos se importam com as suas vontades.
Dói olhar pra pessoa que você ama e não reconhecer mais algumas características pelas quais você se apaixonou. É por isso que pequenos desvios são bons às vezes, pra que um possa valorizar o outro, mas também perceber que pode mudar pequenos gestos em nome de uma enorme felicidade. E sabe, o Diogo que eu comecei a conhecer no ano passado, aquele cara é incrível. Mas o que me deu rosas vermelhas, Morte no Nilo, uma massagem e um dia acima de qualquer idealizações é incomparavelmente melhor.

“Born march of 86, my birthday is coming, and if i had one wish yeah you'd be it”

domingo, 10 de julho de 2011

and i want you to know i am my hair.


Meu cabelo é a perfeita metáfora pro meu relacionamento. Eu cuidava tanto, achava que cada vez estava mais perto de conseguir exatamente o que eu queria, e no fim das contas, uma mudança brusca e irrevogável – mas que eu devia ter visto chegar. Eu sabia que uma hora teria que tirar o roxo do meu cabelo, sabia que uma hora se tornaria insustentável. Mas eu adiava porque achava que precisava disso pra viver. Achava que tê-lo me tornava especial. Não conseguia me ver de outro modo, senão comprometida com a mesma pessoa até o fim dos meus dias e com meu cabelo incrível. Parecia certo pra mim, parecia ridículo pra qualquer outra pessoa. Ao menos tive a coragem de seguir tudo o que eu acreditava, mas essa é minha linha divisória. Não sei o que o tempo pode fazer com um relacionamento que fracassou, mas certamente pode deixar meu cabelo mais forte.

terça-feira, 28 de junho de 2011

falling


Meu amor me derruba sabendo que vai me estender a mão, me estende a mão sabendo que corre o risco de me derrubar. Meu amor tem paixão pela arte, pela ciência e pelo intangível, mas meu amor não tem paixão por mim que estou bem ao seu lado. Tem é amor, amor que mais lindo não há. Tem é vontade de passar a vida comigo, ter filhos comigo, não posso reclamar. Mas ainda prefere sacrificar algumas certezas por grandiosas incertezas. Meu amor fala das coisas bonitas que espera encontrar em terras distantes, mas não fala que estou bonita quando me maqueio pra me aninhar em seus braços. Meu amor me constrói o caminho e me faz sua lua. E eu absorvo sua grandeza para refletir uma pequena parte dela a qualquer um que se mire em mim... como me miro em meu amor, minha rocha, meu barco no meio do oceano, meu tudo. Que, com seu olhar que divaga um pouco demais pelo futuro e seu abraço quente, é perfeito a seu modo sob meu olhar marejado e um tanto masoquista – como tudo que há de mais belo, com sua parcela de dor, intensa mas brevíssima se comparada à sua recompensa.

domingo, 26 de junho de 2011

Where's Wally?

Eu não sei se cresci ou se perdi minha essência, não consigo me lembrar do que eu realmente era. Perdedora, apaixonada, inteligente ao extremo. Vendo por esse lado, só o status da inteligência mudou. Eu escrevia bem – inocência, dom. Eu tinha tantos sonhos e tantos planos – mas tudo ainda era distante, eu podia idealizar o futuro como bem entendesse. Todo mundo achava bonitinho eu ler Sargento de Milícias aos dez anos, ir pra São Carlos e dizer que queria estudar Astrofísica lá aos doze. Eu me via como uma visionária, acreditava que era especial porque tinha um dom e algum dia encontraria alguém reconheceria isso, só então eu conheceria o sentido da vida. Bem, eu encontrei. Já o dom, se algum dia existiu, aparentemente se foi. E não é simples como eu imaginava. Não é só ser correspondida e acabou.
Como posso dizer que era aquela minha essência, se eu não tinha nenhuma consciência do mundo? Se eu não sabia quão dura é a busca pela vaga numa boa faculdade, pela harmonia no relacionamento – a pressão me massacra agora e sei que mais pra frente surgirão mais preocupações, muito mais adultas que essas. Se eu achava que simplesmente seria encontrada no meio da multidão como um Where’s Wally dos talentos no qual eu chegava a resplandecer perto dos outros?
Hoje eu sei que sou quase ordinária na escrita e nas relações interpessoais. Sei o quanto é difícil tentar ser uma boa namorada, uma boa estudante, boa em tudo – e muitas vezes falhar miseravelmente.

domingo, 19 de junho de 2011

Abandonei.


 Abandonei meu blog, no qual eu descrevia cada sonho bizarro e cada detalhe excruciantemente tedioso dos meus dias não muito tempo atrás. Mas continuo cheia de incertezas e medos, alguns dos de sempre e muitos novos. Já não faço mais questão de trazer à tona tudo que me acontece e colocar em discussão entre todos meus conhecidos, pelo contrário, me irrita profundamente ser interrogada sobre meus problemas, meus fantasmas, meus dias bons.
A massa disforme de pensamentos aqui presente tomou forma de texto reflexivo, subjetivo, o oposto do diário que costumava ser, mas agora reduziu-se a quase nada. Eu reduzi-me a quase nada do que eu era.
Não me importa mais descobrir o que sou, o que me importa é a mudança na qual venho trabalhando, dolorosamente premeditada porém assustadoramente repentina. Mais do que o mudar de cidade, o começar minha vida de fato e não a vida construída pela mamãe, mais do que os sonhos e os calafrios de sair de casa sozinha de certo modo – o crescer.

domingo, 5 de junho de 2011

Perfection is Overrated

 Quando você diz que algo “não é ruim”, pode ser que seja bom, pode ser que seja mediano. Já o “não é bom” dá a idéia – branda, mas ainda assim consistente – de que é ruim. O que leva ao pensamento de que há um correto, poucos mais ou menos e infinitos errados. Em todas as circunstâncias.
A perfeição é supervalorizada justamente por não existir. “Mas e se eu puder criá-la?” “Mas e se ela existir pra poucos?”. Amigo, preze por ser completamente adequado o maior número de vezes possível, é o suficiente. É melhor do que buscar pelo instigante, inimaginável, e tornar-se parte de mais um dos infinitos portais ou alternativas que estão incorretos.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

i could walk this fine line between elation and success

A finíssima linha entre se dedicar aos estudos, tentando assim garantir um futuro melhor, e ser infeliz. Outra, entre se divertir sempre que possível e acabar debaixo da ponte daqui uns anos.
Um cara morreu na USP – na USP, esse lugar mágico que qualquer um já ousou devanear em um dia estudar. Num campus de economia. E meu Deus, isso me afetou de verdade. Poderia ter sido meu namorado.
E se fosse, teria ele morrido feliz, sabendo que estudou freneticamente por dez, quinze horas por dia, deixando de lado diversão, descanso, e grande parte das vezes sua namorada, pra que seu arquitetado futuro brilhante jamais chegasse? Pra terminar a vida com um tiro na cabeça bem diante de seu carro no penúltimo ano de faculdade?
Não há fórmulas, não há garantias, apenas múltiplas possibilidades. Tenho desprezado a maioria das pessoas ao meu redor porque elas não se preocupam com futuro e uma boa faculdade, mas e se daqui uns anos estiverem em melhor situação que eu? É uma idéia odiosa, injusta, torpe, mas pode acontecer. Ou eu posso simplesmente morrer amanhã, com pouquíssimas memórias que me permitam dizer que viver valeu a pena, no fim das contas.
Definitivamente não sou equilibrada. Não no meu temperamento, mas tenho tentado não ficar em nenhuma das pontas da corda. Não vou me obrigar a estudar 12 horas por dia, nem perder a chance de fazer algo que eu me divirta de verdade – ultimamente, só ir no Porks já compensa todas as frustrações da semana.
Se a responsabilidade em relação ao futuro é uma piscina, eu sou aquela que senta na beira com as pernas mergulhadas e fica tomando uma coca, daí quando o calor aumenta muito, entra e fica lá num canto de pé na água (não-metaforicamente eu também sou assim porque não sei nadar).
Estou farta de pessoas que nem se aproximam da piscina, mas também me assustam aquelas que pulam de barriga.

sábado, 7 de maio de 2011

Temível Pégaso

Incrível como as pessoas se apegam a símbolos pra fingir que tudo está bem.
Tratam da morte do Osama como se fosse o fim do Mal. É como estar de volta à época da inquisição, quando a morte de uma feiticeira era vista com grande alívio – mais que isso, com uma satisfação animalesca em matar. Mas não por gostar de sangue quente, mas por ideologia. Patética, absurda, mas já infundida no senso comum.
Não existem bonzinhos. Porque, dos infinitos pontos de vista que se pode ter sobre um tema, pelo menos um dos ângulos o verá como vilão.
É sabido que Osama já esteve do outro lado. Durante a guerra fria, o líder da Al-Qaeda foi recrutado, vejam só, pela CIA. Ontem uma menina do cursinho usou o termo “cobra criada dos EUA”, uma definição inteligente e precisa.
E sinceramente, creio que as autoridades não dão a mínima pras três mil pessoas que morreram, gerando luto mundial – porque nós assistimos à cobertura do atentado com as lentes americanas –, pânico completo (mesmo que eu fosse muito nova pra saber disso na época) e um filme ruim com o Robert Pattinson. Eles se preocuparam com o impacto sobre o Pentágono, e sobretudo por terem tido uma falha na segurança.
Enfim, o ponto de vista que eu quero deixar claro: Osama bin Laden morreu por puro e burro simbolismo, considerando que esteja morto. E se não estiver, mais burrice ainda, vão acabar pagando caro sem nem terem matado o cara.
Sua morte pode fazer os americanos respirarem aliviados por algum tempo – sabe-se lá quanto tempo? – mas eventualmente, haverá novos ataques, novos revides, mais ataques. Nem sei mais quem foi que começou isso. Caso alguém tenha paciência pra ler toda a história do terrorismo, isso aqui me parece bom (claro que eu não li tudo).
O ataque foi como cortar um ser que se reproduz por bipartição achando que vai matá-lo. É como Medusa, grandiosa e temível, sendo destruída por Perseu, mero mortal, que apenas usou seu escudo para refletir a imagem da Górgona de volta – resta saber como será o Pégaso da nova ordem mundial após a Terceira Grande Guerra, desta vez química, física e biológica, tão letal que quase quero pedir ajuda de Atena e Hermes.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Letter to D

Vanuatu, 6 de maio de 2011

Meu querido,
Você já parou para se perguntar o que é a felicidade? Sei que vais dizer que seu emprego bem-remunerado na Bolsa de Valores o faz feliz, e eu não duvido. Temos tido uma vida confortável e plena na maior cidade do país, onde somos profissionais bem-sucedidos. Brigamos pouco, ainda somos tão apaixonados como quando nos conhecemos. Mas essa é só uma das faces da felicidade, e nos últimos dias, eu conheci outra.
Venho a escrever-lhe do longínquo arquipélago de Vanuatu, sentada na areia branca sob um céu outonal tingido de matizes de vermelho, sentindo a brisa do mar no rosto e contemplando-o, turquesa, à minha frente. Estou numa pequena aldeia onde os vizinhos sorriem pra mim, ouvem minhas histórias e contam as suas, sentados diante da fogueira ou dentro de suas aconchegantes cabanas. Nós dividimos tudo, não somente a comida e o trabalho – minhas novas amigas me fizeram vestidos lindíssimos e eu as vesti com minhas roupas caras. Eles são tão gentis e acolhedores que até o trabalho é divertido.
Apesar de todas as facilidades e prazeres da grande cidade, nossos vizinhos sempre nos foram hostis, nunca nos endereçaram sequer um bom-dia. Estranhos na rua só nos abordaram para nos assaltar, nunca tivemos amigos em quem confiar verdadeiramente e, por mais que eu ame meu trabalho, devo admitir que muitas vezes estive à beira de uma crise de nervos por causa dele. Aqui tenho conforto apesar da simplicidade, amizades verdadeiras com pessoas simples e desprovidas da crueldade capitalista, e as mais maravilhosas paisagens, como se o céu, o mar e as pessoas se fundissem num ponto só. Parece-me a coisa mais certa deste mundo estar em Vanuatu, mas não quero está-lo sem você.
Nós temos bastante dinheiro no banco, ainda não temos filhos e nem me lembro qual foi a última vez que você tirou férias. Venha comigo. Largue seu emprego, seus ternos, encha uma mala de bermudas e pegue um avião. Embora minha vontade seja passar o resto da vida aqui, vamos dizer que estamos de férias. Deixarei que o lugar, as pessoas, o céu e o mar lhe mostrem quanto tempo devemos permanecer aqui.

Com amor, T.

domingo, 1 de maio de 2011

Hey kiddo, you gotta move forward.

Não se regride. Trilha-se, ao longo de um extenso caminho, alguns trechos muito similares a um já traçado. Mas por mais que você queira, não pode voltar pra sexta à noite, quando o final de semana oficialmente começou – contente-se em esperar a próxima. E valorize os dias bons, muitas vezes similares mas nunca idênticos.
E é exatamente a mesma coisa com a vida, porque ela é o próprio tempo. “Lifetime” é uma palavra um tanto redundante porque não sem o tempo não há a vida. Mas sem a vida, há o tempo. Logo, esta é a maior força existente. Intransferível, indestrutível, não pode ser parada.
É claro que você pode parar. Andar pros lados. Nisso a vida difere do tempo, por não ser uma força tão devastadora quanto ele. Mas desejar o passado, valorizar mais o já transcorrido do que o a transcorrer, é patético. As pessoas pensam que estão sendo profundas. Tenha boas lembranças da sua infância. Odeie a moda atual. Diga que sua pré-adolescência foi muito mais bem-aproveitada do que a das meninas de doze anos de agora, porque toda geração acha que as outras são uma porcaria. Mas em relação à sua própria vida, é claro que o futuro será melhor. Não acreditar nisso é viver sem propósito.
A cada ano que passa, os mais velhos falam que sua vida está só começando, ou mesmo que nem começou. Mas aos 16, 17, você sabe que já passou por um bocado de coisa – mesmo que sim, ainda tenha muito a viver e a conhecer. É um tanto paradoxo, você já esteve em dificuldades, mas provavelmente virão maiores. Às vezes elas parecem sofrimentos intermináveis, às vezes coisas bobas, apenas pedaços de fios, comparadas à tapeçaria da vida.
Pensando nos últimos meses, eu vejo que fui irresponsável e não me arrependo – não adianta. Mas a partir do momento que você começa a sair da areia movediça na qual estava acostumada a viver, respirar ar puro e ter liberdade de movimentos passa a fazer muito mais sentido, e você simplesmente quer sair de lá e nunca mais se afundar de novo.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

C'est ta force et ta faiblesse mais je suis conquise

Meu namorado é um visionário, lê filosofia russa por diversão, ouve Wagner e Mozart, é um gênio da matemática, ama literatura clássica, é capaz de discorrer sobre del Toro ou Kubrick ou qualquer outro com propriedade, valoriza MPB e cinema dos anos 50. Eu quero ser maravilhosa assim também, mas dentro dos meus próprios interesses. Eu o amo e o admiro, mas não pretendo tornar-me um clone monótono.
É como aquelas histórias onde a mocinha de boa família se apaixona pelo motoqueiro, e curiosamente eu sempre me julguei certinha o suficiente pra fazer o papel feminino.
Eu quero ser absolutamente convicta do que sou, sei e gosto. Mas acho que ainda não chegou a hora, e até lá tudo será um bocado confuso. Ao mesmo tempo em que ele e minha mãe me protegem pra que eu não seja influenciada por qualquer um, eles sutilmente direcionam-me para o curso que desejam que eu tome – e, por estarem tão profundamente ligados a mim, não serão impessoais.
Mas não importa; prefiro ser conduzida por aqueles que mais me amam na vida até que eu consiga caminhar pelas próprias pernas, do que me deixar ser levada eternamente pelo mundo. Não desejo ser um fardo eterno. Apesar de tudo, sinto que estou no caminho pra me tornar alguém como eles nesse sentido, mas também alguém única – encontrar o que tenho que ser, meu âmago singular e intransferível.
Em sua ânsia de querer uma filha que fosse melhor, mais inteligente, mais capaz do que ela tinha sido, minha mãe foi rígida comigo desde a mais tenra idade. Antes de eu entrar na primeira série, me ensinou a não chamar a professora de tia porque isso era coisa de criancinha. Me fazia estudar aquela matéria reles pra que eu fosse a melhor. E eu fui. Eu era uma criança sozinha, salvo minhas pequenas discípulas que se associavam a mim porque eu tinha a cobiçada caixa com 48 lápis. Mas quem se importa em ser sozinha quando se é a melhor?
Mas ah, como era fácil ser criança. Ser adorada pelos professores por saber o que era obrigação de todos saberem mas ninguém sabia. Ser respeitada pelas meninas por ter bons materiais escolares. Poder confiar cegamente nas escolhas que minha mãe fazia por mim. Mesmo que estivessem erradas, ela as reparava antes que eu me desse conta. Era como se minha mãe nunca errasse. Ela se tornou a imagem da impecabilidade. Sua rigidez valeu a pena no fim das contas.
Cresci pra ser alguém muito acima da média, mas longe de ser extraordinária. Só o sou porque a média é baixa demais. Possuo certo intelecto mas, se ele tem algum destaque, não é por meu mérito e sim pela ausência dele na maioria das pessoas. E, além de quase comum, me tornei alguém que não sabe tomar decisões.
Muitas vezes opto por A e no momento seguinte vejo como B era muito melhor. Muitas vezes deixo que o façam por mim devido à minha total incapacidade de escolher. Mas somos todos humanos, passíveis de erros. Minha mãe não podia lavar as mãos de uma escolha errada que ela tenha feito por mim. Mas agora ela ou qualquer outra pessoa em cujas mãos eu coloque meu destino por assim dizer, podem simplesmente dizer “você me pediu pra escolher, o erro foi seu. A vida é sua”.
A vida é minha. Mas que dádiva e que fardo.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

please put the doctor on the phone 'cause i'm not making any sense

As pessoas estão tão certas sobre o que elas querem, o que elas gostam, o que elas querem pro futuro e o que elas farão pra tanto. Mas eu não. Eu tenho uma vaga idéia do que quero, mas às vezes me sinto carregada nas costas pelos bem-resolvidos ao meu redor. Estou na linha tênue entre “quero assumir responsabilidades, juro que quero” e “mas porque tem que ser agora?”. Não sei se é uma coisa que tem que me vir naturalmente, ou se eu tenho que me esforçar pra me tornar tão responsável quanto esperam que eu seja.
Às vezes tudo fica em slow motion e eu me dou conta de algo chocante – chocante porque era uma verdade óbvia dançando conga diante do meu nariz e eu não tinha visto até então. Levo alguns minutos pra absorver aquilo e, como um personagem de mini-game, sinto-me reenergizada, absorvendo vidas-bônus, me tornando muito mais preparada pra enfrentar o big boss ou qualquer outro pequeno empecilho que me faça perder porcentagem de vida.
Não consigo viver e analisar ao mesmo tempo. Primeiro vivo, depois analiso. E muitas vezes classifico a ação como errônea. Algo que parecia completamente certo de manhã agora me soa absurdo, ou vice-versa.
Devo sentir-me viva ou apenas envergonhada por estar em tão constante transformação?
Minhas células da derme e das unhas se reciclam com um ritmo admirável, mas minha personalidade, e sobretudo meus pensamentos, conseguem superar sua rapidez.
A loucura muitas vezes é produto de uma mente brilhante arruinada pelo overthink. E se ainda não saí do terreno aceitável da sanidade, é por pouco brilhantismo, não por pouco pensamento.
Eu sou volúvel. E minha volubilidade vem do fato de que eu sempre quero me tornar o que as pessoas esperam de mim. Não apenas da pressão da sociedade, já quase que totalmente superada, mas da vontade de agradar meu público, mesmo que este seja imaginário. É o câncer das pessoas comunicativas. Você sente a necessidade de se tornar parte do povo e de deixar que eles façam parte de você. E de repente não há mais limite entre sua vontade e a vontade alheia.
É claro que eu não faço as coisas porque alguém quer ou manda. Ainda não tenho chefe, fui criada sem pai, e já obtive alforria materna, mesmo que não tenha chegado à idade. Mera formalidade.
Mas me pus a pensar ultimamente: eu faço muitas coisas porque me convenço de que quero. Não porque outra pessoa me convenceu, mas porque seus pensamentos me contaminaram mesmo que elas não quisessem. É puro consumismo mental. Meu eu-lírico faz compras na mente alheia e me traz pensamentos que não são meus mas que por fagocitose passam a fazer parte de mim.
Sempre julguei que soubesse ao menos tudo o que eu odeio, porque é mais fácil. Diz-se que amar é instantâneo, mas odiar é inesquecível. Mas nem isso.
Vamos lá, odeio Radiohead. Daí ouvi a mais maravilhosa versão de Creepy, cantada por um dos meus músicos preferidos (ao menos atualmente). Quero dizer, é um cover, mas vem do Radiohead, certo? E eu não posso odiar alguém que fez essa coisa linda, CERTO?
“Odeio uma garota que tentou me separar do Diogo”. Mas ela não conseguiu, certo? Eu nem vejo mais a sujeita, certo? Eu tenho mais o que fazer, CERTO?
E boa parte do que eu acreditava se parte diante dos meus olhos, como um espelho convexo, que mostrava uma minúscula parcela da realidade e todo o resto distorcido.
Não importa se a realidade muda ou permanece a mesma, o importante é que eu troque regularmente as lentes pelas quais as vejo. Que elas estejam polidas pra cometer o mínimo possível de erros.
Espero que não tenha prendido nenhum provável leitor até aqui apenas pela ânsia de descobrir como separar o que eu realmente sou do que o mundo me faz ser temporariamente, porque eu ainda não descobri, e provavelmente quando descobri-lo não poderei dar-lhes como fórmula porque será um caminho só meu, o qual nenhuma outra pessoa saberia ou conseguiria trilhar. Mas devo dizer: a maioria das coisas não são permanentes, mas não significa que não sejam importantes. São fases pelas quais é preciso passar e sem as quais a vida seria tão séria que você quase se sentiria na obrigação de pedir desculpas por ter cometido uma única e minúscula coisa estúpida no meio de toda uma trilha de impecabilidade.
Não quero ser impecável. Quero chatear as pessoas que amo o mínimo possível, sofrer o mínimo possível, mas não me privar de pequenas coisas estúpidas. Viver em sua plenitude é um erro a ser cometido, e não me refiro a vida social ou coisas assim. Cada um sabe o que é o seu conceito de viver plenamente. Cada um sabe das pequenas coisas que constituem sua felicidade.
Envergonhar-se e jurar não repetir algo do passado recente é sinal de crescimento desde então. Sentir-se feliz com uma coisa boba e que você jamais fará de novo não é errado. É uma felicidade efêmera, mas a própria vida o é. Muita coisa pode ser sacrificada, mas só vale a pena dispensar sacrifícios e esforços homéricos em busca de uma idealizada felicidade maior quando você também se permite ter fatias menores de felicidade, pois uma não anula a outra, e não há nenhuma garantia de que a “grande felicidade” chegará, ou quando será. Não é conformismo, é o raciocínio óbvio de que não vale a pena ser totalmente infeliz só pra se guardar pra uma grande felicidade muitas vezes ilusória.

sábado, 16 de abril de 2011

racing to outrun the wind

Engraçado o modo como às vezes você tem vários caminhos que podem ser seguidos, e mesmo não sabendo qual deles você deseja, você sabe aquele que você imagina que nunca vai tomar.
Então por algum motivo, você acaba por enveredar-se naquele mais improvável. Pode ser que seja apenas porque os outros estão obstruídos, mas normalmente é porque todos os outros, cedo ou tarde, vão acabar lhe conduzindo àquele, não importa qual tenha sido tomado inicialmente. Mesmo que você não perceba. Não existe outro caminho senão o que você se recusou veementemente a trilhar.
É natural a todos nós fazer o possível para realizar as próprias escolhas, mas nos esquecemos que somos como moléculas a receber calor, sujeitas a nos chocar umas nas outras freneticamente. Esquecemos-nos de que muitas vezes vamos ser os escolhidos, e não aqueles que escolhem.
Isso nada tem a ver com o deixa a vida me levar vida leva eu, a inércia na qual mergulhamos consciente ou inconscientemente em inúmeras situações da vida, atribuindo poder a tudo, menos a nós mesmos. Devemos, pois, fazer todo o possível pra trilhar o caminho que desejamos, pra viver a vida que planejamos, para que prevaleça nossa escolha. Todavia, se mesmo com esforços homéricos os fatos saírem de nosso controle, ouso dizer que pode ser parte de um plano maior.
Na efemeridade do momento, deixamos de valorizá-lo. Pois não é possível ao mesmo tempo vivê-lo em sua plenitude e analisá-lo, classificando se é ou não importante. Nosso reconhecimento aos momentos extraordinários é demasiadamente tardio.
Dois anos atrás. Não foi o melhor momento da minha vida, tampouco um dos melhores, mas pelo que sei até então foi o mais importante. O início da transição. Onde o preâmbulo começaria a ser história, e a história não seria escrita apenas por mim.
É claro que eu queria tê-lo conhecido sob circunstâncias pomposas. Nossos filhos gostariam de ouvir uma história que os fizesse acreditar no amor e buscá-lo a todo custo. Mas não foi nada disso. Eu, desde que passei a compreender um pouco do mundo ao meu redor, via novelas e sonhava (admito, cedo demais. Demais mesmo) em ter um amor como aqueles. Então, na avançadíssima idade de quatorze anos, eu desisti. Bad move, Lourenço. Porque algum dos roteiristas lá de cima olhou pra mim e pensou “Desistiu, é? Agora você vai ver”.
E é claro que na época eu não sabia. Eu não poderia imaginar. Gostava dele, de modo genérico – ele falava de música e cinema com maestria, não como aqueles moleques idiotas que existiam por toda parte, por quem muitas vezes eu tinha tido uma queda. Ele gostava de bandas que eu nem sonhava que mais alguém na cidade poderia ouvir. Ele era bonitinho – não lindo como veio a se tornar no ano seguinte, mas jamais poderia ser considerado feio. Só era alto demais pra mim e como ficava nervoso pra falar comigo, acabava sendo formal demais. Nenhum problema horrível.
Mas de algum modo haviam barreiras entre nós. Sabíamos das bandas que o outro gostava e das matérias que tínhamos tido nas aulas antes do intervalo, mas era só. Tínhamos uma relação agradável, cordial, distante. Não era o que todo mundo procura por uma vida inteira ou mais que isso, e eu não podia imaginar que ele se acabaria se tornando pra mim o que todo mundo procura por uma vida inteira ou mais que isso. Desconheço como foi exatamente que as circunstâncias me jogaram de volta nos braços dele, desta vez verdadeiramente, mas me sinto grata. Tenho meus sonhos e planos talhados em matéria gelatinosa e em nuvem. Farei todo o possível para alcançá-los, mas sei que ao longo do tempo, alguns deles vão mudar, porque a pessoa que os desejará será diferente da que agora os deseja. Tenho em mente que nenhum esforço é vão, que se eu não me esforço eu realmente não mereço nada; mas, que se eu me esforço e não consigo X, é porque conseguirei Y, que é muito melhor que X. Porque não só é fruto do meu esforço, mesmo que indireto, como faz parte de algum tipo de plano maior, algo que no final das contas terá sido o melhor – por mais que não pareça, ou que o alcance limítrofe da minha compreensão não queira aceitar.

domingo, 3 de abril de 2011

the mirror of the soul

E me veio a mente essa injeção que tomei dez anos atrás ou pouco menos. Minha primeira injeção. Na minha primeira série, em 2001 a.C., eu provavelmente era muito mais fodida que em qualquer outro ano. Todo dia tava caindo na escola, toda semana ficando doente, era um gigantesco ímã de desastres, exercendo uma força gravitacional sobre qualquer tragédia bem maior que agora.
Nessa vez em especial eu tinha passado uns três dias delirando. Eu ouvia uma música na minha cabeça – muito comum isso; sempre achava que era o vizinho que tava colocando música bem alto tarde da noite, mas ela estava na minha mente. Eu perguntava pra minha vó e pra minha mãe porque ele nunca desligava o som, mas ninguém mais ouvia. Bizarro isso, e até hoje não sei por quê. Não é possível uma criança de seis anos (ou menos, boa parte das vezes) guardar uma música inteira em inglês na mente a ponto de ouvi-la perfeitamente.
Além desse Media Player bizarro no meu cérebro, eu olhava pra parede e a via se distorcer, e vários pontos luminosos em formato da metade disso aqui ஜ. Era muito comum eu ver esse troço quando olhava pro sol, quando apertava bem o olho e depois abria, ou de olhos fechados sob a luz. E obviamente estava vomitando, espirrando, com dor de ouvido. Até eu tenho sintomas de gente normal.
Daí o Mário e a Karen me levaram pra tomar injeção. Eu sei que provavelmente não tem nenhum conterrâneo meu lendo esse blog mas eu morava no Hilda e na época só existia o pronto-socorro do Santana. Mundializando isso, do Hilda até o centro são uns 10km, suponho. E do centro até lá mais uns 6. Longe, lotado, com todas aquelas dores insuportáveis.
Eu fui com meu brinquedo preferido de todos, um ursinho carinhoso cor-de-rosa com desenho de arco-íris na barriga, tão velho que já não tinha mais o arco-íris e tinha adquirido um tom tristemente desbotado. Só deixei de ser tão grudada com minha ursa e parei de dormir abraçada a ela no ano passado, quando o Diogo me deu uma almofada de coração. Enfim. Eu estava apavorada, então minha mãe teve a idéia genial de falar que a ursa também ia tomar injeção. E fez até dublagem dela. Nunca me esquecerei da Karen dizendo “é gostoso e não dói” com voz idiota de bebê enquanto eu sentia uma dor horrível, excruciante, que me fez passar a noite inteira deitada no banco detrás com a bunda pra cima berrando, e a semana inteira sem conseguir sentar. Claro que eu dei escândalo e meio pronto-socorro correu pra ver o que era, mas isso não é pertinente, é?
Agora eu não sou mais tão doente, tirando meus ataques de sinusite diários. É muito difícil eu tomar uma injeção na bunda, acho que hoje foi a terceira da vida (e a segunda foi em 2009 quando eu torci o dedinho do pé), e é uma coisa perfeitamente normal. Uma picadinha desconfortável e pronto, nova em folha.
Certo, esse olho com lágrima na imagem do post não é porque eu voltei a 2007 (claro que eu postava fotos de olhos chorando sangue, como todos os sensíveis da época), mas porque eu peguei conjuntivite (thanks a lot, mom. Ela pegou primeiro e, ao invés de ficar quietinha reclusa, ficou desfilando pela sala e todo mundo pegou, menos o Mário e o Diogo).
É nessas horas que a gente resolve mandar os ditos populares pro inferno, porque se os olhos fossem o espelho da alma, a minha estaria um bocado embaçada, dolorida, míope (peguei meus óculos de grau ontem) e suja. Eu praticamente estaria num círculo do inferno que nem Dante foi capaz de visitar.
E claro que quando a gente fica doente começa a filosofar porque não tem mais porra nenhuma pra fazer. O corpo debilitado faz a mente funcionar em toda sua plenitude. A estática física parece fazer com que toda a energia corporal vá pros neurônios, e eles fervilham. Talvez eu tenha lembrado dessa história pela situação se repetindo dez anos depois e eu reagindo de modo muito diferente. Cada um faz o que pode fazer, e consegue o melhor no momento em que está preparado.
Vamos tomar por exemplo o político mais popular do globo. Ele era um péssimo operário, porque que tipo de idiota que não curte uma apotemnofilia arrancaria o próprio dedo? E apesar de toda a manipulação da Globo quando ele perdeu pro Collor, acredito que na época o Lula não estivesse preparado pra ser o homem mais importante do país. Assim como FHC era a porra de um ótimo Ministro da Fazenda, mas foi péssimo presidente. Assim como um monte de gente cheia de potencial falha miseravelmente por ter escolhido B ao invés de A em um único ponto da vida que arruinou todas as escolhas certas. Assim como um monte de gente assume a responsabilidade de fazer algo e o esforço não a torna competente ou preparada. Assim como gente totalmente aleatória simplesmente surge do nada e faz algo incrível.
Eu com seis anos foi tipo “a injeção está pronta pra mim, mas eu estou pronta pra injeção?”. Não estava, claro. Mas nesse caso era inevitável. So help me God, pra que eu possa saber quando é imperioso que eu faça tal coisa imediatamente, e quando é possível procrastiná-la até que eu esteja preparada.
E pra que meus olhos não caiam enquanto isso.

quarta-feira, 30 de março de 2011

diamonds are forever

Dez meses atrás eu tava tendo a conversa mais linda da minha vida.
Tenho usado todos os clichês e descrito de todos os modos um dos melhores dias de toda a minha existência. Sou dada a arroubos de sentimentalismo e demonstrações públicas de afeto são comigo mesma, de modo que, meus amigos, depois de anos sem cometer tal exibicionismo, vou colocar um poema meu num blog.
A Thatha de doze anos, aquela guria é uma babaca completa. Ela usa o internetês mais n00b do universo e se sente carregando o peso de todo o sofrimento do mundo nas costas, como qualquer bom poeta gótico. Mas ela é a porra de um gênio. Eu provavelmente conseguiria me igualar a ela em babaquice sem muito esforço, mas nunca escreverei poemas como ela. Claro que ela costumava escrever um bocado de coisas medíocres, mas ela era excelente na arte de versar e sabia disso.
Sem mais delongas, meu primeiro poema de amor real, correspondido e razoavelmente maduro. Castro Alves e Álvares de Azevedo não saíram de mim mesmo depois de quatro anos, com todo esse simbologismo de anjos e natureza, e todos nós sabemos que poemas de sofrimento são bons e de amor feliz são bobos, mas eu espero que esses versos sejam significativos a quem são destinados.

Diamante

O amor verdadeiro é inebriante
Tal qual as cortinas do firmamento infindo
Só a mais intensa chama é capaz de dilapidar o diamante
Definitivamente apagar todo esboço errante
Desvela-se, pedra bruta, em octaedro lindo!
E brilha, como paixão atemporal,
Como noite do luar de Camões,
Como puntiforme e incerta nau
Como olhos e mãos ao alcançarem nossos corações

Como o selvagem e místico amanhecer,
Deixa-te por mim guiar, deixa-te por mim morrer,
Deixa-te por um momento existir pra sempre em meus braços
Em matéria angelical e esquálida eu me perfaço
Pois nada pode destruir tal querer
Se Eras atrás Deus designou nosso enlaço

És toda minha vida propriamente dita, o fim do prefácio
No qual éramos tal qual querubins a planar no espaço
Agora teu olhar é a estrela mais brilhante
Celestial, estarei ao teu lado, amando-o a cada instante
De toda minha alma de pureza infante,
De todo meu ardor de carne, ossos e sangue pulsante
Te faço meu anjo errante, repleto de amor inebriante.

domingo, 27 de março de 2011

the kids you used to love but then we grew old

vamo fingir que a gente é branquinho assim galera

Are we growing up or just going down? It’s just a matter of time until we all find out. Take your tears and put them on ice, ‘cause I swear I’d burn this tribo down to show you the light.
As pessoas normais que lêem isso que me perdoem, mas eu preciso fazer um post de aniversário pra um dos meus melhores amigos. Cheio de piadas internas e tudo mais.
Dezenove anos, Felícia linda. E ganhando de presente coisas da faculdade, como uma mãe que ganha uma nova luva de cozinha de aniversário. Frustração total.
E como não consegui pensar em nada melhor, vou expor meu amor publicamente (pra mais umas quatro pessoas, dos quais devem ser três hate-stalkers).
Dois anos e meio não é muita coisa. Mas nós crescemos tanto nesse tempo, gente. Tudo começou porque estávamos os dois sem internet, morando na lan house. E porque assistíamos novela da tarde (quando não estávamos na lan house né). E porque espirrávamos alto. E amávamos fob acima de todas as coisas.
Agora aqui estamos nós, com internet, sem novela da tarde, com a melhor banda do mundo em hiato mas ainda nos nossos corações, e ainda espirrando alto, e os dois últimos itens não vão mudar nunca.
Primeiro, a fase piadinha. Morrendo de rir das nossas próprias vidas loser (ok, isso também continua praticamente inalterado). Sendo o único amiguinho um do outro no meio de um monte de gente que tentávamos agradar mas jamais conseguiríamos.
Daí fomos nos aproximamos por mais coisas em comum – banda preferida e mesma vida loser já é pauta pra meses de conversa né – até nos tornarmos aquele grude insuportável. “Vou no banheiro” “ai não vai, não me deixa aqui sozinha, você não me ama”.
“Tô saindo” “ah não, fica, por favor, te amo, vamos faltar na escola”.
Eram realmente coisas do gênero. E apesar desse grude todo ter sido ruim, na época a gente não podia se imaginar sem essa coisa toda compulsiva. E eu fico realmente feliz até pela fase que ficamos mais afastados, porque conseguimos amadurecer pra manter a amizade tendo vida própria.
Você é tão importante pra mim, e significa muito saber que eu sou sua melhor amiga. Você me encorajando pra ficar com o Diogo, eu te encorajando a sair de Nárnia. Você sempre esteve ao meu lado, me fazendo rir quando eu estava me preocupando demais com algo pequeno e me aconselhando nos momentos certos. Fazendo amizade com todas as outras pessoas importantes da minha vida e viajando oito horas pra vir pra tribo nos ver. Jogando glíter na minha existência. Se preocupando com todos meus problemas e dividindo os seus comigo. Você esteve ao meu lado em alguns dos piores momentos da minha vida e soube a coisa certa a me dizer, mas também esteve comigo, inclusive literalmente, em alguns dos melhores dias da minha vida. Devo usar os clichês de sou muito grata por ter você na minha vida e tudo mais? Porque é verdade. Sua amizade é uma das coisas pelas quais eu mais prezo na vida. E eu espero que daqui a uns anos a gente ria desse post, assim como rimos das peripécias de 2009, porque significa que ainda estaremos amadurecendo, e ainda seremos amigos. (ou amigas, nunca se sabe o que você vai ter aprontado até lá)
E vad, você merecia uma vida inteira de acessórios de sex shop pra eu retribuir tudo o que você já fez por mim, mas eu sei que você vai dizer “aw vad, que lindo, pode mandar o vibrador depois” e ficar feliz de verdade que eu tenha feito um post meio bobo, muito mal escrito, mas ainda assim que significa muito.
Eu sei que todo esse sentimentalismo e piada interna é uma coisa cretina quando se vê por fora, mas quando é a sua vida, a sua amizade, e sobretudo, alguém escrevendo sobre você, você realmente se sente especial. E é como eu quero que todas as pessoas que eu amo se sintam quando eu escrever sobre elas. Mesmo que todas as pessoas de fora me achem mais babaca que o normal. Principalmente por eu ter colocado uma foto que eu tô toda horrorosa, mas fiquei com preguiça de procurar uma foto bonitinha com vela de aniversário e tal, como seria mais apropriado.
Eu pensei também em fazer uma retrospectiva desse tempo de amizade e tal, mas minha memória é péssima e eu só consigo lembrar da gente brigando por causa de waking up in vegas e chorando com seize the day.
Então, Bryan Felícia Albuquerque, feliz aniversário. E obrigada por ter compartilhado os últimos dois anos e meio desses dezenove comigo. E não adianta só agradecer a homenagem, tem que cantar dancing queen no meu aniversário porque eu passei a vida inteira esperando pelos dezessete só pra poder colocar “young and sweet only seventeen” no quem sou eu do orkut.